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Esperança congelada

Leonardo Siqueira

 

Geralmente, quando se fala em células-tronco, as pessoas imaginam um feto com “perninhas” e “bracinhos”. O embrião, na verdade, é um conglomerado de 100 a 200 células que ainda não se implantou no útero materno. Para a Igreja e vários representantes da ciência, a fecundação caracteriza o início da vida. Por outro lado, o “pré-embrião” por si só não é vida se não for transferido para o útero. Por isso, a retirada das células-tronco embrionárias não pode ser considerada aborto. A fim de estabelecer o início da vida, o Supremo Tribunal Federal reuniu, em abril deste ano, representantes da Igreja e da comunidade científica em uma audiência. Mas até agora, não houve um consenso sobre a polêmica.

Para a cientista Lygia Pereira, o foco está errado. Segundo ela, a discussão não é a concepção da vida, mas se a sociedade vai permitir o transplante de órgãos de quem teve morte cerebral, a retirada do feto por causa de um estupro e o que fazer com os embriões congelados. Lygia destaca, ainda, a atuação da imprensa sobre assuntos ligados a vida humana. A professora, reconhecida pelo didatismo, foi convidada a ensinar fundamentos da genética aos atores da novela O Clone, da Rede Globo. Ela comenta a atuação da imprensa na difusão do tema clonagem e o papel da TV na formação do senso crítico das pessoas.

Lygia é graduada em Física pela PUC-RJ e doutora em Ciências Biomédicas pela Mount Sinai School of Medicine, de Nova Iorque. Ela é chefe do laboratório de Genética Molecular do Instituto de Biociências da USP e a primeira geneticista a trabalhar com células tronco-embrionárias no País. Além disso, a cientista é autora dos livros “Seqüenciaram o genoma humano... e agora? e “Clonagem: da ovelha Dolly as células-tronco”, ambos pela editora Moderna.

Canal da Imprensa - A técnica da clonagem terapêutica repercutiu na mídia e foi destaque em novelas como O clone, da Rede Globo. Qual o papel dos meios de comunicação na abordagem de temas como este?

Lygia Pereira - A novela não tem nenhum compromisso com a “verdade” ou rigor científico. Ela trata da ficção e por isso pode apresentar o tema da maneira que achar conveniente. Na época, a Rede Globo abordou muito a realidade da clonagem reprodutiva. E isso refletia a seleção noticiosa nos próprios telejornais da emissora. Ademais, a novela enfatizou a questão da clonagem como algo simples de fazer, que dava certo e nascia um clone perfeito. A realidade que a gente vê com todos os animais clonados é bem diferente. A técnica gera uma porção de animais defeituosos.

CI - Como a senhora avalia a cobertura feita pela imprensa brasileira em torno do assunto? Falou-se mais das conseqüências negativas da clonagem em detrimento dos benefícios à vida humana ou o conteúdo midiático refletiu uma preocupação da sociedade?

Lygia - Eu avalio a atuação da imprensa de maneira positiva. Ela desempenhou o papel de informar e refletir o interesse da sociedade pelo tema. Na época, a maior ênfase estava nos perigos da clonagem reprodutiva. Hoje a imprensa trata de maneira mais abrangente os benefícios da clonagem terapêutica. O importante é diferenciar os dois tipos.

CI - A imprensa reflete de alguma forma a maneira pela qual a sociedade entende o assunto ou há outras entidades (família, escola, igreja) que ainda formulam sua própria idéia sobre ciência?

Lygia - A compreensão da ciência será o resultado da influência de todas estas entidades (família, escola, igreja). Contudo, os meios de comunicação têm um papel importante na difusão do conhecimento científico. Teoricamente, a abordagem deveria ser imparcial. A televisão é responsável por uma grande parte do conhecimento da população. Pouca gente lê jornal, e a TV tem um papel importante na formação do senso crítico das pessoas. Agora, sem dúvida, a família e a religião desempenham um papel diferente. E é difícil avaliar a influência de cada uma destas entidades.

