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Deyvison Veloso |
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A população nunca esteve tão relacionada com o jornalismo como nos últimos anos, com o surgimento do jornalismo cidadão, que abre oportunidade para pessoas comuns poderem comentar fatos e noticiá-los. Para explicar melhor esse fenômeno, o Canal da Imprensa entrevistou o jornalista Carlos Castilho, que já foi chefe do escritório da TV Globo em Londres, editor internacional do Jornal do Brasil, editor de telejornais na TV Globo, é professor de Jornalismo Online nos cursos de Estratégias da Comunicação (Universidade Tuiuti/Paraná) e de Convergências na Comunicação (IBES-Blumenau) e atualmente faz mestrado sobre jornalismo cidadão. Canal da Imprensa - Existem sites brasileiros como o Centro de Mídia Independente, que é uma rede de produtores independentes; o FotoRepórter do Estadão, onde as pessoas mandam fotos e comentam a foto jornalística; a seção do Terra, VC repórter, para a qual se pode mandar fotos, textos ou vídeos. Esses exemplos podem ser considerados como jornalismo cidadão? Carlos Castilho Nem todos, inclusive porque o conceito de jornalismo cidadão é um conceito ainda não estabelecido. Não há uma unanimidade sobre o que se define como jornalismo cidadão. Estou fazendo minha dissertação de mestrado na universidade justamente em cima desse ponto. Na verdade, a definição de jornalismo cidadão que está sendo usada é apenas uma definição mais prática, ainda não é um conceito acabado. No trabalho que eu faço, eu uso jornalismo cidadão mais no sentido de expressar aquela atividade de pessoas que não têm formação jornalística especializada, não têm nem experiência prática e nem formação acadêmica, mas que desenvolvem uma atividade informativa seguindo padrões jornalísticos mínimos. Nesse sentido você pode considerar o universo dos blogs. Existem blogs considerados jornalísticos, embora não sejam feitos por jornalistas profissionais. Outra coisa que deve ser analisada é o conceito de jornalismo, não há também uma unanimidade a respeito desse conceito, e ele está aparentemente mudando. Eu defendo muito mais o conceito de que jornalismo é uma atividade, não dá pra dizer que o jornalismo seja uma ciência ou uma linha de pensamento, no fundo é uma atividade. CI Quando surgiu o fenômeno do jornalismo cidadão? Castilho O fenômeno está associado com surgimento dos weblogs, com eles que se popularizou essa questão, embora antes mesmo dos blogs já se falasse muito do jornalismo cívico. Na verdade, o jornalismo cívico surgiu nos Estados Unidos como uma reação de um grupo de jornais e jornalistas a essa pasteurização da imprensa, quando os jornais passaram a seguir a mesma agenda, a escrever frases parecidas. E esse jornalismo cívico pretendia recuperar a importância do jornalismo local como fator de atração de relacionamento de leitores com o jornal. CI - Essa nova forma de jornalismo veio pra ficar, ou é apenas passageira? Se veio pra ficar, quanto tempo você acha que vai demorar a se tornar conhecida pelas pessoas? Castilho - Acredito que ela veio pra ficar na medida em que o fenômeno blogs está crescendo. Ele já não cresce na mesma velocidade de um ano e meio atrás, mas continua crescendo. Vai depender muito do crescimento da internet, e o crescimento da internet está vinculado ao crescimento da inclusão digital e do aumento do acesso por banda larga. CI No Brasil, é obrigatória a exigência de diploma universitário para se exercer jornalismo? Isso ainda não está regulamentado para a mídia internet. Isso facilita o desenvolvimento do jornalismo cidadão na rede? Castilho Existe uma polêmica em torno disso, existe um setor que defende a obrigatoriedade do diploma e tem outro que acha que não é necessário. O problema agora não é nem mais discutir a questão à luz de preceitos jurídicos, mas de vê-lo em função de toda a dinâmica que está acontecendo sobre a atividade da informação jornalística. Na medida em que os weblogs forem colocados nas mãos de pessoas comuns com poder de publicar, existindo ou não lei de reserva de mercado para jornalistas, as pessoas vão publicar notícias. Dessa maneira, vai ficar desnecessário, supérfluo, discutir uma questão que a própria prática mostra outro caminho. Na rede ele se espalhou bem... tem o Youtube, que vive fundamentalmente a partir dos chamados vídeoblogs ou vblogs e os podcasts, que são basicamente blogs gravados, blogs com áudio. CI - Você acha que esse jornalismo pode se espalhar para outras mídias? Castilho - Já existem