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Desperdício editorial |
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A visita do papa Bento 16 ao Brasil foi amplamente divulgada por toda a imprensa. Seus discursos conservadores e polêmicos ofereciam uma grande oportunidade de debate. Mas a mídia não aproveitou. |
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Tales Tomaz |
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Quando o Vaticano divulgou “o papa Bento 16 vai ao Brasil”, já dava para imaginar que a mídia teria muito assunto para falar. Afinal, seria a primeira vez que o novo papa pisaria fora da Europa. Ao mesmo tempo, surgia a dúvida. Como a imprensa cobrirá o ex-cardeal Joseph Ratzinger? Acostumada com o perfil carismático de João Paulo II, ela viu ascender ao posto máximo da Igreja Católica um homem sisudo, doutrinário e conservador. Havia presidido por 23 anos a Congregação para a Doutrina da Fé, uma Enquanto isso, a imprensa e o próprio público discutiam quais seriam os objetivos do papa nesta viagem. Segundo o arcebispo de São Paulo, d. Odilo Scherer, em carta a todos os católicos no site visitadopapa.com.br, o papa viria ao País para abrir a V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, o Celam. “Evidentemente, a Conferência não tem finalidade de discutir questões dogmáticas, mas terá um caráter eminentemente missionário e pastoral”, afirmava o prelado. Não foi exatamente dessa forma que os jovens católicos, principal alvo do papa, perceberam o discurso de Bento 16 ao longo da viagem. O estudante Frederico Camargos, de 20 anos, diz que o papa deu mais ênfase nos dogmas. Mas ele não acredita que isso seja necessariamente ruim. “Foi importante, não que eu concorde, mas surgirão efeitos. Eu já discordava dessas idéias de pregar o não-uso do preservativo e, quanto ao aborto, concordo com o presidente Lula. Pessoalmente sou contra, mas é assunto de saúde pública”, complementa. Enquanto isso, jovens de denominações protestantes tiveram percepções diferentes da repercussão da visita do papa. O estudante Ricardo Balzon, de 17 anos, é batista e percebeu o discurso do papa como doutrinário. Apesar de não ter acompanhado profundamente a visita, ele afirma ter notado a força de seus discursos pela atitude de amigos. “Tenho vários amigos que não eram praticantes. Depois da vinda dele, viraram”, afirma. Na opinião dele, isso vem exatamente ao encontro do objetivo de Bento 16: “A vinda dele foi para fortalecer a Igreja Católica no Brasil.” Outro estudante, Evanildon Dias, de 25 anos, tem uma opinião diferente. Ele afirma que o papa não priorizou o lado religioso de sua visita. “O que me pareceu é que ele veio como Chefe de Estado, e não como líder religioso. Nem para a visita do presidente Bush teve tanta segurança”, lembra. O que a mídia viu no papa A grande maioria do público só viu e soube do papa pelos meios de comunicação de massa. Por isso, é fundamental relacionar o que o público percebeu do papa com o que a mídia mostrou. Para Paulo Daniel Farah, doutor em Teoria Literária e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, o que a mídia apresentou foram as perspectivas religiosa e política do evento, em detrimento do impacto social: “A Igreja Católica ajudou a tornar público um debate como o plebiscito em torno do aborto, entre vários outros.” Embora tenha efeitos sociais, Farah entende que a discussão de temas controversos foi muito mais debatida do ponto de religioso. “[A Igreja Católica] encontrou espaço para debater temas importantes para a sociedade, embora muitas vezes sua posição seja bastante divergente daquela da maioria da população, como demonstram pesquisas recentes sobre temas concernentes ao uso do preservativo e ao segundo casamento, por exemplo”, afirma. Já Ivo Lucchesi, doutor em Teoria Literária e professor de Comunicação da Facha, RJ, acredita que a mídia não estava preparada para cobrir um papa com o perfil de Bento 16, mais conservador e dogmático, e falhou na reflexão sobre a visita e os discursos do pontífice. “A mídia, habituada a versões anteriores, se sentiu um tanto desconfortável, ante o perfil deste papa. Acabou por não cobrir em nenhum dos três [aspectos, político, social e religioso]. Quase teve falência múltipla dos órgãos”, ironiza. A questão que Lucchesi coloca é que por muito tempo a mídia se habituou a cobrir João Paulo II, um papa carismático, com gestos e palavras de astro de TV. Ele se configurou em um típico produto dos meios de comunicação. Com Bento 16 é diferente. Ratzinger não é o tipo que se preocupa com a imagem na mídia. Ele se diz incumbido de uma missão divina e não está preocupado com o que os meios de comunicação vão pensar dele. Globo x Record Outro ponto que chamou a atenção durante a cobertura da imprensa foi a disputa Globo x Record. As duas emissoras, conforme divulgou o Folha Online em 12 de maio, trataram com viés completamente diferente a visita do papa. No dia da canonização de Frei