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Show de histórias |
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| Dayse Hálima |
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Falar de aborto é mexer na ferida e na consciência de muita gente. Uns querem que seja legalizado, outros acreditam que a melhor opção é conscientizar as pessoas da prevenção. Ainda existem aqueles que dizem que incentivar o uso dos métodos contraceptivos é pregar promiscuidade liberada. Cada um em sua opinião. E a mídia? Será que esta tem dado aos seus ouvintes e leitores respaldo para firmar sua opinião ou tem deixado a desejar? Tem feito a lição de casa ou espalhado comentários insólitos no ar? O tema aborto sempre foi discutido pela imprensa. Com a vinda de Bento 16 o assunto recebeu maior destaque sob a luz dos holofotes da mídia. A emissora Record, do bispo Edir Macedo, na visita do papa, concentrou informações nesta questão. Mostrou-se inteiramente solidária às mães que optam pela interrupção da gravidez. Bateu de frente com a Igreja Católica. Não se sabe se tamanha parcialidade é uma "guerra" de religiões ou tem outro nome. As edições do Jornal da Record que foram ao ar durante a visita de Bento falaram sobre aborto inúmeras vezes. O jornal fez suas as palavras do ministro da Saúde, José Gomes Temporão, quando ele diz que quem não acredita que o aborto seja uma questão de saúde publica tem "algum problema de confusão mental". A Folha Online sempre enfatiza os depoimentos do presidente Lula, nos quais ele se diz a favor da legalização do aborto como medida de saúde pública. Um exemplo é a edição de 14 de maio, quando o tema virou disputa de preferências partidárias (na tentativa de novos votos em próximas eleições) e "sala de debates" para criticar o autoritarismo de Ratzinger. Pois o papa ressalta a idéia da proibição do aborto e ainda ameaçou excomungar políticos que são favoráveis ao aborto. Na edição de 20 de maio, a Folha de S.Paulo faz um apelo sensacionalista ao contar dramas de jovens mães que preferiram dar fim a gravidez e o fizeram de modo clandestino. O semanário ainda discorreu sobre o fato de que são raras as mulheres que, quando descobertas pelo crime, são punidas. Fez quase que um apelo escandaloso por justiça. Notas e nada mais A revista Veja de 16 de maio mostra-se contra a legalização do aborto e critica o ministro Temporão. Usando termos como “momento inoportuno” e "atrair os holofotes", Veja trata com severidade e deboche a intenção do ministro em realizar um plebiscito pela legalização do aborto. Só que não faz nada mais que isso. Nada de específico, nada de contundente. Poucas notas, nada mais. Mas é uma contradição, típico de Veja. Em 17 de setembro de 1997, dez anos atrás, em uma reportagem de capa intitulada "Eu fiz aborto", a revista trata do assunto por outra vertente. Em se tratando do dito semanário, nada mais comum: o que vale é o momento. Na reportagem, famosas e anônimas relatavam seus casos de aborto, nenhum deles amparados pela lei (que prevê a interrupção da gestação só em casos de estupro e risco de vida para a mãe). E Veja as tinha como mulheres decididas porque "interromper a gravidez era uma saída menos dolorosa do que ter um filho". Na mesma edição ainda havia outra reportagem que falava sobre os lugares onde o aborto já era ato legal. Informação em pequeníssima escala O tema é discutido e rediscutido. Histórias tenebrosas de mães arrependidas, decididas ou confusas são lançadas aos olhos dos expectadores. Mas o que tem sido feito não muda nada. Parece ser um jogo de interesse. A desinformação é total. Nada de novo é acrescentado. Fala-se em conscientizar, mas não se arregaçam as mangas em campanha. O papel da mídia é esse: trabalho social. Discutir o aborto é preciso. Mas não fazer do tema um escarcéu de emoções. A discussão precisa ir além do razoável, do intermediário, do básico. O que a mídia mostra não é novidade. Dar voz ao ministro e dizer o que pensa o papa é conveniente. Mas não é tudo. Escancarar a realidade de quem pratica o aborto, isso sim é interessante. E os processos que tramitam na justiça, quanto tempo levam? Isso tem significado. Por que só a mulher grávida é condenada pelo crime do aborto, quando, se não na totalidade, em 90% dos casos ela tem respaldo de alguém? Seja namorado, marido, pai, mãe ou amigo. A imprensa precisa esclarecer o que leva essas mulheres a decidirem pelo aborto. É opção ou falta de opção? Mas parece que contar histórias comoventes e enxovalhar grandes nomes é bem mais lucrativo do que aprofundar-se em questões sociais. |
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