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Cuidar do planeta

Daniel Liidtke

No ar-condicionado das redações das revistas National Geographic e Terra , o aquecimento global é assunto quente. De 2003 para cá, as publicação sobre o tema se tornaram mais freqüentes, mas ainda faltam reportagens específicas. Várias manchetes são sensacionalistas, mas o conteúdo é sério e embasado.

Fim do mundo

Em setembro de 2003, a revista Terra já previa “O fim do mundo”, como publicou:

    A idéia de que o mundo vai acabar algum dia é tão velha quanto nossa própria civilização. Há mitos e profecias sobre o final dos tempos em todas as culturas e o tema se revela central na maioria das religiões. O que não se poderia supor, porém, é que cientistas renomados e de várias especialidades pudessem unir suas vozes no alerta de que a espécie humana pode estar à beira da extinção. Pois é o que está acontecendo.

Nessa reportagem, com o título interno “A humanidade por um fio”, Terra tratou de várias possibilidades para a extinção da vida no planeta, entre elas o aquecimento global.

A National Geographic também já vem alertando há anos. Em setembro de 2004, por exemplo, a revista manchetou: “Os últimos dias do planeta”. A despeito do título sensacionalista, abordou-se o tema com cautela:

    O aquecimento global pode parecer demasiado distante, ou demasiado incerto, para com ele nos preocuparmos – semelhante a qualquer previsão feita pelas mesmas técnicas informáticas que muitas vezes nem conseguem acertar no boletim meteorológico da semana seguinte. Mas que a Terra está a aquecer, isso é um facto. Resta saber quanto desse aquecimento se deve ao Homem?

Embora a National Geographic não tenha criado alvoroço, também não escondeu os fatos a seus leitores. Assegurou que fenômenos que antes levavam toda uma era geológica para acontecer, agora acontecem no espaço de uma vida humana. “É como se estivéssemos a ver a Estátua da Liberdade a derreter”, exemplificou Fagre, cientista norte-americano, na reportagem “O grande degelo”. E a revista esclareceu:

    As famosas neves do Kilimanjaro derreteram mais de 80% desde 1912. Os glaciares do Garhwal Himalaia, na Índia, estão a regredir tão rapidamente que os investigadores crêem que, na maior parte dos Himalaia central e oriental, os glaciares poderão desaparecer praticamente por volta de 2035. A espessura do gelo do oceano Ártico reduziu significativamente ao longo do último meio século e a sua extensão diminuiu cerca de 10% nos últimos 30 anos.

Aquecimento indireto

As duas revistas aproveitam temas diversos e viagens a extremos gelados do planeta para falar sobre o aquecimento do globo de modo indireto. Algumas abordam mais especificamente a questão, como a reportagem da National Geographic “Alpes em risco”, de fevereiro de 2006, que explanou como estações de esqui da Áustria, Alemanha e Suíça driblam o degelo fora de época e não perder os clientes. Mas a maioria das reportagens apenas insere informações sobre o assunto.

Como exemplo, encontra-se a edição de junho de 2006 de Terra . O tema de capa foi a Patagônia, na fronteira entre Chile e Argentina, que é o terceiro maior agregado de gelo do planeta. A reportagem abordou o aspecto turístico do lugar e aproveitou para abordar o aquecimento global:

    (...) Na Patagônia, o Campo de Gelo Sul perdeu mais de 500 quilômetros quadrados desde 1945. "É grave essa deterioração tanto pelos efeitos sobre o clima regional quanto pela perspectiva de falta da água potável gerada pelas geleiras no futuro", diz Gino Casassa, diretor do Laboratório de Glaciologia e Mudança Climática de Valdívia, no Chile. A causa pode ser o efeito estufa, provocado pelo excesso de gases poluentes.

Mas a Terra não sensacionalizou a questão:

    No entanto, há cientistas que discordam do alarmismo. Pesquisas recentes comprovaram que períodos de glaciações e grandes degelos permeiam a história do planeta naturalmente, graças a fatores como a rotação da Terra em torno do Sol e outros movimentos do planeta - todos longe de ser regulares e simétricos.  
    Isso aumenta e diminui a temperatura no planeta em até 5º centígrados. Não fosse isso e a própria Patagônia prescindiria de paisagens tão belas como o Parque Nacional Torres del Paine ou os fiordes da região do sul do Chile, forjados ao longo de milhões de anos pelo vaivém das massas de gelo.

A National Geographic também faz link de outros assuntos com o aquecimento do planeta. Na edição de janeiro deste ano, a reportagem de capa, “Amazônia Ilegal”, apontou que o colapso ecológico da floresta amazônica pode ser intensificado com o aquecimento global. Já a matéria de capa da edição de agosto de 2006, “Super-tempestades”, também associou o aumento da violência dos furacões ao aquecimento da Terra. E por aí vai.

Recentemente não houve nenhuma reportagem específica sobre o assunto em nenhuma das duas revistas em análise. Todavia, na internet, tanto na Terra Notícias como na página da National Geographic News , o assunto está sendo altamente veiculado, como resultado do interesse social no tema.

Quanto às revistas mensais, os termômetros parecem indicar que em breve elas irão estampar outra vez o fim do mundo. Com certeza a chamada será sensacionalista, mas se for seguida a mesma linha editorial, as reportagens terão conteúdo relevante e de alguma forma trarão benefício à população e ao planeta. Afinal, o novo lema da National Geographic é “inspirar as pessoas a cuidar do planeta”. A Terra também transparece essa idéia. E o Planeta necessita urgentemente disso.