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América divergente |
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André Leite |
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Bush criou um sentimento de rejeição em várias partes do globo, inclusive na América Latina. Se aproveitando da situação, governantes como Hugo Chávez e Evo Morales criaram um bloco de oposição ferrenha ao governo norte-americano. Lula se posta em meio a todo esse conflito. Buscando analisar o cenário político das Américas e de seus principais governantes, o jornalista Caio Blinder, mestre em Estudos Latino-Americanos e Relações Internacionais, conversa com a redação do Canal da Imprensa. Ele é correspondente em Nova Iorque da Jovem Pan, do periódico português Diário de Notícias, da BBC Brasil e participante do programa da GNT, Manhattan Connection, desde o início em 1993. Nesta entrevista, Blinder busca mostrar qual é a visão da mídia norte-americana sobre a atual realidade das Américas. Canal da Imprensa – Há uma clara oposição de forças dentro do cenário americano. Chávez versus Bush gera uma espécie de pólos de poder, como uma luta entre o bem e o mal. Como a mídia norte-americana costuma classificar o presidente da Venezuela? Caio Blinder – É preciso diferenciar dois pontos: a posição do governo Bush e a da mídia norte-americana. Uma coisa é a oposição do governo Bush a Hugo Chávez. Às vezes, é uma oposição muito estereotipada. Algo do tipo “ele é o inimigo”. Já a imprensa americana é muito mais sutil, mais sofisticada. De forma geral, essa imprensa é anti-Chávez. Mas ela não o trata da mesma forma caricatural que o governo. Não se pode aliar o governo com a imprensa americana. Embora eu concorde que a maior parte da imprensa americana é muito crítica em relação ao presidente venezuelano. CI - Por que um grande número de veículos estereotipa o líder de um país? Blinder – Existem casos distintos. No caso de Hugo Chávez, acho que a caricatura é, em parte, desenhada por ele mesmo. Ele assume um papel que abre espaço para a caricatura. Acredito haver uma alimentação mútua. Chávez quer ser tratado assim, como um grande inimigo dos Estados Unidos. Interessa politicamente para ele porque isso o torna uma espécie de bastião anti-americano na América Latina. E por outro lado, há um contraste muito grande entre ele e outros dirigentes da esquerda americana. A imprensa norte-americana sempre faz a seguinte comparação: esquerda antiamericana e esquerda responsável. Chávez é o líder dessa esquerda mais radical. Já o presidente Lula faz parte da esquerda responsável. Existe também o fato de o presidente venezuelano estar muito próximo de Fidel Castro, uma espécie de fantasma na psique americana. E essa relação reforça a caricatura. Então eu acho importante diferenciar que existe a caricatura criada pelos veículos de comunicação, mas também há o fato de o próprio Chávez ter caricaturado a si mesmo. CI - Você acha que hoje em dia Chávez é o maior inimigo de Bush ou ele simplesmente se aliou a Fidel Castro? Blinder - Existe uma afinidade entre os dois. Hugo Chávez tem cada vez mais uma postura radical de esquerda. Mas a Venezuela nem se compara a Cuba. Ela é um país muito mais importante, muito mais rico. Cuba não é nada. É uma ilha pobre e um país que está muito atrasado economicamente. Em termos de ameaça, a preocupação americana é com a Venezuela. Cuba e Fidel são apenas símbolos e não uma ameaça. CI - Em reportagem ao portal G1, o pesquisador norte-americano Nikolas Kosloff diz que Chávez possui popularidade e relevância grandes porque a mídia lhe concede muito espaço. Você acredita que Chávez consegue, de certa forma, manipular a mídia, passando a figura de um líder forte e polêmico, características que agradam grande parte dos veículos, mesmo quando esses tentam desmoralizá-lo? Blinder - Eu acho que ele consegue criar o espetáculo. A maneira e o modo como ele fala chamam a atenção. Quando um presidente vai às Nações Unidas, como ele fez no ano