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Tales Tomaz

 

Sérgio Abranches é mestre em Sociologia pela UnB, PhD em Ciência Política pela Universidade de Cornell e Professor Visitante do Instituto Coppead de Administração, UFRJ. Ele é colunista do O Eco e da rádio CBN (Ecopolítica).

O sociólogo diz que o aquecimento global realmente é uma questão bastante séria e que a mídia não está errada em “carregar nas tintas”. Mas ele acredita que o viés da cobertura ainda é ineficaz e deveria abordar a forma como as pessoas podem evitar verdadeiras tragédias.

Canal da Imprensa - O que é o aquecimento global que nesses últimos dias ganhou tanto destaque na mídia?

Sérgio Abranches - O aquecimento global não é uma novidade. É novidade para aquelas pessoas, sobretudo aqui no Brasil, que prestaram muito pouca atenção à evolução dessa discussão a respeito da mudança climática global, o aquecimento global, discussão que já vinha crescendo desde o final dos anos 80. Nos anos 90, se firmou um consenso científico que começou a ser construído lá atrás, na década de 70, com as pesquisas. O efeito estufa é conhecido há muito tempo. Na verdade, ele foi descoberto no final do século XIX, tem uma longa história. Aí esqueceram dele por um algum tempo, no começo do século XX foram divulgadas algumas pesquisas. Aí nos anos 70 já havia importantes figuras, que continuam no debate hoje, dizendo que a coisa era complicado.

CI – Estudos indicam que houve um grande período de aquecimento do globo entre as décadas de 20 e 40 e que voltou com força a partir dos anos 70...

SA - Aquecimento global, no sentido do efeito estufa natural, causado por fenômenos naturais, sempre houve. A história do planeta é uma história de aquecimento e resfriamento. O aquecimento já houve várias vezes. Agora esta é a primeira vez que nós temos um aquecimento cuja aceleração é predominada pela ação humana.

CI - A ação humana é realmente o diferencial?

SA - Esse é o diferencial. A ação humana passou a ser determinante no processo de aquecimento, na extensão do aquecimento. Dizer que a Terra se aqueceria é mais ou menos garantido. Só que provavelmente isso se daria no tempo geológico, com várias centenas de anos. Mas com a concentração de gases-estufa que nós produzimos, sobretudo dos anos 70 pra cá, conseguimos afetar de tal maneira o processo que ele se alargou e se acelerou.

CI – Neste ano foi divulgado o relatório do IPCC (sigla em inglês para o Painel Intergovernamental sobre a Mudança Climática). A imprensa brasileira deu bastante ênfase no relatório. Esse fenômeno é realmente tão sério?

SA - Ele é seríssimo. Agora a imprensa carregou nas tintas porque ficou muito tempo sem olhar para o fenômeno. Aí, quando descobriu, foi pelo pior cenário. Agora, na verdade, o que podemos dizer é o seguinte: o pior cenário pode não acontecer. Se a gente tomar atitudes imediatas, ele pode não acontecer. Ainda há volta para o pior cenário, agora para cenários intermediários, não. Já passamos do ponto de reversão de alguns fenômenos importantes. Por exemplo, já ocorrem mudanças climáticas e efeitos importantes em vários lugares do mundo. Vou te dar um exemplo aqui na América do Sul. Os mosquitos da dengue e da malária, esses que provocam endemias, já subiram quase 1.000 metros por causa do aquecimento. Isto é, as montanhas vão aquecendo de baixo para cima. O frio era uma barreira natural. À medida que a temperatura vai subindo e há degelo, os insetos sobem junto.

Quer dizer, tem muito mais efeito ecológico na vida animal, mostrando os efeitos da mudança climática por causa da migração de insetos, animais, aves do que propriamente na física do clima. Essa mudança a gente [ser humano] sente menos, mas já houve mudanças importantes. É muito provável, por exemplo, que as montanhas mais altas dos Andes, Aconcágua e outras entre 6.000 e 5.000 metros de altitude, não tenham mais gelo permanente antes do final da década de 2010. Alguns processos já estão avançados, como desertificação..., secas mais graves, chuvas mais intensas. O período de chuvas vai diminuir, mas elas ficarão mais intensas. Quando chover, vai chover demais. E a seca também será muito forte. Isso vai acontecer, é inexorável. Não vai acontecer no pior limite, mas nós vamos ter eventos climáticos mais intensos, vamos ter mais tornados e, inclusive no Brasil, furacões. Isso vai ter.

