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O cara

Míriam Lopes

Entre os dias 9 e 13 de maio o papa Bento X16 fez sua primeira visita ao país com maior número de católicos do mundo. A imprensa, desde cedo, divulgou o evento. Assim como os demais veículos de comunicação, a revista CartaCapital procurou manter o seu público informado, apresentando todas as informações necessárias sobre a visita. Ou seria enaltecendo o Papa através de sua visão religiosa?

Em um processo lento, a revista foi aos poucos “comendo pelas beiradas” o que outras mídias gradativamente evidenciaram desde o início. Em matérias curtas e indiretas, Bento 16 foi apresentado com um perfil aparentemente razoável a outros comentários da mídia. Esse foi só o início; a hora especial do Santo Padre ainda não tinha chegado.

Uma viagem pela história da Igreja Católica levou os leitores à biografia de Joseph Ratzinger e mostrou sua trajetória religiosa. A considerada hipocrisia dos progressistas, retratada por dom Ivo Lorscheiter, relembrou  o conservadorismo do Vaticano, o qual contou com o cardeal Ratzinger, agora Bento 16. ”A igreja derrota Ratzinger” foi o titulo da matéria que noticiava a morte de dom Lorscheiter, um dos conservadores que o Vaticano tentou sufocar, mas não conseguiu. Ambos lutaram no embate entre a Igreja Católica e governo. “O bispo emérito sempre se opôs à injustiça e à hipocrisia”.

Uma volta a Trento e a Carta fala que “com ações políticas e proclamações litúrgicas conservadoras, o Vaticano tenta inserir-se na configuração dos poderes reacionários do século XXI”, o que acredita ser tudo em tempo de fundamentalismo, representado em guerras, epidemias, aquecimento global e também pedofilia episcopal. O que não preocupa muito, pois, segundo eles, é algo que está ao alcance da “competência” do papa.

A estética foi mantida, pois, afinal de contas, “nem tudo soa mal” na revista, por ver que isso pode trazer bons resultados para que haja uma mudança na Igreja Católica, já que ainda existem lugares que mostram alguma vitalidade. Oportunismo é uma palavra que não se encaixava à visita do papa, mas talvez disposição, para não deixar  os próprios fiéis  matarem a Santa Madre Igreja.

Não ficando de fora o também lembrado Pio XII, por meio do pensamento que a igreja regrediu a seus ancestrais. De forma sutil, ficou claro perceber que este novo papado agrada a Carta pela visão que a mesma tem.

Irônico seria relacionar o Ratzinger de hoje com o da excomunhão de 88, até porque o “general competente”, como é referido, poderia ter reprimido a teologia da libertação. Sua “capacidade” é tal que não poderia cultivar o radicalismo. Era isso que estava faltando na visão de “alguém capaz de entender a realidade”.

As tentativas de mostrar a linha de posição do santo padre falam da preocupação de que a nova igreja de Ratzinger “dá as costas para a modernidade, o que pode fazer com ele possa ser expulso da Igreja”.

O objetivo da visita, bem como o que Bento 16 encontraria, não faltou nas entrelinhas: “ A visita de Ratzinger ao Brasil enfatiza a distância entre a Cúria Romana e a realidade latino-americana ”. “ Um dos responsáveis pela guinada conservadora da Igreja, o papa encontrará no Brasil milhões de fiéis, que cobram e esperam muitas mudanças.”

O estilo de Joseph não foi deixado de lado. Mostra que ele não dispensa luxo e, assim não tendo moldes para ampliar a simpatia do público, busca a diferença, o que também pode estar inserido como “o papa do mundo virtual”.

A preocupação que afetara o pontífice disparou o sinal de alerta quanto à situação da igreja “na maior nação católica do mundo”.

“Quando desembarcar no Brasil, o papa Bento 16 terá a oportunidade de constatar de perto os resultados de seu trabalho.” Entre as muitas “batalhas de Ratzinger”, induzir o avanço conservador do Vaticano seria enfraquecer ou neutralizar a Igreja progressista alastrada por toda parte.

Não se tratava de um  julgamento para saber se a igreja estava bem ou mal, mas sim o que estaria sendo feito. ”L evando-se em conta os objetivos do Vaticano, o que a realidade mostrará a Bento 16 é que são questionáveis os resultados da moderna ‘contra-reforma' que ele mesmo gerenciou ao longo de quase três décadas”. Embora estivesse claro que o Brasil é um país totalmente mudado desde a primeira visita do polonês Karol Wojtyla, em 1980, o grau de crença foi mencionado: ” Os brasileiros são menos católicos e aumentaram as divergências da população com a cúpula da Igreja em relação a temas controversos.”

Tô nem aí

Na edição de 19 de maio, cuja manchete da capa era “De costas para o futuro”, foi mostrada a forma como o Brasil vê o Papa: “ A maioria dos fiéis já não ouve a voz de Bento 16, que, voltada para o passado, ignora as aflições causadas pelos problemas práticos da sociedade moderna”. Na foto ele aparece de costas. Essa não é a primeira vez que sua imagem é vista por trás, como se não bastasse na matéria interna da revista outra foto mostrá-lo de costas.

Na edição da visita, foi apresentada uma pesquisa de opinião pública nacional, realizada em abril deste ano, avaliando a visita de Bento 16 ao Brasil e o conhecimento das pessoas sobre a vinda do Papa, o motivo da visita, a igreja e a evolução da sociedade. Avaliou ainda sua opinião sobre a condenação da do aborto e da camisinha, a freqüência a missas, o hábito de rezar e os motivos pelos quais os fiéis mais rezam. Católicos e evangélicos surpreenderam, mostrando porque a religião virou o que é hoje.

Uma vez considerado “o cara” pela sua maneira de tentar solucionar os problemas da igreja, como o único capaz de trazer a vitalidade aos católicos, como se estivesse em um longo projeto de reavivamento, agora o que se vê é um homem ignorado por sua ideologia conservadora, ante os seus fiéis. Deliberadamente a libertinagem  do povo clama pelo modernismo, enquanto o Santo Padre roga pela moral e os bons costumes.