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Deus atrapalha

Rodrigo Galiza

Quando se fala ou escreve sobre assuntos como clonagem, célula tronco ou aborto, é inevitável não falar sobre religião por dois motivos. Primeiro, porque o Ocidente é uma região de predominância cristã. Cultura, leis, línguas são baseadas em princípios desenvolvidos pelo cristianismo. A religião que crê ser Jesus de Nazaré o filho de Deus e Salvador. Segundo, porque as maiores descobertas científicas foram feitas por cientistas cristãos criacionistas em universidades cristãs.

E, como toda religião, o cristianismo tem uma filosofia de vida, uma cosmovisão que determina o que é certo ou errado. O aborto e a clonagem, por exemplo, são debatidos com base no princípio da criação divina do universo. Os mais ortodoxos acreditam que esses procedimentos científicos são contrários à criação divina. Os mais liberais, que se dizem cristãos mas não aceitam a criação bíblica, já argumentam que os avanços da ciência não são contrários ao processo da evolução.

Por isso clonar não é moralmente errado, visto que a evolução diz que a natureza e o homem evoluem com o tempo. Com essa premissa, o certo e o errado são determinados pela utilidade nesse processo evolutivo. Nessa discussão estão ainda os ateus. Os que não acreditam em Deus e vivem no Ocidente cristão. A posição deles se assemelha muito à do grupo anterior.

Ao analisar as revistas Time e Newsweek, de circulação mundial, deve-se levar em conta o país de origem das publicações. Os Estados Unidos da América são um país de origem protestante. Além da influência cristã, tem os mais ferrenhos defensores do ateísmo e uma cultura altamente capitalista. Os cristãos acreditam que a vida provém de Deus e a ciência deve levar isso em consideração. Ou seja, não pode passar os limites impostos por Deus na investigação da natureza. Os utilitaristas já enfatizam que a ciência deve ser usada para melhoria da sociedade sem se basear em princípios religiosos. Qual das posturas as revistas americanas adotam?

Incerteza

A Time não traz muitas reportagens sobre esses assuntos polêmicos. E quando fala sobre eles, coloca em dúvida a confiabilidade das pesquisas científicas. Em 10 de julho de 2006, a reportagem “Os perigos da clonagem” fala das incertezas que os próprios cientistas têm sobre os clones. Dez anos após Dolly, a ovelha clonada na Escócia, a Time mostra que mesmo o seu criador, Ian Wilmut, tem dúvida se o clone é uma reprodução perfeita.

Sobre células-tronco, a dúvida é a mesma. Na reportagem de 9 de outubro do mesmo ano, o semanal afirma que as pesquisas não estão 100% seguras. E enfatizou o aspecto econômico da ciência.

Nesse ramo de forte interesse comercial, a Time aponta o grande crescimento europeu. “Leis liberais ... têm feito da Europa uma líder”. Ao contrário, os Estados Unidos têm regredido por causa das políticas fundamentalistas de Bush, seu presidente, de forte influencia religiosa.

O Salvador da humanidade

A Newsweek já é mais enfática sobre as vantagens econômicas e humanas da clonagem e das células-tronco. O fato de os Estados Unidos perderem espaço para Europa e países orientais como China e Coréia do Sul é também bastante explorado em várias reportagens. Na edição de 1º de março de 2004, uma reportagem inteira tratou sobre os avanços das pesquisas em células-tronco na Coréia. E num pequeno Box, há a referência ao “medo de clonar” das universidades americanas, proibidas por Bush, enquanto a China desponta em primeiro lugar.

A oposição a Bush continua. O tradutor desse sentimento é o biólogo molecular da Universidade de Princeton, Lee Silver. Ele é o autor das principais matérias polêmicas sobre ciência e religião. Em 30 de julho de 2006, Silver, ao escrever sobre o uso de células humanas em animais, aponta para a forma como o antagonismo religioso de Bush prejudica pesquisas promissoras. Silver inicia a reportagem falando sobre as figuras da mitologia grega que eram meio humanas e meio animais e conclui que “a separação de animal e homem pode ser apenas coisa da nossa imaginação”.

O maior exemplo da posição da Newsweek é a reportagem principal de 5 de abril de 2004. “Ciência ruim” é o título estampado na capa. A ilustração traz um homem de terno, simbolizando políticos e religiosos, vedando os olhos de um cientista com seu microscópio. A evocação é clara. O subtítulo classifica as medidas de Bush como “fobias” que torcem a ciência e a tecnologia.

Dentro da revista, o título é “O efeito Deus”. Silver alega que as crenças cristãs infelizmente influenciam pesquisas de modificação genética. “Felizmente”, para ele, “o mundo científico não está mais em centros Ocidentais ”, onde a visão cristã impera. Lee afirma que Darwin trouxe a concepção de que os genes dos animais se encontram em todos os seres vivos, o que facilita o desenvolvimento científico. Assim, ele indiretamente afirma que a religião é anticientífica.

O resultado dessas políticas liberais no Oriente e ortodoxas no Ocidente é que os religiosos estão perdendo. A produção na agricultura está diminuindo, possíveis curas na saúde são ignoradas e os asiáticos estão na frente. E o final disso tudo é que, “enquanto as nações asiáticas tomam a liderança, as vantagens de permitir essa pesquisa podem tornar-se mais claras para as culturas Ocidentais. Estados Unidos e Europa podem até mudar de visão. Se for assim, a globalização será a salvadora da ciência e das pessoas”.

O linguajar religioso usado por Silver não é apenas esporádico. Em 2 de fevereiro de 2004, “enquanto a tecnologia responde às orações, problemáticas são levantadas” pela política atrasada de Bush. E a esperança, que é identificada como de origem divina no Ocidente, é atribuída aos avanços da ciência em 28 de junho do mesmo ano. “Célula-tronco encontra esperança na cura de doenças mortais” é o subtítulo.

Não precisa ser expert em análise de discurso para saber que a Time e sua concorrente compartilham da mesma opinião. A Newsweek é taxativa em seu ponto de vista, a Time já é mais recatada. Mas ambas trazem a ciência numa roupagem humana, boa e útil. Para elas, a religião atrapalha a evolução humana. Enquanto isso, o cristianismo, que é confundido com a ortodoxia política de Bush, é identificado como retrógrado, contrário ao avanço científico e, acima de tudo, contra o bem da humanidade.