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Polêmicas em pauta

A discussão sobre as células-tronco, clonagem e aborto ganha cada vez mais espaço na opinião pública, mas boa parte dos brasileiros ainda não compreende o bê-á-bá da ciência. E a cobertura da mídia pode não estar colaborando para que essa realidade mude.

Cígredy Neves

Você sabe o que são células-tronco? Qual é sua posição sobre a clonagem de seres vivos? Você é a favor ou contra o aborto? Se você encontrou dificuldades para responder a algumas dessas perguntas, saiba que não está sozinho. Boa parte dos brasileiros não compreende exatamente o que esses termos científicos significam e muito menos quais as mudanças que podem provocar na sociedade. Entre outros responsáveis, cabe a imprensa transformar essa realidade.

Além de informar a população sobre as polêmicas da ciência, a imprensa deve também interpretá-las e contextualizá-las a uma sociedade cuja maioria padece de uma formação deficiente em ciências físicas e naturais. O jornalismo científico, ou jornalismo sobre ciência e tecnologia, tem a responsabilidade de inserir todo e qualquer cidadão na fronteira do conhecimento científico por meio de uma linguagem simples e popular.

Diante desse contexto, a imprensa precisa transformar discussões “cabeludas” como as que envolvem as polêmicas das células-troncos, da clonagem e do aborto em histórias fáceis de contar – e mais ainda de se ler. Por mais complicada que seja essa tarefa. Será que a imprensa está conseguindo cumprir esse papel? Com que linguagem a mídia tem retratado esses temas?

Limites da imprensa

Professora de Bioética para a Pós-Graduação em Ciências da Saúde da Universidade de Brasília, Dirce Guilhem acredita que o jornalismo científico difunde os avanços de forma adequada, uma vez que procuram basear suas matérias em informações fornecidas por “experts” no assunto. Ela ressalta, no entanto, que é preciso considerar a existência de uma lógica de mercado no discurso da mídia. “Sob esse ponto de vida, o tema abordado deve chamar a atenção do leitor, o que implica utilização de ‘chavões' e, algumas vezes, sensacionalismo para enfrentar a concorrência”, analisa.

Além do sensacionalismo, a imprensa se depara com outra dificuldade ao cobrir ciência e tecnologia. Ainda mais quando o assunto é complexidade e envolve acaloradas discussões éticas. Quem explica isso é o jornalista Wilson Bueno, presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico. De acordo com ele, as células-tronco são um bom exemplo de como uma polêmica científica é retratada pela imprensa. Por ser um tema intrincado e complexo, os jornalistas acabam por basear suas matérias quase que somente nas consultas a cientistas. “E como grande parte da comunidade científica é favorável ao uso desse método, as matérias geralmente são discutidas no âmbito científico apenas”, avalia. Ele explica que, dessa forma, o debate fica por conta dos especialistas, sem participação ativa da sociedade.

Ainda segundo Bueno, quando o assunto é aborto, a situação é mais equilibrada. Além de cientistas, é freqüente a presença da sociedade e das denominações religiosas como fontes das matérias. A presença da religião e dos cidadãos nesse debate é maior por causa da compreensão que se tem do aborto – nessa polêmica, a questão sobre a vida é clara. Para haver um aborto é preciso considerar a morte do feto, algo que geralmente causa indignação em parcela da população e em boa parte das instituições religiosas.

A opinião do padre Pedro Rodrigues de Bastos, da Paróquia Nossa Senhora da Paz, em Piçarras, SC, é um bom exemplo de como a religião se posiciona nesse debate. “Aborto não é uma defesa à vida. Mas se há riscos para a mãe, a igreja dá a possibilidade de a mãe optar pelo que deseja fazer”, explica. Mas quando se trata de células-tronco, os limites entre vida e morte não estão bem definidos. A opinião do padre, assim como a intensa participação da comunida científica como fonte, ilustra a hipótese de Bueno. “É por isso que o aborto não é uma questão resolvida pela imprensa. Já as células-tronco eu diria que é”, salienta.

Críticas dos cientistas

Mesmo sendo presença majoritária na hora de consulta para as matérias, há cientistas que não estão satisfeitos com a cobertura da mídia. O doutor em Zootecnia, Ademir de Moraes Ferreira, que trabalhou durante 30 anos na Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), critica a falta de imparcialidade dos meios de comunicação. Para ele, quando há polêmica na ciência, “o cidadão precisa ter conhecimento de duas opiniões divergentes”, afirma.

Para a professora Dirce Guilhem, que também atua como consultora de ética na pesquisa junto ao Ministério da Saúde, algumas observações devem ser feitas para a melhoria da abordagem dos jornais e revistas. A primeira delas é apresentar as diferentes vertentes (teóricas, científicas, ideológicas, socais, de saúde) relacionadas ao tema. Ela explica que se deve focalizar também o debate das divergências, buscando encontrar alternativas que priorizem o respeito aos direitos humanos e a dignidade das pessoas envolvidas. E por último, é preciso apresentar avanços e limitações das pesquisas que estão sendo realizadas e não difundir falsas expectativas para os possíveis beneficiários dos estudos divulgados, no caso das células-tronco e da clonagem.

Educação deficiente

No entanto, em meio a tantas críticas, a cobertura da imprensa também tem sua defesa: a educação científica precária da maior parte dos brasileiros. Sem saber os fundamentos da biologia que deveriam ser (bem) ensinados no ensino fundamental e médio, é missão quase impossível do cidadão comum compreender a reprodução que a mídia faz de debates sobre as complexas polêmicas envolvendo a clonagem, o aborto e as células-tronco.

Esse problema se agrava ainda mais pelo fato da imprensa - principalmente jornais, rádio e TV - geralmente não ter espaço e muito menos tempo para retomar conceitos básicos da informação. Assim, sem saber o que são células-tronco ou sem entender o que é a clonagem, é que o leitor-ouvinte-telespectador se vira com as informações que recebe.

Wilson Bueno concorda que o problema de desinformação nem sempre ocorre devido à ineficiência da imprensa. “É uma deficiência da educação formal que não permite que as pessoas tenham condições de entender os temas da ciência com facilidade”, analisa.

Cabe aos jornalistas aperfeiçoarem a cobertura sobre a ciência e tecnologia defendendo a imparcialidade, dando voz a todos os setores que podem contribuir para os debates científicos e retratá-los em linguagem popular e descomplicada. Dessa forma ela estará contribuindo para suprir a necessidade criada pela educação do país. Só assim a mídia poderá sonhar com dias melhores.