projetos em outros meios de comunicação. Nos Estados Unidos existe um projeto em que as pessoas filmam, produzem vídeos e colocam no site; os usuários votam, e os preferidos vão para a televisão aberta, de certa forma os blogs vão para a televisão. Na cobertura jornalística da Guerra do Iraque tem muito material que foi feito originalmente com blogs e publicado no Youtube e depois foi parar na televisão, mas isso foi o material e não propriamente o canal. Eu acho que a televisão vai continuar existindo, como o jornal impresso vai continuar existindo, da mesma forma que os blogs... vai haver uma maior diversidade de fontes de informações jornalísticas. CI Ainda quanto à contradição do diploma, você acha que o jornalismo cidadão pode tirar o emprego de jornalistas formados? Castilho O weblog não está tirando o emprego de jornalistas formados, o que está tirando o emprego de jornalistas formados é a própria política de enxugamento de redações, de cortes de despesas posta em prática pelos jornais, é essa que está demitindo. O jornalismo cidadão está oferecendo oportunidade para jornalistas exercerem a sua atividade. Se eles vão ganhar dinheiro com isso, já é outro problema. Na verdade, os blogs oferecem a oportunidade de você exercer a sua profissão de jornalista, para jornalistas que têm diploma e não encontram emprego na imprensa convencional. A questão é que o blog não oferece, por enquanto, sustentação econômica para as pessoas que o exercem. CI Em alguns países há projetos e entidades para ajudar a promover esse jornalismo. Existem projetos aqui no Brasil em prol do desenvolvimento do jornalismo cidadão? Castilho Não, aqui a questão ainda está muito incipiente, nós estamos ainda discutindo, as universidades ainda têm uma visão muito cautelosa, desconfiada em relação a esse fenômeno dos weblogs. Existe um projeto chamado Parla, que é um projeto que é desenvolvido aqui, mas eu não o tenho acompanhado. Em compensação, nos EUA já temos projetos do jornalismo cidadão desenvolvido em universidades, como é o caso da Universidade de Nova York, que reúne jornalistas da faculdade que produzem as notícias juntamente com os leitores. É um projeto novo, que se iniciou no ano passado e, por isso, ainda não tem resultados definitivos. CI Isso faz com que haja uma maior interação entre o jornalista e o cidadão. Castilho Sim, já começa a haver esse princípio, por exemplo, a interação entre o jornalista-cidadão e o leitor começa a crescer muito rapidamente. Nos jornais, a única sessão onde os leitores podem ter uma interação com a redação é através das Cartas aos Leitores, mas essa seção normalmente é pouco prestigiada. Geralmente o número de cartas que o jornal recebe é grande, mas são publicadas não mais que dez, o resto todo vai pro lixo. Em compensação, nos weblogs, o leitor pode, além de ter uma reação instantânea, ir à parte de comentários e colocar o comentário dele que é publicado na hora. Nesse momento ele interage não somente com o autor do artigo, mas também com outros comentaristas. Eu tenho um weblog, nele eu já vejo discussões entre os próprios comentaristas, um acrescentando ou corrigindo dados dos outros. Dessa forma, adquirem em relação ao autor uma postura de praticamente co-autores. CI - Não havendo projetos, o que a sociedade precisa fazer para colocar isso em andamento? Castilho - Eu acho que os projetos vão surgir fundamentalmente da área da universidade, pois é uma área que tem por vocação a melhor habilitação para fazer experiências, e o jornalismo cidadão hoje, no fundo, é uma grande experiência. Os que o praticam hoje, praticam de uma forma empírica, porque a grande maioria dos que praticam jornalismo cidadão, ou são pessoas que têm algo a dizer, sendo jornalistas ou não, ou pessoas que querem dizer alguma coisa. Mas ninguém está procurando estudar o blog do ponto de vista de canal de comunicação, isso é uma habilidade para a universidade desenvolver. As empresas, por outro lado, estão preocupadas em sobreviver, não estão preocupadas em desenvolver tecnologias de weblog para o jornalismo cidadão. CI Elas não estão se atentando para essa nova forma de jornalismo que está atraindo as pessoas... Castilho A atração é muito grande, acredita-se que existam cerca de 65 a 70 milhões de blogs no mundo todo. E o crescimento se dá na base de 70 a 80 mil por dia. CI O jornalismo cidadão tem o objetivo de democratizar a informação, já que qualquer pessoa teria acesso à mídia, não apenas como leitor ou espectador, mas colaborando na produção do material veiculado. Você acha