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Jornalistas na mira do cinema

Desde Cidadão Kane até Diamante de Sangue , muitos filmes trouxeram as mais diferentes representações do jornalista e de sua profissão. O que Hollywood tem a dizer sobre a imprensa?

Tales Tomaz

Quando se fala em filmes, a primeira classificação que vem à mente é a de gênero: trata-se de drama, comédia, aventura ou suspense? No entanto, Hollywood descobriu faz algum tempo um filão que subsiste sem encaixar-se nas categorias tradicionais. É a discussão sobre o papel da imprensa. Muitos acreditam que filmes assim são uma espécie de mea culpa da mídia. Outros os vêem apenas como produtos da indústria do cinema. Afinal, o que Hollywood tem a dizer sobre a imprensa?

Cidadão Kane (1941) provavelmente foi o primeiro filme que tratava da própria mídia a conquistar espaço na crítica cinematográfica. Dirigido e estrelado por Orson Welles, o filme trata de um jornalista que construiu um grande império de comunicação. No Brasil, o filme rendeu a Roberto Marinho a inevitável comparação com Charles Kane.

Após Kane , seguiram-se vários filmes jornalísticos, alguns tratando o jornalista como uma importante voz da sociedade. Todos os Homens do Presidente (1976), de Alan Pakula, por exemplo, abordou a história de repórteres do jornal Washington Post cuja investigação desencadeou na renúncia de Richard Nixon. Outra película que seguiu a mesma linha idealizada do jornalista foi O Informante (1999), dirigido por Michael Mann. O filme é baseado na história real de um conflito entre uma empresa de tabaco e seu ex-executivo, que decidiu revelar à CBS que a empresa colocava elementos viciadores no produto. O debate sobre o papel do jornalista perante a sociedade é o que predomina neste filme.

No entanto, há outro tipo de filmes jornalísticos, aqueles que tratam das falhas da imprensa em cumprir sua missão. Entre esses está O Quarto Poder (1997), de Costa-Gravas e O Show de Truman (1998), de Peter Weir, filmes que questiona a manipulação opinião pública pela mídia. Em O Show de Truman , o personagem contracenado por Jim Carrey não sabe que sua vida é televisionada e que todas as pessoas com quem ele convive são atores de um complexo Big Brother em rede nacional.

O Preço de Uma Verdade (2003), dirigido por Billy Ray, acabou se tornando obrigatório entre professores e estudantes de jornalismo pela forma como aborda a ética do jornalista. O personagem principal, Stephen Glass, inventa notícias para subir na carreira. Quando é descoberto, perde tudo o que conquistou. Mas quando o tema é manipulação, a referência é o filme A Montanha dos Sete Abutres (1951).

O circo da imprensa

“O clássico A Montanha dos Sete Abutres sintetiza a questão crucial do jornalismo, que é a manipulação”, afirma TT Catalão. O jornalista, ex-editor do Correio Braziliense e crítico cultural, avalia que de todos os filmes já produzidos sobre o assunto, “esse ainda é o melhor”. Produzido em 1951, A Montanha dos Sete Abutres foi dirigido por Billy Wilder. Na trama, o jornalista Charles Tatum retarda ao máximo o resgate de um homem que estava preso em uma mina, a fim de conseguir material para uma grande reportagem. O filme foi um fracasso de bilheteria. A crítica norte-americana simplesmente execrou o filme pela forma cínica como ele abordava o papel da mídia. Billy Wilder acabou dizendo posteriormente que o filme foi criticado porque colocou um espelho diante da sociedade - e esta não gostou do que viu.

Para TT Catalão, o segundo título do filme - The Big Carnival [algo como “O Grande Carnaval”] - expressa exatamente o grande circo criado pela mídia para atrair a massa. “Quanto mais o jornal se assume como produto, mais a notícia vira mercadoria”, resume o jornalista. Para ele, o filme também “é uma crítica à fragilidade da própria sociedade”, em especial à estadunidense. “O filme trata o povo norte-americano como imbecis que podem ser jogados de um lado para outro”, interpreta Catalão. Como exemplo, ele cita o fato de o público americano ter acreditado na mídia que afirmava que existiam armas de destruição em massa no Iraque.

