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Muito além do óbvio |
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| Cígredy Neves |
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Um acidente aéreo deixou os brasileiros chocados. A queda do Boeing da Gol, que matou 154 pessoas no final de setembro de 2006, assustou grande parte da população brasileira. A longa espera pelos vôos, nos meses seguintes, agravou a desconfiança em relação ao controle do governo sobre a situação. Tudo isto fez com que a imagem dos responsáveis pelos “apagões aéreos” ficasse ainda mais “manchada”. E a mídia tem contribuído para a construção desta visão. Palavras como “ caos”, “ tortura”, “ alerta”, “ crise”, “ tragédia” são comuns na abordagem deste tema nos veículos de comunicação do País. E é esta idéia que fica na mente das pessoas. Para entender melhor como funciona esta questão, foram analisadas as capas das revistas Veja, Época, IstoÉ e CartaCapital, desde 30 de novembro de 2006 até abril de 2007. A análise profunda deve envolver um estudo das manchetes, títulos e o espaço que o assunto ocupa na capa. A professora da Unesp, Maria Alice Faria, percebe isso em seu artigo “Manchetes e títulos no jornalismo impresso brasileiro: o dito e o não-dito”, publicado no livro Letras & Comunicação (2001). De acordo com ela, os processos de escolher certas palavras em vez de outras na manchete revelam a linha editorial do veículo e seus respectivos estilos. Além de verificar os títulos e a disposição deles na capa de uma revista, é importante observar cuidadosamente todos os outros elementos que estão presentes. As imagens e as cores são os que mais transmitem informações implícitas. Para Maria, é mais do que isto. “De maneira sutil, as fotos podem mostrar o que as palavras do título não informaram, revelam ao leitor ou até o induzem a concluir o contrário do que foi escrito no título”. In foco semanal A revista Veja , com sua política “anti-Lula”, foi a que mais abordou o assunto. Seja matéria principal ou apenas uma chamada menor, ao todo foram oito capas no período estudado. Ao falar da crise, em praticamente todas as capas as letras estão em preto, branco e amarelo, cores que estimulam a atenção e remetem a idéias trágicas. Um exemplo disso é a edição de 28 de março de 2007, cuja manchete “Por que voar virou uma tortura” é a matéria principal do periódico. Com o fundo preto, a reportagem traz uma imagem de um homem amarrado num avião, na mesma posição de uma cruz. As chamadas “Abrimos a caixa-preta da Infraero: a coisa é feia” e “Controladores de vôo: as suspeitas de sabotagem” também colaboram para que o leitor estabeleça uma relação entre utilizar os serviços aéreos do País com sofrimento e angústia. A imagem construída pela revista na mente do cidadão é de um governo que não consegue administrar problemas banais como os controladores aéreos. Essa falta de controle é ainda mais pontuada na edição de 11 de abril deste ano. Apesar de ocupar um espaço pequeno, a tarja vermelha na parte de cima da capa atrai a atenção do leitor por apresentar a imagem de um avião vendado e a seguinte frase: “Pilotos em pânico: voar no Brasil ficou mais perigoso do que na África”. Com tal chamada, além de mostrar o pânico dos pilotos, a revista consegue também deixar a população amedrontada. Com a revista Época acontece algo semelhante. Nas três capas em que aborda a crise, apesar de dar menor ênfase que a Veja, ela tenta fazer o leitor notar a importância e gravidade do fato. Isto pode ser visto claramente na edição de 11 de dezembro de 2006. A reportagem de capa tem uma faixa amarela em destaque com a manchete “Atenção, senhores passageiros”. A chamada “A boa notícia: o caos aéreo vai acabar – A má: não tão cedo” tenta mostrar os dois lados da crise que, a curto prazo, não trazem qualquer benefício para o usuário do serviço. E as fotos – pessoas cabisbaixas, pensativas, com aparência de estarem cansadas – complementam a idéia de que o “jeito” é esperar, não há solução momentânea. Por outro lado, a CartaCapital faz uma crítica mais explícita ao governo. Isso pode ser verificado na edição de 13 de dezembro de 2006. A foto do ministro da Defesa, Waldir Pires, é apresentada de maneira sombria. Ele aparenta estar apreensivo, encurralado e pensativo. O pano de fundo da imagem – céu escuro e cheio de raios – e o título “Algo de podre no ar” refletem exatamente o que o político transmite na foto. O que resta ao cidadão? Observar a ‘turbulência' que os políticos enfrentam ao tentar resolver a situação. Dentre as quatro revistas, a que menos retratou a crise em suas capas foi a IstoÉ. Foram duas capas, uma com reportagem principal e outra com tarja na parte inferior. A edição de 11 de outubro de 2006 traz “A verdadeira história do vôo 1907” como matéria de capa. Com um fundo preto, as letras em branco e vermelho e a foto dos dois pilotos do Legacy, o periódico remete ao luto e à tragédia. Na legenda da foto “Os pilotos Joseph Lepore e Jan Paladino: brincando de voar”, o leitor fica com a sensação de que os responsáveis pelo acidente foram somente os dois norte-americanos. Todo viés transmitido nas capas das revistas é absorvido consciente ou inconscientemente pelo leitor. Se ele não tem uma visão crítica, vai entender exatamente como as revistas desejam e vai ser apenas mobilizado ao invés de ser educado. E aí está um grande problema: ele pode ser facilmente manipulado. Agora, se o cidadão conseguir detectar o viés, vai perceber que há muito mais na mídia do que o simples relato de mais um dia com vôos atrasados ou de greves de controladores aéreos. |
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