passado, e diz “tem cheiro de enxofre aqui” quando acabou de discursar ali George Bush, dando a entender que ele é o diabo, então, obviamente, cria-se uma notícia. Então, eu não acho que é uma questão de manipular. Quando ele fala isso quebra um certo decoro, propiciando notícia. Ele gera esse sensacionalismo. Agora, quanto a Hugo Chávez ser pequeno, isso não é verdade. A Venezuela é o quinto exportador de petróleo no mundo. É um país com uma importância muito grande na economia americana. E no momento em que os americanos estão muito preocupados com a dependência do petróleo estrangeiro, seja do Oriente Médio ou da Venezuela, Chávez ganha uma importância geopolítica e geoeconômica grande. E, além disso, ele se tornou politicamente o líder de um bloco anti-americano, influenciando outros países como o Equador, a Bolívia e agora a Nicarágua. Além disso, a Venezuela sustenta Fidel Castro e o regime cubano. Então, Hugo Chávez tem uma importância estratégica. Eu acho um erro chamar Hugo Chávez de pequeno. Mas é claro que há países com uma importância econômica e política maior. O Brasil é mais importante. O México é mais importante. Mas a Venezuela também é um país importante. Em grande parte por causa do petróleo. CI – Aproveitando a deixa, qual a influência do petróleo nas ações de George Bush e Hugo Chávez? Blinder – Eles possuem uma dependência mútua e total. Na verdade, os americanos precisam do petróleo da Venezuela, e os venezuelanos precisam exportar para os Estados Unidos. Eles têm essa dependência econômica, mas essa profunda e crescente divergência política. É uma coisa que acontece entre muitos países. Você vê, por exemplo, a China e o Japão. São países com antagonismos milenares. Em contrapartida, as relações econômicas são quentíssimas entre esses dois países. CI - A onda anti-Bush é crescente. Aproveitando-se disso, Chávez quer criar uma espécie de império na América do Sul, já defendendo, inclusive, uma moeda única para a região. Os países sul-americanos estão aderindo a suas propostas ou o medo da ditadura e da repressão ainda é presente na mente de muitos? Blinder - Eu acho que não existe um amor por Hugo Chávez. A América Latina desconfia de Chávez. Grande parte das pessoas o acha inconveniente, que fala demais, que se mete onde não é chamado. A América Latina é um continente democrático, e Chávez tem tendências muito autoritárias. Agora o que existe, por outro lado, é esse sentimento anti-americano que foi agravado pela política de Bush. Essas duas coisas se juntaram e existe o cenário que hoje vemos. Acho que ninguém morre de amores nem por um nem por outro. E, em minha opinião, essa é uma posição correta porque nenhum dos dois merece esse sentimento atualmente. CI - As críticas ao presidente brasileiro são justas quando falam de suas relações de pouco sucesso com os presidentes sul-americanos de extrema esquerda, como Chávez e Morales? Blinder - Eu acho que Lula está em uma situação política muito complicada. O Brasil é um país que está em meio a um fogo cruzado. Hoje, o presidente do Brasil tenta se compor tanto com Chávez quanto com Bush. Você vê que ele não quer ser um instrumento do Bush contra Chávez. Mas por outro lado, ele não quer participar dessa cruzada antiamericana liderada pela Venezuela. CI - Dentro do cenário latino americano, Lula ainda tem a força de um presidente do maior país em extensão e economia? Blinder - Ele ainda exerce o papel natural do Brasil. Isso acontece também porque Lula acaba criando um bloco alternativo: aqueles que não querem seguir os rumos da Venezuela gravitam para o lado do Brasil. Então acaba havendo essa situação de se criarem blocos de forma natural. No entanto, existem algumas atitudes malucas de Lula como chamar a Venezuela para integrar o Mercosul. Quando a Venezuela entra no Mercosul ela provoca “incêndios”. CI - O ingresso da Venezuela no Mercosul é uma tentativa de melhorar a situação crítica que o bloco vivencia? Blinder - O Mercosul começou com um projeto muito ambicioso. Mas