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...surgisse um novo líder totalitário na América do Sul

André Leite

Pinochet prendeu, torturou e matou. No Brasil, Geisel, Figueiredo e outros três tiveram a mesma idéia de manter a ordem e o poder. Por algum motivo, a maior parte da população desses países não gostou das atitudes pouco corteses dos idos ditadores. Muitos não puderam se manifestar. Talvez porque tivessem um pedaço de pano tampando-lhes a boca, talvez porque não tinham mais forças para falar, talvez até porque nem mais tivessem uma boca. Cruel. Mas o regime da ditadura não poupava esforços e imaginação para conseguir as mais diversas informações sobre aqueles que se opunham a ela.

Motivos como a tortura e a perseguição poderiam ser suficientes para a experiência ser totalmente repudiada no cenário latino americano, palco de inúmeras ações de déspotas totalitários. Mas há quem tenha uma certa tendência ao masoquismo. Bom, ao menos enquanto a dor das pauladas e dos choques não lhes atinge. Mas aí deixa de ser masoquismo, não? Mas quem se compraz em concordar com cenas como essa ao menos deve sentir uma incômoda sensação no coração ou uma ponta de remorso. Ainda não? Então, vamos supor que um líder aparentemente carismático se torne um crápula e passe a governar com mãos de aço um país como... a Venezuela, por exemplo.

Ainda suponhamos que esse líder se chame... vamos ver... Chaves! Que tal? Qualquer semelhança é mera coincidência. Afinal, o chará homônimo de nosso suposto ditador tem o nome escrito com “Z” e ainda tem um charmoso acento agudo sobre o “A”.

Continuando a dar asas à imaginação (que se não tomar cuidado tem as asas cortadas pelo nosso ditador. Afinal ele pode desconfiar que nossa imaginação leva alguma mensagem indevida para algum jornal ou correspondente estrangeiro), aterrissamos no território venezuelano de ficção.

Lá, vemos pessoas pobres, famintas, cansadas, com pouco dinheiro – afinal a inflação ali é muito grande, pois o nosso ditador sempre ajuda seus amigos com intenções semelhantes, mas ainda não tão malévolos – mas ainda assim esses cidadãos estão satisfeitos com a atual situação do governo. Ao menos é isso o que diz o principal jornal do país, “El Hablante de Boca Cerrada”. O periódico, além de ser o principal e mais vendido veículo do país, é o único. Por algum motivo ainda oculto, a liberdade de expressão parece ser um pouco suprimida em nossa república ditatorial fictícia.

Andamos pelas ruas e vemos imagens de Chaves. As fotografias estão presas a postes, grudadas em enormes paredes desgastadas e presentes nas mãos de alguns militares que gritam sem parar nas ruas. Frases como “El Grande”, “El Mayor” e “El Fuerte” são comumente vistas nos folhetins e propagandas. Ironicamente há um pequeno panfleto que chama nosso ditador de “El amable”. Vejo que está nas mãos de um homem com aparência pouco simpática. Com uma arrogância cuspida, ele me aborda: “¿Amas Chaves? Si no lo amas, salga del país. Lo ame o lo deje!” As palavras assustam. Ele deve ser um daqueles “masoquistas” que não sentem a dor.

Mandamo-nos das ruas para encontrar o presidente, ou melhor, o ditador. Encontramo-no em meio a um discurso político. Oito horas depois, as breves palavras de Chaves terminam. Tentamos atravessar a multidão de simpatizantes que tentam tocá-lo, de soldados que tentam protegê-lo e de insatisfeitos que tentam assassiná-lo. Conseguimos nos postar perante o ditador. Dirigimos-lhe a palavra: “Señor, somos brasileños y gustaríamos...”

Ser brasileiro bastou. Tendo o presidente brasileiro amizades com o principal inimigo de Chaves, o presidente dos Governos Unidos da América, somos classificados como subversivos e perigosos.

Presos, somos torturados sob a acusação de espiões. Questionam-nos por respostas que não podemos dar. Choramos, doemos, lutamos e sofremos. Em vão. Eles não têm coração. “El amable” lhes ensinou que deveriam agir assim.

Quando parece que não teremos mais forças e que morreremos nas mãos dos cruéis algozes, uma luz. A luz é real. Vem da porta que é arrombada por soldados que falam inglês. O presidente dos Governos Unidos da América invade a Venezuela e depõe o ditador imaginário. O motivo parece ser conhecido: armas de destruição em massa.

Voltamos ao Brasil aliviados por tudo não passar de uma suposição. Os “masoquistas que não sentem dor” continuam a rir. Afinal, a ditadura instaurada agora é outra. Mas eles gostam.