Não acho ruim que a imprensa carrega nas tintas, porque precisa criar um clima de urgência, não porque vamos enfrentar uma emergência neste ano ou no ano que vem, mas porque se não começarmos a falar isso agora... A discussão não está completamente clara. Não é só tentar evitar que aconteça o pior. Ou seja, diminuir a emissão de gases-estufa, diminuir dramaticamente o uso de combustíveis fósseis, zerar o desmatamento das matas tropicais, como a Amazônia. Isso é importantíssimo para evitar o pior, mas talvez até mais importante do ponto de vista da qualidade de vida dos que estão vivos hoje no mundo é se preparar para os efeitos que já virão. Esse processo de adaptação a um clima diferente, alterado, é fundamental. Você precisa ter uma defesa civil de muito maior qualidade, você tem que ter sistemas de previsão de tempestades e furacões de muito maior qualidade para poder avisar as populações com antecedência para elas poderem sair. Quer dizer, temos que começar já a planejar, para conseguir suportar o que virá.

CI - Você acha que a população está ficando informada nesse sentido?

SA - Nem de longe. Você vê que teve muita ênfase na mudança climática e pouquíssima na necessidade de adaptação, de se preparar para aquilo que já aconteceu.

CI – Há ênfase demais no documento e no que os cientistas disseram e fala-se pouco daquilo que pode ser feito...

Não é “o que pode”, é “o que deve”. Se não fizer, vamos ver uma tragédia. Imagine uma forte enchente. Se hoje essas enchentes que já estamos acostumados, que acontecem em todo verão, dão problema do jeito que dão, imagine quando for uma coisa acentuada, acompanhada de ventos de mais de 100km/h. Nós não estamos acostumados com isso.

CI – Como você mesmo citou, em janeiro tivemos vários casos de chuvas no Brasil que causaram grande transtorno. Isso levanta outra questão: o Brasil tem uma política ambiental eficiente?

SA – Não. Tem alguma, mas é muito incipiente e é muito periférica dentro do sistema de decisão do governo. A própria leitura do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) mostra que há um absoluto e total silêncio sobre as questões ambientais. O governo estava falando da fronteira agrícola em expansão... Se a fronteira expandir mais um pouco na Amazônia vai transformar a Amazônia em cerrado! Na verdade, o Plano de Aceleração do Crescimento deveria estar acompanhado de uma nova avaliação da questão ambiental e criar limites na expansão das fronteiras da Amazônia. Há outras coisas, como as termoelétricas, que contribuem da forma mais dramática possível para o efeito estufa, quando poderíamos substituir todas as termoelétricas no Brasil por outras fontes de energia. E não tem uma palavra no governo sobre economia de energia.

CI – E o brasileiro também não está informado sobre isso?

SA – Não está. E quando informado, ele reage bem. Você lembra no apagão? Com informação e um pouco de incentivo, tinha um prêmio e uma punição pra quem gastasse energia, reduzimos em quase 25% nosso consumo de energia. Ficamos durante muito tempo nesse padrão de baixo consumo. Depois fomos relaxando, porque não teve mais nenhum incentivo, não teve mais nenhuma informação, e hoje estamos com o consumo similar àquele da época do apagão. Hoje há um estudo da Universidade de Campinas para a WWF que mostra que podemos dobrar nossa capacidade de geração de energia sem investir um centavo em nova geração, só com a manutenção das usinas que temos, melhorando as condições dos reservatórios e a eficiência das turbinas. Só com o programa de energia, dobraríamos nossa capacidade instalada de geração de energia elétrica a um custo de 1/3 do que precisaremos para dobrar a nossa capacidade de geração com o investimento em novas usinas de energia. Então, é muito inadequada a política ambiental brasileira. Não há uma política de qualidade do ar para reduzir a poluição, que faz mal às pessoas e causa o efeito estufa. Eu acho que estamos muito...

CI – A mídia deveria se engajar em informar isso?