que isso pode se tornar realidade em nosso país, analisando o problema da falta de informação da massa? Castilho A democratização não é o objetivo do jornalismo cidadão, é uma conseqüência. Quanto mais pessoas publicarem informações na internet, maior será o número de versões e visões sobre um mesmo fato disponíveis para as pessoas. Assim você tem uma democratização, você não tem uma agenda única feita pelos jornais ou pelas grandes emissoras, nesse ponto há democratização. O seu crescimento vai depender fundamentalmente da ampliação do uso da internet no Brasil, porque por enquanto o uso no Brasil é muito baixo, ele está inferior a 20% da população. Além desse índice, se você for pensar em quem usa banda larga no Brasil, que é o que pessoal de weblog precisa para poder trabalhar, você chega à conclusão de que, no Brasil, há menos de 8 milhões de pessoas usando banda larga com capacidade de praticar o jornalismo cidadão na plenitude. É uma quantidade bem pequena, mas se você for comparar com o público que lê jornal, é grande, e se você considerar que os jornais são grandes formadores de opinião, você vê que o jornalismo cidadão já pode estar formando opiniões sem que se possa medir a dimensão desse processo. CI Os jornalistas cidadãos, muitas vezes, ao escreverem sobre determinado tema, podem acabar abandonando o princípio da objetividade jornalística, como acusou o tradicional jornal The New York Times, dos EUA. Você concorda com isso? Castilho Sem dúvida nenhuma, mas o jornalista cidadão não é o único que faz isso, o próprio jornalista do jornal também faz. A questão não é os códigos, a credibilidade dos blogs não é dada pela obediência a determinados códigos, senão nos jornais eles também deveriam obedecer aos códigos. Nós estamos diante de um novo processo, de uma nova aferição de credibilidade. No caso dos blogs, a vantagem que há é que, como existe uma diversidade muito grande, um corrige o outro rapidamente. Por exemplo, há um site chamado Wikipedia que é uma espécie de enciclopédia eletrônica e que também está sujeita a esse questionamento da credibilidade. Pesquisas mostraram que, no caso da Wikipedia, quando existe um erro, normalmente esse erro é corrigido em menos de dez minutos pela ação de outras pessoas. É muito rápido. CI Mas pode ocorrer o fato de algumas notícias possuírem um conteúdo fraco e não terem qualidade... Castilho Com certeza, tem essa possibilidade, é real. Se você entrar na web vai encontrar muito lixo informativo, mas isso não significa que todo o conteúdo seja assim. CI Como se pode melhorar esse problema? Castilho A melhoria do conteúdo do jornalismo cidadão vai acontecer graças à ação seletiva dos próprios leitores. CI Os leitores vão ficando mais críticos... Castilho Claro, na hora em que os leitores percebem que o site ou blog é inadequado, vão passar para outro, e isso já ocorre, é só analisar os blogs mais destacados no Brasil, são aqueles que mostram preocupação com a qualidade e credibilidade. CI A sociedade sempre esteve acostumada a receber a notícia pronta, e grande parte não analisava profundamente os fatos. Como as pessoas agora recebem a idéia de produzirem a notícia com qualidade? Castilho Este é um processo que está recém-começando, possui de 4 a 5 anos. Aqui no Brasil, os blogs estão muito limitados a uma faixa com alto poder aquisitivo dentro da população. Essa faixa já tem uma intimidade maior com a informação, para eles isso não é uma grande novidade. A novidade é que eles podem agora fazer o que não podiam fazer antes. Ter o que dizer eles já tinham, só que não podiam expressar, agora podem. Não chega a ser uma mudança cultural tão grande, a mudança vai acontecer quando a penetração atingir camadas inferiores financeiramente. Quando atingir as classes C e D é que iremos nos dar conta da mudança cultural que vai acontecer à medida que as pessoas forem consumindo a informação de uma forma mais crítica. A sociedade vai ter cada vez uma consciência maior, primeiro de que é preciso exercer uma leitura crítica, pois quanto maior a variedade de informação, maior é a confusão que tende a surgir na cabeça de quem lê. Então não se pode consumir notícias sem pensar, você tem que exercer um juízo crítico, um juízo analítico, para pode separar joio do trigo. A oferta informativa que você tem quando se está na internet é muito grande, é uma avalanche, a tendência é você ficar confuso e perdido e, para não ficar confuso e perdido, a pessoa tem que desenvolver uma leitura crítica. |
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