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Monarquia da imprensa

Tales Tomaz

As monarquias praticamente foram varridas da face do planeta. O iluminismo despertou na sociedade o senso de democracia, exatamente o contrário do que os reis da Idade Média praticavam – o absolutismo. Entretanto, algumas dessas relíquias ainda permanecem. Uma delas, provavelmente a mais sólida, foi o foco do filme A Rainha (2006), de Stephen Frears. A rainha Elizabeth II, da Inglaterra, foi o centro da trama que rendeu o Oscar de melhor atriz a Helen Mirren. Nada mais justo pela belíssima atuação em um filme que discute dramaticamente a tensão tradição x modernidade.

O enredo parte da eleição do trabalhista Tony Blair para primeiro-ministro da Inglaterra. Ele rompe com 18 anos de conservadorismo no governo britânico e se prepara encontrar a Rainha e ser oficialmente empossado. A Rainha é previamente instruída por seus conselheiros a respeito das idéias neoliberais e modernizadoras de Blair, que não agradam a tradicional representante da Inglaterra. Na noite seguinte, acontece o fato ao redor do qual gira a trama: a morte da princesa Diana em um acidente de carro.

Paralelamente à discussão sobre intransigência e flexibilidade, há um debate sobre o papel da imprensa ao lidar com figuras públicas. A princesa Diana, casada com o príncipe Charles e, portanto, sucessora ao trono de Elizabeth II, sempre foi acompanhada de perto pela mídia. Separada de Charles, tornou-se alvo predileto dos tablóides sensacionalistas ingleses. Na noite do acidente, vários paparazzi perseguiam sua celebridade predileta quando o carro se chocou contra uma pilastra em um túnel de Paris.

A influência da imprensa fica evidente nas cenas que mostram a própria família real acompanhando a cobertura do acidente pela televisão. Em um certo momento, a Rainha pede para que os netos sejam preservados da cobertura massiva da mídia: “Não quero que os rapazes vejam as notícias”.

As cenas seguintes retratam a tensão que envolveu a monarca inglesa. Como a princesa Diana já estava oficialmente divorciada do príncipe Charles, ela já não fazia parte da família real, e isso serviu de pretexto para a rainha Elizabeth rejeitar uma cerimônia fúnebre pública. Apegada ao protocolo real – mais um símbolo da tradição –, a Rainha afirma que a família Spencer gostaria de uma cerimônia privada. Além disso, ela decide permanecer reclusa em seu palácio em Balmoral, ao invés de se aproximar da população e prestar condolências. O filme mostra que a família real nutria uma antipatia por Lady Di, especialmente por sua exposição à imprensa e por suas atitudes progressistas e lutas sociais, e deixa no ar se as decisões da Rainha são motivadas por seu gosto pessoal ou estão realmente relacionadas ao protocolo.

Dia a dia a imprensa acompanha a comoção da população pela morte da princesa. Elizabeth II aceita um cortejo público, mas sua posição firme em não ir a Londres no enterro do fim de semana seguinte é interpretada como um desrespeito à vontade popular. Para piorar, a imprensa chama a atenção para o fato de a bandeira do palácio de Buckingham não estar hasteada a meio mastro. Segundo a tradição real, essa bandeira nunca foi hasteada a meio mastro, defende a Rainha. Mas a mídia insiste no assunto a ponto de, com o passar dos dias, colocar a realeza em uma posição bastante delicada.

É aí que Tony Blair ganha força. Ele entende como a mídia pode influenciar a população e tenta articular um acordo com a Rainha para que ela ceda à vontade do povo e recupere sua popularidade. Para persuadir a Rainha, ele cita pesquisas internas que indicam que, naquela semana, ¼ da população quer acabar com a monarquia, um índice de rejeição jamais atingido. Elizabeth II tenta se manter firme. Ela acredita que a sociedade é suficientemente esclarecida para não ser influenciada pela mídia: “É a minha crença de que a qualquer momento o povo vai rejeitar esse clima que foi instaurado pela imprensa”.

Mas os dias passam, o conflito ganha tons mais agressivos nas manchetes dos jornais. O The Sun publica “Onde está a nossa Rainha? Onde está sua bandeira?”. Após mais conselhos de Blair, a Rainha decide ir a Londres com a família real. Sua chegada amplamente divulgada pela mídia melhora a imagem da monarquia perante o povo inglês. Em uma espécie de simbiose entre os dois valores contrastados na trama – tradição e modernidade –, Blair também reconhece seu tradicionalismo e seu amor pela monarquia inglesa, contrariando a grande maioria de seus partidários. Fica o recado do filme: toda revolução absorve conceitos do sistema ao qual combate.

Para a mídia, entretanto, o recado é mais sutil. A fiscalização que deve exercer nas democracias não pode ser confundida com irresponsabilidade e invasão de privacidade. Isso só acontece porque, muitas vezes, é a própria mídia que se sente absoluta, monárquica. O recado pode ser sintetizado na seguinte frase do irmão da princesa Diana: “Direi apenas que sempre achei que a imprensa acabaria por matá-la. Mas nem eu poderia imaginar que eles seriam tão responsáveis por sua morte como parece ser o caso”.

Ficha Técnica:

Título Original:  The Queen
Gênero:  Drama
Tempo de Duração: 97 minutos
Ano de Lançamento (Inglaterra / França / Itália): 2006
Site Oficial: www.thequeen-movie.com
Estúdio: Canal+ / France 3 Cinéma / BIM Distribuzione / Granada Film Productions / Pathé Pictures International / Scott Rudin Productions
Distribuição: Miramax Films / Europa Filmes
Direção:   Stephen Frears
Roteiro: Peter Morgan
Produção: Andy Harries, Christine Langan e Tracey Seaward
Música: Alexandre Desplat
Fotografia: Affonso Beato
Desenho de Produção: Alan MacDonald
Figurino: Consolata Boyle
Edição: Lucia Zucchetti

Elenco:

Helen Mirren (Rainha Elizabeth II)
Michael Sheen (Tony Blair)
James Cromwell (Príncipe Philip)
Sylvia Syms (Rainha-mãe)
Paul Barrett (Trevor Rees-Jones)
Helen McCrory (Cherie Blair)