“Os filmes constroem uma representação dos profissionais e freqüentemente constroem uma representação do público”, destaca o jornalista Vanderlei Dorneles. Doutorando em comunicação pela USP e professor de Teoria da Comunicação do Unasp, Dorneles explica que essas representações não são independentes da visão que a sociedade já tem, como muitos teóricos pensavam até a década de 60. “Às vezes eles constroem uma figura positiva, às vezes negativa”, classifica o jornalista. O Quarto Poder e O Informante tratam, respectivamente, de imagens negativas e positivas do jornalista. Ambas as idéias já estão presentes na visão da sociedade, embora, na opinião de Dorneles, a imagem do jornalismo marrom ou sensacionalista ainda seja predominante.

Mais recentemente Capote e Boa Noite e Boa Sorte , ambos de 2005, destacaram-se como filmes sobre a imprensa. No primeiro deles, o jornalista-escritor Truman Capote, interpretado por Philip Seymour Hoffman, envolve-se acima do permitido pela “tradição” jornalística com a história de um crime em uma pequena cidade do Kansas. Já Boa Noite e Boa Sorte (2005), filme de George Clooney, retrata um conflito entre um âncora de telejornal e o senador americano Joseph McCarthy, em período conturbado vivido pela imprensa estadunidense. Merece destaque também Diamante de Sangue (2006), um “documentário” em forma de drama sobre o contrabando de diamantes em Serra Leoa e o papel que os jornalistas exercem no local.

No Brasil, os filmes mais recentes – e também mais significativos – que têm papéis de jornalistas são Cidade de Deus (2002), dirigido por Fernando Meirelles, e Redentor (2004), de Cláudio Torres. No primeiro, o foco é o fotojornalista e seu papel como mediador entre a favela e a sociedade. Já no segundo, o enredo é baseado num jornalista que acaba vendendo suas matérias a fim de salvar os negócios de um empresário e receber dele uma recompensa. O cinema brasileiro ainda é inexpressivo na representação da mídia, embora as telenovelas brasileiras sejam ricas nessa papel. Dorneles cita em especial as recentes Celebridade e América , ambas da TV Globo, que mostraram a notícia do ponto de vista da “mercadoria”.

O olhar dos universitários

Estudantes de jornalismo também têm suas próprias opiniões sobre como Hollywood enxerga a imprensa. Alexandre Morato, aluno de Comunicação Social da PUC-MG, assistiu Boa Noite e Boa Sorte . “O filme mostrou bem a situação do jornalismo naquela época retratada, mas a influência que ele exerce sobre a sociedade é muito limitada”, afirma Morato.

“O ideal”, conforme Johannes Fermino, ex-aluno de jornalismo da Cesumar-PR, “seria iniciar um debate após a exibição do filme para uma melhor assimilação do conteúdo”. Segundo o estudante, a profissão é pouco valorizada para se realizar um trabalho tão exigente, como é retratado na maioria dos filmes. Fermino, hoje estudante de Direito na Unicentro, em Guarapuava, PR, reclama que a maioria das faculdades de jornalismo não está preocupada em formar pessoas críticas, mas somente técnicos.

Quando o assunto é “jornalismo no cinema”, os mais elevados princípios e os mais nobres estereótipos do jornalista dão lugar a variadas representações. Em sua maioria, são retratos de um jornalismo desfigurado, descomprometido com a sociedade e voltado para o lucro. Ironicamente, cabe ao cinema, uma das mais lucrativas máquinas do mundo da comunicação, o dever de alertar os cidadãos dos abusos ou deslizes da imprensa. No entanto, sucessos de bilheteria ou não, os filmes carregam imagens e representações do jornalismo que têm o poder de influenciar sociedade, governos e a própria imprensa, cujo calcanhar-de-aquiles é sua capacidade de autocrítica. Quando o jornalismo vai ao cinema, há sempre a esperança de que iremos assistir mais do que apenas “outro filme-pipoca”.