não há um espaço político e econômico para uma união tão próxima entre esses países. E eu acho que foi um erro trazer a Venezuela. Só tornou mais complicada a tarefa de costurar o Mercosul. Eu acho que esse ingresso da Venezuela piora a situação do bloco, porque antes havia, ao menos, certa identidade entre os países do bloco na questão econômica. CI – E Lula, como é visto pela mídia norte-americana? Blinder - Ele é bem tratado. Com a questão do etanol, hoje o Brasil é visto como um país de ponta nessa tecnologia. E as relações do Brasil com os Estados Unidos são boas. Obviamente, existem divergências comerciais, mas Lula e Bush estão bem, não pessoalmente, mas politicamente. Então, nesse ponto o Brasil possui uma boa imagem. O Brasil está mal em outras coisas como a violência urbana e a corrupção. CI – E os cidadãos norte-americanos, como vêem o presidente brasileiro? Blinder - O americano comum não sabe quem é Lula. Não tem a mínima idéia. Quando você fala da imagem que existe do Brasil, se está discutindo a imprensa mais sofisticada. Os principais jornais como o New York Times, o Wall Street Journal, o pessoal que trabalha nos centros acadêmicos e no mercado financeiro. Agora quanto ao americano comum, o Brasil não está no radar deles. O máximo que existe é um estereótipo brasileiro: samba, carnaval, futebol, café. Mas isso não é só em relação ao Brasil. O povo americano é muito desinformado. CI - Como você avalia a recente viagem de Bush pelas Américas? Blinder - Bush está em busca do tempo perdido. Ele negligenciou a América Latina. As pessoas reclamam que os americanos intervêm muito. Mas o caso aqui é o contrário. Ele simplesmente ignorou a América Latina no seu governo. Em parte, porque ele teve problemas mais sérios como combater o terrorismo e a guerra no Iraque. Mas Bush não tem muito a oferecer aos países da América Central e do Sul. Por exemplo, o Brasil quer melhores acordos comerciais, mas ele não pode oferecer. O México quer um acordo de imigração, mas Bush também não pode oferecer isso. Essa situação existe, principalmente, porque o governo atual dos Estados Unidos está muito enfraquecido. Na gíria americana, eles classificam Bush como “pato manco” – um presidente em fim de mandato e sem poderes, praticamente imobilizado. Como a maioria do Congresso é democrata, Bush não consegue aprovar as medidas que deseja. Bush fala assim: “Eu não posso fazer nada com o etanol. Eu posso querer diminuir as taxas alfandegárias para esse combustível, mas o congresso é democrata e quer a taxação. O que é que eu posso fazer?” Essa viagem de Bush foi uma espécie de apelo de influência. Ele é um presidente “morto”. Os Estados Unidos estão apenas esperando as próximas eleições presidenciais. CI - Você acha que os Estados Unidos podem sofrer alguma perda de poder com essa onda de antiamericanismo? Blinder – Nós temos um momento de transição na história. Há outros países ascendendo, como a China. Então eu acho que você vai ter o século 21 com uma disputa hegemônica ao longo das décadas. Mas os Estados Unidos são um país muito importante e ainda serão por muito tempo. Uma coisa é o poder americano, que é muito grande, mas está com problemas. Outra coisa são os estragos momentâneos causados por Bush. Agora, eu acredito que, sendo eleito um democrata, que é o mais provável no ano que vem, haverá uma diminuição do anti-americanismo no mundo. Bush brigou com muita gente na Europa, na América Latina, no Oriente Médio. Haverá um empenho, independentemente de o próximo presidente ser democrata ou republicano, de melhorar as relações dos Estados Unidos com os seus aliados. Agora é uma questão de se escolher uma postura imperial. Ou uma posição imperial muito absolutista e egoísta ou uma oposição imperial que aceita a necessidade de dividir um pouco. Acredito que os democratas, especialmente, têm uma postura um pouco mais aberta em relação a isso, de aceitar um pouco, de dividir o poder. |
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