|
|||||||
![]() |
|||||||
| |
|||||||
Política de avestruz |
|||||||
Leonardo Siqueira |
|||||||
A clonagem da ovelha Dolly abriu espaço para a discussão do tema bioética e biotecnologia. A técnica gerou, ainda, uma série de problemas éticos à vida humana. Clones deformados e a promessa milagrosa da reprodução da vida foram assuntos amplamente discutidos pelos meios de comunicação. Contudo, a polêmica sobre a manipulação da vida humana permanece. E cheia de fantasias. É essa a visão do frei Antônio Moser. Ele é representante do Conselho de Bioética da Conferência Nacional de Bispos do Brasil (CNBB) e um dos maiores defensores da Igreja no País. Segundo ele, o uso de embriões para a pesquisa não vai resolver o problema da vida humana de maneira ética. Moser aponta a parcialidade dos veículos de comunicação como um obstáculo à discussão de tema e sugere: “Falta honestidade e humildade para perceber o que está ocorrendo”. Na visão do teólogo, a imprensa deveria ampliar o debate e abrir espaço para os dois lados da polêmica. Moser julga incoerente acreditar que a técnica vai resolver todos os problemas da humanidade. Isso tudo, defende o frei, é “venda de ilusões e uma mecanização da vida”. Sobre o aborto, ele critica a posição do ministro da saúde, José Temporão, ao afirmar que o procedimento é questão de saúde pública e declara que agir desta maneira é fazer a “política de avestruz”. Moser é doutor em Teologia, especializado em moral pela Academia Alfonsianum de Roma. Lecionou Teologia na PUC do Rio de Janeiro e foi professor convidado na Universidade Católica de Lisboa e de Berkeley na Califórnia. O teólogo é autor de 19 livros e diretor-presidente da editora Vozes. Canal da Imprensa – No livro Biotecnologia e bioética – para onde vamos?, o senhor sugere uma abordagem cuidadosa ao avaliar a realidade da vida e dos avanços promovidos pelo homem. Isso vale para os meios de comunicação? Frei Antônio Moser – Sem dúvida nenhuma. Os atuais meios de comunicação, cada vez mais sofisticados, abrem perspectivas inusitadas para uma vida nova a muita gente. Inclusive, nunca o mundo esteve tão perto de um entendimento como hoje. Paradoxalmente, esse entendimento nunca esteve tão longe. Isso vai depender da maneira pela qual nós encaminhamos os recursos colocados ao nosso alcance. Tudo vai depender da capacidade do ser humano de administrar o seu conhecimento e tecnologia para fazer o bem e nunca o mal. O tema da biotecnologia e bioética (clonagem, células-tronco e aborto) envolve a questão antropológica, além do acúmulo de informações. Para tanto, deve haver uma triagem do conteúdo. As pessoas precisam ter capacidade crítica e de auto-análise ao avaliar os produtos midiáticos. CI - Como o senhor avalia a cobertura que a mídia tem feito sobre temas como aborto, clonagem e células-tronco? Moser - De modo geral, os meios de comunicação têm feito o papel deles no sentido de buscar informações. Mas, infelizmente, a mídia tem privilegiado aqueles que estão a favor do uso das células embrionárias. Ou seja, aqueles que julgam que a vida não tem início na fecundação. Isso em termos de tempo e extensão de texto. Eu acho que está na hora de ouvirmos realmente os dois lados. Vou dar um exemplo do que ocorria na França na década de 70, quando eu fiz meus estudos. O atrativo do grande público eram debates que duravam de duas a três horas entre especialistas sobre um assunto polêmico. Está na hora de os nossos programas de TV proporcionarem ao grande público um verdadeiro debate e não apenas flashs, na maioria das vezes entrecortados. É um desafio que nós colocamos para os meios de comunicação. CI - Em relação à abordagem feita pela imprensa sobre temas ligados à vida humana, há ênfase na posição da Igreja pelo aspecto religioso em detrimento do conhecimento científico? Moser - Sem dúvida nenhuma. A Igreja tem intuições