Galvão, a Record simplesmente ocultou o fato na sua escalada – apresentação das principais notícias – do Jornal da Record. Já a TV Globo se referiu aos protestantes como seitas, também na escalada do seu principal telejornal, o Jornal Nacional. Farah critica a postura das duas emissoras. Com relação à TV Globo, ele explica: “Ao tratar os evangélicos como seita, reproduz-se o discurso de um líder religioso que inferioriza as outras denominações cristãs. Quando se explicita que se está reproduzindo a fala O professor Venício de Lima, do Núcleo de Estudos de Mídia e Política (NEMP) da UnB, reafirma a importância da imparcialidade na cobertura de temas delicados que envolvem a religião. “Como vivemos em um estado laico e a radiodifusão é uma concessão pública, o rádio e a televisão não devem se envolver em proselitismo religioso de qualquer tipo”, alerta. Enquanto isso, Lucchesi chega a chamar a briga das emissoras de “mesquinharia da luta por audiência”. “Enfim, ao explícito tom conservador de Bento 16, a mídia ‘democrática' não soube – ou não quis – promover a prática do contraditório”, assegura. A cobertura da TV Globo, em especial, desagradou o público protestante. Evanildon, evangélico e freqüentador da Igreja Universal do Reino de Deus, diz que a emissora foi parcial, pois tratou a religião católica como dominante em uma sociedade que ganha cada vez mais evangélicos. “O que me pareceu é que a direção da emissora tentou enfiar o catolicismo goela a baixo de toda a população brasileira, se esquecendo – ou melhor – menosprezando a sociedade ‘protestante', chegando ao ponto de colocar na escalada do Jornal Nacional que as outras religiões são seitas”, declara. Frederico, católico, discorda: “O papa, querendo ou não, é uma figura muito importante no mundo e a atenção dada a ele foi normal.” Combate à liberdade de imprensa Entre todos os temas discutidos pelo papa, um chama a atenção especialmente para a imprensa. Uma reportagem do diário italiano La Repubblica, ao se referir aos discursos do papa no Brasil, afirma que “a culpa é da sociedade moderna e seus quatro cavaleiros do apocalipse: o agnosticismo, o relativismo, o laicismo e o consumismo, destruidores dos valores morais e da tradição bíblica. E há um quinto: os meios de comunicação de massa”. Farah, que também é editor da revista Fikr de estudos árabes e sul-americanos, interpreta essa crítica à mídia como um “direito que a liberdade de expressão prevê”. Mas o professor complementa: “O problema é quando se busca o apoio dos fiéis para cercear a liberdade de expressão”. Lucchesi diz que, apesar do discurso inflamado contra a mídia, isso não se trata de uma ameaça. “Nenhuma religião tem compromissos com democracia. E, pelo que religião – instituição – é, não tem como ser”, afirma. O professor chama a atenção para outro ponto da reportagem do La Repubblica, que foi divulgada inclusive em vários veículos brasileiros. A imprensa se vale da democracia para realizar seu trabalho e, por isso, exalta a liberdade de expressão. Mas Lucchesi afirma que a imprensa brasileira deveria estimular a “liberdade de pensamento”, que é muito mais importante. Lucchesi é taxativo: “A questão é saber se o indivíduo foi educado para libertar o ‘pensamento'.” Panorama: cobertura fraca A mídia brasileira enfrentou mais um desafio na cobertura da visita de Bento 16 e, ao que tudo indica, falhou. A transmissão acrítica dos discursos do papa foi, para os especialistas, o maior problema. Sem uma discussão crítica sobre os assuntos abordados, Bento 16 alcançou seu objetivo colocar a Igreja Católica no centro de debates sócio-políticos, além de fortalecer a religião no País. Para piorar, Globo e Record protagonizaram o pior momento da cobertura. A primeira, pelo menosprezo aos evangélicos, ao rotular suas denominações de “seitas”. A segunda, por ocultar um dos principais eventos durante a viagem de Bento: a canonização de frei Galvão. A luta entre as duas emissoras não é de agora. Desde que a Igreja Universal passou a injetar dinheiro na Record, as duas se bicam. O O destaque positivo ficou com a Folha de S. Paulo, que publicou um caderno especial de Religião, no qual debateu a relação entre as denominações de forma mais completa. Embora outros veículos tenham feito o mesmo, a Folha foi oportunista em encomendar uma pesquisa detalhada sobre a religiosidade no País. Dessa forma, ela mostrou aos leitores qual era o cenário que aguardava Bento 16. Com esse panorama, fica difícil afirmar que a imprensa brasileira cumpriu o seu papel na visita de Bento 16. As falhas da mídia ficaram evidentes nessa viagem. Globo e Record ainda têm um longo caminho a percorrer antes de eliminar suas vontades editoriais e mercadológicas em favor de uma discussão mais inteligente e reflexiva. Mas nem tudo está perdido. Provavelmente os jornalistas e empresários de comunicação terão bastante tempo antes da próxima visita do pontífice ao País. |
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