CI - Quais os desafios da ciência ao tratar temas como aborto, clonagem e pesquisas com células-tronco embrionárias em relação ao respeito pela vida humana?

Lygia - Deixar claro que é possível realizar pesquisas com material humano de forma ética. A ciência precisa tratar o tema de maneira equilibrada. O nosso objetivo não é produzir embriões humanos. A gente apenas quer resolver o problema do material esquecido e aproveitá-lo para a pesquisa.

CI - O ministro da saúde, José Gomes Temporão, propôs um plebiscito para discutir a legalização do aborto no País. Como a senhora avalia a proposta feita pelo ministro e qual deveria ser o papel da sociedade na discussão do tema?

Lygia - A proposta é ousada. A sociedade tem acesso à informação de maneira genérica e nem sempre enxerga os diferentes aspectos da questão. É claro que o tema aborto é conhecido do cidadão. A discussão é feita na escola e divulgada pelos meios de comunicação. E a sociedade tem um papel importante, afinal, é ela quem vai decidir, caso aprovado o plebiscito, o rumo do aborto no Brasil. É fundamental intensificar a divulgação e mostrar todos os lados da moeda. Isso vai refletir o voto de uma população bem informada.

CI - Em artigo publicado na revista eletrônica Comciência , o presidente da Sociedade de Bioética de São Paulo (SBSP), Marco Segre, fala da importância de um “rumo” para a discussão sobre o início da vida. Segundo ele, há embriões excedentes, congelados, cuja utilização concepcional seria improvável. Qual seria o destino desses pré embriões, caso seja vetada ou aprovada a utilização de células-tronco embrionárias?

Lygia - Se for vetada, os embriões podem ficarão congelados nos tanques de nitrogênio líquido e eu não sei o que faríamos com eles. É algo que precisa ser discutido. A utilização dos embriões para a pesquisa é uma finalidade pelo menos útil e um sinal de que os pais não estão mais interessados em ter filhos. Além do mais, o apoio à pesquisa potencializará os benefícios da técnica para a saúde humana.

CI - A senhora é a favor da clonagem?

Lygia - Eu sou a favor da clonagem terapêutica, não reprodutiva. Há um problema ético com a técnica da clonagem reprodutiva e no Brasil ela não é permitida.

CI - A polêmica da utilização de células-tronco embrionárias implica necessariamente discussão sobre o início da vida? Qual é a proposta do Supremo Tribunal Federal e da lei de Biossegurança?

Lygia - A polêmica sobre o início da vida não tem nada a ver com a discussão. O debate é se a sociedade vai permitir a retirada de órgãos de uma pessoa que teve morte cerebral, a retirada do feto por causa de um estupro e o que fazer com esses embriões congelados. É importante esclarecer que tipo de embrião trata a lei. Nós não vamos produzir embriões só para a utilização em pesquisa.

CI - É válida a ação feita pelo ex-procurador da República, Cláudio Fonteles?

Lygia - Eu não acho correta a ação do ex-procurador-geral da República, Cláudio Fonteles. Cabe ao Supremo Tribunal Federal julgar a ação, fundamentada em duas coisas. Primeiro, que a vida começa na fecundação e a própria Constituição assegura o direito à vida, à propriedade, já que estamos tratando, segundo Fonteles, de um ser humano em potencial. A questão não é definir quando começa a vida. Mas a que tipo de vida a nossa Constituição está se referindo. Se o direito à vida estiver relacionado aos embriões congelados, eles terão direito a herança e a uma série de coisas. A liminar passa por uma premissa científica falsa de que as células-tronco adultas são superiores as embrionárias. Isso não é verdade.

CI - Qual deveria ser a atuação da mídia em relação à polêmica sobre o início da vida no STF?

Lygia - Os meios de comunicação precisam atuar com transparência e apresentar todos os lados da polêmica.