ao longo da história. É claro que ela nem sempre consegue transmitir isso em uma linguagem compreensível. Uma dessas intuições é que a vida tem início no momento da fecundação. Certos setores do campo da pesquisa têm limitações. Aliás, é uma ignorância tremenda falar em “nome da ciência”. Há linhas diferentes de pesquisa entre os cientistas e, inclusive, a Igreja está muito bem assessorada no campo da pesquisa. Os cientistas que apóiam a utilização das células-tronco embrionárias ainda não perceberam as verdadeiras conquistas da chamada biogenética. A partir do Projeto Genoma houve a caracterização da vida. Desde o momento da fecundação – e isso não é um dado religioso, mas científico – vai se instalar o DNA, a programação genética da pessoa. Essa programação terá várias fases. O nosso DNA ou “programa genético” vai do início ao final como algo único, original. Há cinco anos eu não ousaria falar isso. Hoje, eu tenho absoluta certeza de que se trata de um dado científico. Basta observarmos isto em um laboratório. Parece que algumas pessoas que falam em nome da ciência não sabem observar esse dado. CI - A imprensa reflete de alguma forma a maneira pela qual a sociedade entende o assunto ou há outras entidades (família, escola, igreja) que ainda formulam sua própria idéia sobre ciência? Moser - Os meios de comunicação exercem grande influência sobre essas entidades. No entanto, hoje, a mídia adquiriu uma força tal a ponto de a escola, família e igreja perderem muito espaço. Em um período de 15 dias a um mês de exposição à mídia, a maneira de pensar da população muda significativamente. A grande imprensa tem um poder manipulador incrível. Eu não estou dizendo que ela sempre vai se valer desta manipulação, mas é uma ferramenta que está a sempre a disposição dela. A mídia tem um poder incrível de fazer a cabeça das pessoas, inclusive, a grande virtude que as outras instituições como família, sociedade, escola e igreja têm é a capacidade de exercer o senso crítico. Não acredite em Papai Noel. Não acredite em milagre fácil. Nós, como representantes da Igreja, dizemos: milagre? Prove. O patrono dos dias de hoje deve ser São Tomé: “Mostre as tuas chagas e vou acreditar”. Há muita credulidade. No último 28 de maio, a revista Época, página 96, publicou uma reportagem interessantíssima sobre as promessas grandiosas da ciência. A revista mostra que a perspectiva de um resultado positivo para certas pesquisas está prevista para o ano 2020. Há, inclusive, referências de centros que estão aplicando tratamentos com células-tronco. Ora, isso é uma irresponsabilidade. A pesquisa precisa passar, ao menos, pelo seguinte processo: pesquisa básica, estudo em laboratório, pesquisa clínica com animais para, a partir de então, passar para a pesquisa clínica. Tudo isso é muito complexo e demorado. Isso é uma simplificação antiética da vida. CI - O ministro da saúde, José Gomes Temporão, sugeriu um plebiscito para discutir a legalização do aborto no País. O senhor é a favor da proposta feita pelo ministro? Moser - Daqui a pouco haverá um plebiscito para legalizar a prostituição, a droga e assim por diante. Ora, há questões que não devem ser levadas adiante. Isso não significa que somos incrédulos em relação ao bom senso, mas devido ao poder da máquina governamental de impor certas conclusões. E por isso, eu penso que isso seria uma irresponsabilidade. O debate, não. A polêmica deve ser discutida em nível de grandes especialistas para que fique clara a posição de quem é contra ou a favor. Colocar o aborto como uma questão de saúde pública é fazer a política de avestruz. A questão da saúde verifica-se pelo estado em que se encontram os postos de atendimento ao cidadão, que carecem dos recursos mais básicos. São milhões de pessoas fazendo fila. Inclusive, esperando durante meses um exame no SUS. Além do mais é uma excelente