O relatório divulgado pela ONU em fevereiro sobre o aquecimento global causou impacto na imprensa. Jornais e revistas divulgaram trechos do relatório e reportagens especiais analisando sua credibilidade. Mas, após mais de um mês de repercussão, que importância a imprensa tem dado ao aquecimento global? Ao analisar O Estado de S. Paulo e a Folha de S. Paulo, jornais de maior circulação do país, existe um paradoxo.
Tanto O Estadão quanto a Folha deram destaque ao novo relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), no dia 03 de fevereiro deste ano. Criado em 1998 pela Organização Meteorológica Mundial e pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), o IPCC conta com a participação de centenas de cientistas especialistas em clima, o que fortalece sua credibilidade.
Durante a semana da divulgação do relatório, O Estadão desprezou as noticias sobre o aquecimento global, para atender uma população induzida a se interessar mais nas prévias do carnaval do que em um problema mundial. A Folha , ao contrário, trouxe por três dias consecutivos o tema como capa do jornal, alertando a sociedade para a relevância do assunto.
A pauta mais nobre
O Estadão, em março, trouxe apenas uma reportagem relevante sobre o assunto, no dia 03. A matéria deu enfoque à capital paulista: “A temperatura média na capital subiu 2,6°C nos últimos 77 anos.” O texto afirma que fevereiro de 2007 foi o mês mais quente dos últimos três anos na capital. O assunto interessou ao público, pois citou algo que o brasileiro vem sentindo na pele.
A Folha trouxe diariamente reportagens interessantes sobre o assunto, levando o leitor a refletir, além de explicar todos os detalhes envolvendo o relatório. Entre as matérias apresentadas pela Folha, a do dia 08 de março analisa a postura do Brasil no combate às causas do aquecimento global. Na matéria, o climatologista Carlos Afonso Nobre, membro do IPCC, explicou a importância do relatório da ONU para o Brasil e os riscos de estarmos atrasados nas investigações dos impactos climáticos no País.
Aquecimento queima O Estadão
De forma geral, a cobertura de O Estadão de fevereiro a março foi superficial e mostrou descrédito às informações apresentadas pelo IPCC. O Estadão, como veículo de informação em nível nacional, foi negligente. Os efeitos do aquecimento são visíveis e previstos há anos. Exemplo disso é o Protocolo de Kyoto, estabelecido em 1997 com o objetivo de redução da emissão de gases causadores do efeito estufa pelos países desenvolvidos. O perigo é iminente, a sociedade precisa estar informada para exigir medidas que amenizem as causas do aquecimento.
Já a Folha, mesmo trazendo reportagens diárias sobre o assunto, não saturou o leitor, conseguiu atingir a expectativa da população, cumprindo seu papel social. É isso que se espera de um veículo de comunicação, responsabilidade com informação.
É preciso mostrar para a massa que há um problema maior do que o desemprego, a carência no atendimento público na saúde e na rede escolar, a moradia, etc. Essas dificuldades são insignificantes perto da possibilidade de extinção da vida na Terra. |