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Militares ainda causam medo

Rodrigo Galiza

Desde o ano passado a mídia noticia os atrasos e cancelamentos de vôos em todo o Brasil. Para os meios de comunicação mais acessíveis do País, quem é o vilão do caos nunca antes ocorrido na história da aviação civil brasileira? Em uma análise da internet e das revistas semanais de maior circulação nacional, além de uma comparação com dois veículos internacionais, percebe-se que os militares são os vilões da história.

Nos relatos de história mundial, os militares sempre exerceram um papel importante. Eles são os vitoriosos ou os derrotados. Os culpados ou os heróis. E na história do Brasil não é diferente. Os militares possuem uma porção bem extensa na história brasileira. Desde 64, com o golpe militar, os fardados imprimiram sua marca na mentalidade brasileira. Mas infelizmente, por culpa do mau exemplo, essa imagem é negativa. E como foi visto na edição de Geopolítica Latino-americana, em artigo sobre Chavéz, mesmo palavras e fotos com conotação autoritária podem trazer essas lembranças ruins à tona.

A CartaCapital foi a mais forte em suas reportagens. A edição de 11 de abril foi o maior exemplo. Na capa está Lula olhando para baixo e por trás está o comandante da aeronáutica Juniti Saito com um aspecto bem tranqüilo. O título Militar reage a poder civil imprime ainda mais a idéia de um poder horrendo que briga por mais poder enquanto muitos correm risco de vida.

Dentro da reportagem, os eventos da crise aérea são sempre relacionados a eventos do golpe de 64. Isso é feito de diversas formas. Saito encontra-se com Lula no aniversário da usurpação militar; o ministro da Defesa Waldir Pires é íntegro e do alto escalão do governo Goulart, que sofreu o golpe; fotos de militares invadindo a sala de comando aéreo. Além disso, a Carta tenta mostrar que o controle aéreo feito por militares é ruim, pois apenas em quatro países no mundo isso ainda ocorre.

A IstoÉ segue a mesma linha com menos força. Na edição de 11 de abril, há uma foto de Saito com seu uniforme azul em frente à esfera azul da bandeira brasileira. Ao invés de toda a bandeira ser fotografada, apenas o azul é escolhido. Saito e o Brasil se misturam, como se o militarismo fosse a personificação da nação. Mas, ao invés de ser positiva, a matéria seus títulos impactam de forma contrária.

“Cadeia da desordem: insubordinados, os controladores de vôo desobedecem aos oficiais, que não respeitam a ordem do presidente, que desrespeita a hierarquia militar e recua”, é o subtítulo abaixo da foto. “Desordem”, “insubordinados”, “não respeitam” depõe contra a autoridade militar que quer imprimi-la com o uso da força. Na sociedade pós-militarismo e comunismo, o uso da força e do autoritarismo nunca é visto com bons olhos.

Na IstoÉ também nota-se que o alto escalão militar, apesar de estar fraco com os subordinados, influencia o governo federal. O título na matéria seguinte “Lula volta atrás” denota influência dos militares no governo federal. O Estado de S. Paulo também mostra essa influência, e de forma negativa.

A praga se alastra

No Estadão a imagem dos militares e de Lula são interligadas. Numa reportagem do dia 16 de abril, publicada no seu site, Lula é retratado como sendo infectado pelo autoritarismo militar ao declarar que era hora de “estabelecer o princípio de autoridade”, em reunião de negociação na segunda, 15.

Na mesma matéria, o título diz que os acontecimentos fazem parte de uma “crise militar”. Nessa crise surge Lula como um “bombeiro político” que tenta evitar a crise institucional na esfera da aeronáutica. Esse presidente que, a princípio, agrada os controladores e é a favor da desmilitarização (o que desagrada Saito), obriga controladores a continuarem trabalhando apesar dos salários baixos.

Lula desconsidera as greves salariais que ele tanto era a favor antes do poder. Um governo hipócrita que tenta agradar a todos e ficar no poder a todo custo e, por isso, não larga mão dos militares. Essa imagem negativa que vai sendo construída pela mídia, envolvendo os militares ao governo Lula, é fortalecida pela Folha de S. Paulo.

Apesar de enfatizar o lado do público, dos atrasos de vôos, ela se coloca a favor de uma investigação aos escândalos do governo com a instalação de uma CPI sugerida pela oposição. Juntamente com reportagens sobre apagão aéreo estão reportagens sobre escândalos de propina na Infraero e a continuação dos problemas após acidente do vôo da Gol. Isso relaciona a imagem da crise aérea com as outras crises não resolvidas do governo federal, como o mensalão, que era propina do governo.

Já a Globo reporta os fatos como se ocorresse uma disputa entre civis e militares. “Crise expõe divisão entre controladores de vôo” é o título de uma matéria. Em outra reportagem relacionada com a anterior, o portal de notícias G1 retrata essa divisão nos controladores de Recife. O fato é que o Cindacta do Nordeste estava seguindo o pedido de Lula para desmilitarizar o controle aéreo, e a separação era inevitável.

Ênfase diz tudo

Quando comparados com duas agências internacionais de notícias, a Reuters e a CNN, a mídia brasileira enfatiza a tensão entre civis e militares. Nos veículos estrangeiros essa tensão não é relatada no pouco que se fala sobre a crise aérea. Para a CNN, os problemas maiores são a péssima qualidade dos equipamentos de monitoramento aéreo e a reivindicação salarial dos controladores. Para a Reuters, apesar de existir uma ineficiência militar, as greves e os motins dos controladores ocupam maior espaço na tentativa de responder qual a razão ou culpado para tamanho transtorno econômico e social.

Mas no Brasil, a tensão entre militares e governo civil representado por Lula é mais forte, pois o passado ainda inspira medo. Como a Carta afirma, essa crise pode ser uma tentativa de um novo golpe. Mesmo em crise, os militares ainda causam temor juntos com o governo Lula.