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O vôo pode ser mais alto

 

Depois de quase um mês, voltamos ao ar. Aliás, para falar de um problema que começa em baixo e se reflete em cima: nas aerovias. A crise aérea já se estende por meses no Brasil e na mídia nacional. Por isso a temática ainda, infelizmente, é oportuna. O problema, no entanto, é que falhamos no mesmo ponto em que fundamentamos boa parte da nossa crítica. Não conseguimos ir ao âmago da crise, que, pelo que parece, ultrapassa a esfera meramente política, mostrando-se um descaso para com a infra-estrutura do transporte aéreo brasileiro.

Baseio minha opinião na constatação de que todos os artigos, com exceção de um, “O céu não pode esperar”, sequer citaram possíveis causas da crise. A maioria dos articulistas se limitou a descrever a conjuntura atual, bem como as repercussões e desdobramentos políticos da mesma, mas sem explicar a razão do “apagão”. Entendo também que, como o próprio ombudsman da Folha , Mário Magalhães, apontou, a cobertura do colapso aéreo tem sido prejudicada pela falta de conhecimento técnico dos jornalistas sobre o assunto. Mesmo assim, e exatamente por isso, caberia a nós, críticos de mídia, deixarmos falar quem entende do tema, aprofundando o debate. Sinto que esse ponto, em particular, poderia ter sido explorado na reportagem e/ou na entrevista.

Já que mencionei a reportagem, vi como pontos fracos da mesma a falta de fontes mais ligadas ao tema, especialmente jornalistas que tivessem uma relação direta com as reportagens de maior impacto sobre a crise, como profissionais da Folha ou da IstoÉ . Entrevistar alguém da Infraero seria algo pouco provável, já que a empresa está reticente com a mídia, mas um representante do governo ou mesmo um acadêmico especialista na área, supriria em partes essa lacuna. Essas fontes poderiam conduzir a matéria para um viés mais interessante, que é o de identificação de quando, como e porquê começou o problema e quais as possíveis soluções a curto e médio prazos. Como pontos fortes, destaco a linguagem criativa, que conseguiu tecer o texto com vários jargões ou termos próprios da aviação, além de mencionar a falha de apuração do jornal Folha de São Paulo , na edição de 08/04/07.

Lamentei pela entrevista. Perguntas pertinentes do nosso repórter, mas ao que pareceu, má vontade do entrevistado Mário Magalhães. Fica aí o aprendizado para termos uma “carta na manga” quando a entrevista ficar abaixo da média. Alguns artigos, por sua vez, ficaram confusos quanto ao objetivo (“O céu não pode esperar”) ou superficiais na análise editorial, como “Atenção senhores ouvintes”. Já outros merecem destaque pela argumentação baseada na pesquisa de várias edições, como “Muito além do óbvio”, “Militares ainda causam medo” e “Atenção merecida”.

Vale destacar aqui uma seção que tem recebido elogios, e nessa edição não foi diferente, é a crônica. Mais uma vez o articulista André Leite mostrou criatividade ao tocar em pontos importantes da pauta, como a banalização das notícias sobre a crise aérea, o sensacionalismo da imprensa, a busca incessante por reconhecimento profissional e a precariedade dos serviços de aviação.

Por fim, cabe um comentário sobre os resultados da nossa enquete. A pergunta foi postada no lançamento da última edição, dia 24 de abril, e de lá até ontem, 23 de maio, ou seja, praticamente um mês, foram registrados 30 votos. Isso representa apenas 1,27% dos 2.362 acessos recebidos no mesmo período. Continuamos com baixa participação, mas também temos de considerar que muitos usuários podem ter acessado mais de uma vez, o que aumentaria a porcentagem dos que votaram.

De qualquer forma, dos que responderam, 40% acham que a imprensa deveria dar mais atenção ao tema. A meu ver, esse número reforça a idéia central da edição: a crise tem sido abordada com superficialidade. Os leitores não estão pedindo que necessariamente se fale mais sobre o “apagão”, mas que se explique o mesmo. Como muitos votaram que a imprensa tem exagerado na cobertura (26,67%), acredito também que seja mais uma reação do público ao excesso de notícias que falam muito, mas dizem pouco.

Por essa edição é só. Boa leitura sobre a vinda do papa Bento 16 ao Brasil e até a próxima!


Wendel Lima
ombudsman@unasp.edu.br