|
|||||||
![]() |
|||||||
| Edição abençoada |
|||||||
Desde que foi anunciada a visita do papa Bento 16 ao Brasil, deve ter vindo à mente do leitor, bem como veio à minha, a imagem do carismático papa João Paulo II dando o seu emblemático beijo no solo estrangeiro que o recebia. É provável que um ou outro esperasse gestos semelhantes de Joseph Ratzinger, mas a grande expectativa mesmo ficou pela força dos discursos elaborados a partir da destacada erudição do pontífice. É exatamente aí que a mídia brasileira, de modo geral, parece ter deslizado. Como imprensa, não estávamos preparados para noticiar um papa não tão pop. As homílias do líder máximo dos católicos criaram espaço para grandes discussões sociais e resgate da história ocidental, que foi desperdiçado por boa parte dos veículos de comunicação. Diante disso, a visita papal tornou-se pauta indispensável do Canal e um tema muito rico para os nossos articulistas explorarem. De modo geral, acredito que o tema foi bem abordado, pois conseguiu dar um panorama da cobertura da imprensa sobre o assunto e apontar as principais lacunas da mesma. Dois pontos deixaram a desejar: uma contextualização mais apurada das peculiaridades históricas que envolveram os pontificados de João Paulo II e seu sucessor Bento 16, bem como um enfoque na história, papel e implicações do Celam, concílio dos bispos católicos latino-americanos. Os pontos fortes ficaram por conta da reportagem, “Desperdício editorial”, pelo título, por entrevistar fiéis de várias denominações e por identificar talvez o principal deslize da cobertura: a superficialidade em relação aos discursos papais. As fotos e legendas também foram oportunas, já que trataram da expectativa de Veja sobre Bento 16 e sobre o principal embate midiático: a canonização de frei Galvão (Globo x Record). Senti falta de uma fonte da imprensa, além de clérigos. Um professor em ciência da religião, especializado em catolicismo, também seria interessante. A entrevista também merece destaque, já que o entrevistado diferenciou o atual pontificado do seu anterior. Bento 16 foi apontado como aquele que tem feito um processo de verticalização – qualidade –, enquanto João Paulo II desenvolveu uma liderança mais voltada para a horizontalização – expansão. A entrevista ainda conceituou a briga da TV Globo com a TV Record como mero embate mercadológico e não ideológico-religioso. Procurou, ainda, distinguir liberdade de expressão de liberdade de pensamento. Não tivemos sucesso com ninguém que representasse a CNBB, nem consultamos um cientista da religião, mas acredito que o entrevistado supriu as necessidades. Ficam com os aplausos pela pertinência dos títulos, qualidade da pesquisa e coesão textual os artigos “Papas na língua”, “Pouco carisma, mais doutrinamento” e “As extravagâncias da mídia”. Já as matérias “Compromisso com a informação” e “Na medida do possível” cometeram deslizes. O primeiro, por tratar da Folha, deveria ter incluído na análise o caderno especial de religião publicado pelo jornal. Enquanto que o segundo pareceu apresentar uma conclusão um pouco incoerente com a sua argumentação. Parabenizo também a biografia de Bento 16 por ter abordado, ainda que brevemente, as principais fases da trajetória do papa. Talvez pudesse ter explorado um pouco mais a divergência sobre o envolvimento ou não de Joseph Ratzinger com o nazismo. A resenha do filme sobre João Paulo II também atendeu a proposta. Só acredito que faltou falar sobre a repercussão da película dentro e fora da Igreja, bem como arriscar explicar a razão da popularidade de João Paulo II. Por fim, ficamos com os números da enquete. Alias, foi a mais expressiva até aqui. Tivemos 72 votos, mais que o dobro registrado nas edições anteriores. Só por aqui vemos a popularidade do tema. Desses, 38,39% disseram que faltou na cobertura sobre a visita de Bento 16 um destaque maior para os seus discursos, confirmando o principal deslize identificado pelo Canal. Mas um número bem significativo, 34,72%, acha que o pecado da imprensa foi não discutir o embate entre Globo e Record. Acredito que esse interesse se deve, em parte, por essa tendenciosidade dos veículos ter ficado nítida. E outra, pela preferência de alguns por uma abordagem mais “picante” ou sensacionalista. Nossa conversa termina por aqui, mas você fica com a discussão sobre os temas que poderiam ter sido levantados na visita papal: aborto, células-tronco e clonagem. Boa leitura! Wendel Lima |
|||||||