SA – Eu não tenho dúvida. A mídia deveria deixar de olhar a questão ambiental como uma pauta separada do resto. “Olha, tem que fazer uma matéria sobre a Amazônia, tem que fazer uma matéria sobre a poluição do ar”. Isso tem que fazer, mas, além disso, a mídia tem que se treinar para cada vez que for tratar de um assunto se perguntar “qual é a dimensão ambiental?” Por exemplo, vai ter um boom de construção civil. O que isso significa? Isso significa que é uma tragédia! Isso aumenta o consumo de carvão vegetal, que leva ao desmatamento, contribuindo para o efeito estufa. Isso aumenta a produção de aço nas siderurgias, o que aumenta o efeito estufa, porque elas não estão trabalhando ainda como deveriam para reduzir o seu impacto. Isso aumenta o consumo de cimento, aumenta o consumo de alumínio, que gasta muita energia. Então, cada vez que você olha por um lado a pauta convencional, você pode olhar o ângulo ambiental, e esse ângulo ambiental hoje ganhou relevância. Na verdade, acho que a imprensa deveria fazer uma revisão da maneira como ela executa a pauta. E cobrir mais o Brasil, parar de cobrir só São Paulo, Rio e Brasília e olhar mais para o restante do País, Amazônia, nordeste e sul.

CI – Os Estados Unidos não assinaram o protocolo de Kyoto. Como você vê isso?

SA – Os Estados Unidos vão entrar nessa questão sem a menor sombra de dúvidas, qualquer que seja o novo presidente. Seja ele republicano ou democrata, os EUA terão uma nova postura sobre o clima a partir de 2010. Não vai adiantar mais ratificar Kyoto, que pode até ser que os EUA ratifiquem, mas o mais importante é colaborar para a definição do pós-Kyoto, que entra em vigor em 2012. Entre agora e 2010, vão acontecer coisas importantes nos Estados Unidos e já estão acontecendo. Os governos dos estados estão tomando medidas tão importantes quanto na Europa. E por outro lado, o Congresso, que agora é democrata, também está pronto para votar uma série importante de medidas que vão melhorar a postura dos EUA com relação à questão ambiental.

CI – A mídia norte-americana tem uma tendência nacionalista, de apoiar as medidas que os seus governos tomam, como aconteceu no episódio da guerra do Iraque, quando a imprensa apoiou Bush na acusação - hoje comprovadamente falsa - de que o Iraque tinha armas de destruição em massa...

SA – Mas na questão ambiental, não. Se você pegar a cobertura da mídia norte-americana, já faz muito tempo que ela não dá mais abrigo à questão dos céticos. Pelo contrário, ela tenta desacreditá-los, mostrando que os céticos estavam errados ao não dar muita ênfase à questão climática. Recentemente ocorreu um episódio interessante, a denúncia de que o governo estava censurando os seus cientistas. O governo dos EUA tem cientistas muito importantes, como aqui. Onde estão os nossos principais cientistas? No INPE, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, que faz parte da estrutura do Ministério da Ciência e Tecnologia. Nos Estados Unidos, eles estão na NASA. Quer dizer, a censura da imprensa norte-americana representaria um grande dano na divulgação de importantes pesquisas com respeito à situação climática do mundo, e a imprensa simplesmente fez uma denúncia arrasadora. E, ao mesmo tempo em que o governo negou, o fato é que ele parou de censurar porque a imprensa ficou em cima e perguntava: “Continua a censura?”, para evitar essa perda de informação fundamental, que afeta também o próprio trabalho da imprensa. Aí também é uma defesa da própria liberdade de imprensa, que pode ser ferida de duas formas: censurando o porta-voz ou censurando a fonte, proibindo a fonte de falar, que é isso que de vez em quando tentam aprovar aqui no Brasil, constrangimento da fonte.

CI – Num panorama geral a mídia voltou a assumir essa causa, mas falta um enfoque prático?

SA – A mídia começou a descobrir a questão. Quando começamos o Eco, há três anos atrás, praticamente não havia noticiário sobre isso, era muito escasso. Havia algumas pessoas que falavam sobre o assunto, como o Washington Novaes, havia alguma cobertura na Folha de S. Paulo, e também o pessoal de Ciência, no Estado de S. Paulo. Mas a cobertura era muito incipiente, muito fragmentada. As pessoas desconheciam o problema completamente. Hoje, após esses três anos, a gente não abre nenhum jornal que não tenha uma notícia importante, pelo menos uma por semana, que não trate da questão ambiental. Na verdade, se tornou um assunto quase diário. A televisão também descobriu o assunto, passou a tratar nos seus telejornais, a rádio descobriu... Então, acho que houve uma ampliação da visão da imprensa sobre a questão ambiental, mas ainda acho que é insuficiente e acho que ainda é um olhar como uma coisa meio à parte, e não como algo que é central hoje a toda a atividade humana.