oportunidade para que o governo acorde e valorize aquilo que já existe. A pastoral da criança. E isso envolve o atendimento à gestante, saber as necessidades básicas da mulher a fim de subsidiar e acompanhar o processo da gravidez. Com o acompanhamento adequado, ninguém vai querer abortar. Muitas vezes as pessoas se vêem oprimidas pelas circunstâncias da pobreza, da miséria, da falta de conhecimento. Todo aborto é uma freada brusca nos mecanismos do corpo. A pílula do dia seguinte é uma verdadeira “bomba” de efeito retardado no organismo da mulher. Agir dessa forma é uma irresponsabilidade. Não é porque está na lei que o aborto é crime. A interrupção da gravidez afeta o sistema biológico e psicológico da pessoa. Isso precisa ser considerado. CI – Quais os desafios da ciência ao tratar de temas como aborto, clonagem e pesquisas com células-tronco embrionárias em relação ao respeito pela vida humana? Moser - O desafio maior consiste em sabermos ouvir e nos alegrar com as conquistas verdadeiras das pesquisas, mas não confundir dados científicos com meras teorias. Hoje existem muitas teorias. Qualquer um formula uma teoria mais ou menos fundamentada. Muitas vezes alguns cientistas com um pequeno número de experiências já lançam a pesquisa como se ela fosse conclusiva. Ora, a ciência requer muitas experiências, comprovações. E isso demanda um grande período de tempo. Mesmo hoje, com toda a agilidade oferecida pela tecnologia, nós não podemos nos precipitar e lançar como dado aquilo que é uma mera teoria ou hipótese. Estamos considerando como informação científica coisas imaturas. As células-tronco são uma esperança. Mas esse processo vai demorar. Isso é ser honesto. As células de um embrião não são o que se imagina que sejam. A reportagem da Época explica que em 2020 não teremos diferenças entre células adultas e embrionárias. Mas por quê? Toda célula-tronco será derivada de células somáticas do próprio paciente. Isso é visão de futuro. Outro aspecto importante destas pesquisas é a questão de elas trabalharem com embriões congelados como se fosse algo tão simples assim. É complicadíssimo. A maior parte desses embriões vai apresentar defeitos. Nós sabemos que os genes não são imutáveis. Eles sofrem o efeito do congelamento e descongelamento, além de outros fatores. Parece até que certos setores da ciência julgam muito simples aquilo que de fato é muito complexo. Há uma venda de ilusões e cura fácil. Isso é muito perigoso. Você privilegia apenas o aspecto biológico da vida humana e esquece a questão psicológica, política, social, econômica, afetiva ou religiosa. Para garantirmos um estado favorável para a saúde precisamos trabalhar todas as dimensões do humano, ao invés de centrar a discussão a partir de um ângulo, apenas. CI - Em relação à discussão que tramita no STF, é necessário discutir o início da vida? Afinal, o que está em jogo não é a produção de embriões, mas a finalidade deles. Segundo a comunidade científica, embriões congelados há mais de três anos teriam dificuldade para sobreviver. Moser - Evidentemente que o grupo favorável à liberação do uso de embriões quer o aborto para todo o tipo de experiências. É de alguma maneira uma armadilha que foi colocada. Para mim, o Supremo Tribunal vai esclarecer o 5º artigo da Constituição que nos garante o direito à vida desde o seu início. O Supremo vai agir com sensatez. Dizer que só serão utilizados embriões congelados há três anos é novamente uma grande ilusão. Ou melhor, uma estratégia. Na realidade criar embriões virou uma indústria. Isso nunca pára. A questão envolve somas enormes de dinheiro e um interesse econômico. A transmissão da vida humana é sempre um milagre. Nós temos que respeitar esses mecanismos e socorrer o casal na questão da esterilidade. No fundo, o que ocorre é uma mecanização da vida. A Igreja não pode concordar com isso. CI - Qual seria o destino destes pré-embriões, caso seja vetada ou aprovada a utilização de células-tronco embrionárias? Moser - Se for vetada é muito simples. Segundo esses grupos de pesquisa, depois de alguns anos, os embriões não teriam mais condição de sobreviver. Se o Supremo liberar o uso de embriões o que vai acontecer é a liberação dos “estoques”. Esse parece o termo mais apropriado. Nós não sabemos o que fazer. Vamos eliminar esses embriões? Coitadinhas dessas pessoas que estão sofrendo mal de Alzheimer... Para que iludir os familiares destas pessoas com a perspectiva de cura que não tem o menor cabimento, por enquanto. Eu acho isso um crime. Vender ilusões de cura é um crime. Caberia ao Supremo decidir o destino desses embriões. É certo que eles vão desaparecer, caso vetada a pesquisa com embriões. É algo parecido com o que aconteceu com a bomba e vários tipos de armas. Estão aí. Você provoca uma espécie de armadilha pra você mesmo e depois não tem saída. O caminho é não produzir mais embriões. CI - É válida a ação do ex-procurador geral da República, Cláudio Fonteles, junto ao Supremo Tribunal Federal, que pretende impedir o uso de células-tronco embrionárias para a pesquisa? Moser - Cabe ao ex-procurador, uma pessoa altamente qualificada, defender a ação. Por sinal, bem fundamentada. Alguém pode dizer: ah, o Fonteles é ligado à Igreja... Ele não está agindo em nome da Igreja. Ele está agindo em nome do direito. Ele pode ter a religião dele. Efetivamente, não está em jogo uma crença. A questão é concepção e o direito à vida, assegurado pela própria Constituição. Atrás de todas essas teorias do início da vida humana existe uma concepção materialista. O início da vida logo na fecundação é uma compreensão muito mais global do sentido da existência humana. Aí entra a religião. Deus chamou cada um de nós à existência. Não estamos no mundo por acaso. É uma concepção antropológica. O Fonteles fez o que deveria ter sido feito desde o início. Essa votação, todos sabem, foi precipitada e mudou de curso. Eu não quero acusar ninguém, mas é algo que precisamos averiguar. De qualquer forma, a gente questiona qual seria o rumo da discussão caso a polêmica não fosse votada no Senado. O aborto e outras coisas parecidas são tragédias que precisamos enfrentar. Mas não incrementar. Quem afirmou que a liminar contra a utilização de embriões é de cunho religioso não tem autoridade para fazer tal declaração. Agora, o Fonteles tem autoridade e está muito bem assessorado. CI - Qual deveria ser a atuação da mídia em relação a polêmica do início da vida? Moser - Os meios de comunicação precisam fazer o contraponto e dar espaço igual para ambas as partes. Sem privilegiar um lado em detrimento de outro. Isso é fundamental. É preciso, também, ter honestidade e humildade para perceber o que está ocorrendo. Um jornal publicou a opinião de alguns pesquisadores sobre a Igreja Católica. O texto afirma que a Igreja falsifica certas informações científicas, entre elas, a de que as células adultas seriam superiores e teriam um potencial regenerador maior em relação às células embrionárias... No dia seguinte, apareceu outra reportagem qualificando as células adultas, não no sentido de elas serem melhores. As células do embrião se destinam simplesmente a ser propulsoras daquela vida concreta. As células adultas teriam a função de regenerar certos tecidos do corpo. A pesquisa com embriões não é conclusiva. Estamos colocando o carro na frente dos bois afirmando que uma é mais poderosa que outra. Não estamos dizendo isto. Uma é propulsora, outra regeneradora. Há uma confusão enorme. Falta honestidade. Nós estamos no início de uma grande pesquisa que deve durar muito tempo até chegarmos a resultados satisfatórios. Parece que se criou uma vara mágica. As células-tronco resolvem qualquer problema. É uma venda de ilusões. |
|||||||