Canal da Imprensa : Quais filmes que discorrem sobre jornalismo merecem destaque?
TT Catalão: A Montanha dos Sete Abutres , um filme de 1951 com Kirk Douglas, é um clássico que sintetiza a questão social da imprensa, que é a nossa profissão, não é? Acho perfeita a idéia. O filme lembra muito a profissão ligada ao espetáculo relacionado ao jornal, que quanto mais se assume como um produto, mais vira mercadoria. Em uma parte do filme, Charles, personagem principal, diz: "Não tem problema não, se não tiver notícia eu vou na rua e mordo um cachorro". Um cachorro morder um homem não vira notícia... mas um homem morder um cachorro é notícia! A montanha dos sete abutres é um filme emblemático que acaba fazendo uma crítica à própria sociedade, à fragilidade da sociedade. Mesmo sabendo que é uma farsa - o que parece participar de um ilusionismo, de um mundo mágico – as pessoas querem acreditar naquilo. Isso é um fenômeno da comunicação. Que rigorosamente jamais vai ver aquilo que você está esperando que é realmente uma verdade. Sem ser desagradável.
CI: O público não quer necessariamente ver a verdade?
TT Catalão: Não quer. Ele não deseja sequer ser incomodado.
CI: Vale o ditado “a verdade dói”?
TT Catalão: É, a verdade dói. Ele não quer ser questionado, incomodado... Então, a crítica norte-americana na época, sentiu na veia a história. O filme trata o povo norte-americano como marionetes que podem ser jogados de um lado para outro. Não estou ofendendo o povo norte-americano, jamais. E nem generalizando. Mas essa história de você ser manipulado como, por exemplo, acreditar que haviam armas nucleares no Iraque. As pessoas acreditam por que querem acreditar. E criam alguns estereótipos. Não é a toa que o Super-homem é jornalista.
CI: O que achou do recente Boa noite e boa sorte ?
TT Catalão: É um filme bem sério. Extremamente recente e próprio para essa época de manipulações. Mas já a A montanha dos sete abutres toca mais fundo. Primeiro porque foi uma história que aconteceu mesmo em 1925. Uma pessoa ficou enterrada por 18 dias numa caverna e a imprensa ficou martirizando. Só que o Billy Wilder [o protagonista] inverteu um pouco o personagem. Ele meio que retarda o socorro ao enterrado exatamente para estender a matéria e o indivíduo morre. E tudo se transforma em um grande carnaval mesmo.
CI: Você acha que esta questão da ética no jornalismo, da manipulação da mídia, são os principais temas tratados em filmes que falam sobre a imprensa?
TT Catalão: Sim. Quando não é o estereótipo do jornalista sempre estressado, é profissional sempre capaz de salvar uma nação - que é o caso do Super-homem...
CI: A sociedade assimila as imagens que os filmes tentam transmitir do jornalista e da prática do jornalismo?
TT Catalão: Sim. Um exemplo forte pra isso é como o jornalismo é tratado em novelas. Há sempre a tentativa de mostrar o jornalista com aura de Super-homem. Esse é um jornalismo que está acabando, o jornalismo do repórter investigativo. Hoje em dia é um produto raro no mercado. O profissional que é um repórter investigativo, tipo Super-homem, cara fantástico que vai esmiuçar, derrubar um sistema, é o estereótipo de um jornalismo em extinção, cujo exemplo maior é o filme Todos os homens do presidente .
CI: Você acha então que de uma forma em geral há um exagero ao se retratar a imprensa?
TT Catalão: O que se faz é uma caricatura. A caricatura precisa de exagero porque ela trabalha com distorções. Caricatura é o que caracteriza uma pessoa, se ela tem um nariz grande, uma testa gigantesca, uma sombracelha imensa é a isso que o caricaturista vai se apegar. Isso é próprio da caricatura. É por isso que como jornalismo mesmo, A montanha dos sete abutres é perfeito. Porque é mesmo um mau jornalismo. Existem outros bons filmes, mas para mim é esse que marca mesmo.
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