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...toda criança tivesse um laptop?

Tales Tomaz

- Mãêê!!! Olha só o que eu ganhei!!! – Marquinhos entrou correndo em casa. Na sua mão estava um objeto colorido, em formato de maleta – Olha só, mãe!

- O que é isso, meu filho?

- É um computador! Um computador, mãe! Eu ganhei um computador!

Dona Cleuza, sempre comedida, respirou um pouco antes de começar o interrogatório.

- Tudo bem, Marquinhos. Fica calmo, vem aqui e fala com a mamãe. Que história é essa de computador? De quem você pegou isso?

- Eu não peguei de ninguém. A professora me deu o computador.

- Marquinhos, que história é essa? Quem dá computador aqui nesse País!? Você quer fazer o favor de me contar a verdade?

- Mãe, é verdade! O Paulinho também ganhou um, o Juninho também, todo mundo!

- Espera aí que eu vou ligar para a Joelma – Cleuza pensou que iria desmascarar o filho ao falar com a mãe do Juninho – Alô, Joelma! Tudo bom? O Juninho teve alguma novidade da escola hoje? Ah, tá. Tudo bem. Tudo bem. Até mais, Joelma! O Juninho ainda não chegou em casa. Não dá para saber se você está falando a verdade, Marquinhos!

A surpresa da mãe era compreensível. Sua família jamais teve acesso a computador – e, na verdade, aquilo era um laptop. Ela mal sabia o que era internet. Os quatro filhos estudavam em escola pública, pois não tinham condições de freqüentar escolas particulares. Como poderia ser que o filho recebesse um computador de graça na escola?

Passadas algumas horas, as mães já haviam conversado pelo telefone e descobriram que as "histórias" das crianças eram verdadeiras. Os filhos pareciam deslumbrados diante da novidade. Só que não sabiam muito bem como usar. Após algumas horas de euforia, Marquinhos largou o laptop no sofá e foi brincar com seu carrinho.

- Marquinhos, o computador está jogado em cima do sofá! Vai pegar e guardar.

- Já vou, mãe! – respondeu Marquinhos, enquanto continuava brincando com o carrinho.

Alguns dias depois, as crianças já ensaiavam algumas aventuras pela internet. Os pais olhavam atentos cada pesquisa que os filhos tinham de fazer para a escola. Mesmo que com dificuldade, Marquinhos estava melhorando nas suas tarefas. Ele até ajudava a professora a corrigir os exercícios, já que ela não fazia idéia de como mexer no laptop e tinha medo de tentar.

Marquinhos rapidamente pegou o jeito. As pesquisas do garoto ficavam melhores. Além disso, ele começou a descobrir outras utilidades da internet. Descobriu os chats e o Orkut e passou a fazer parte de uma comunidade virtual. Logo Marquinhos tinha dificuldade em deixar o Orkut para fazer as tarefas. Com alguma insistência da mãe, que logo descobrira o significado da telinha azul cheia de fotos, ele fechava o site de relacionamentos e ia fazer os trabalhos escolares. Concluídos, a mãe os revisava e então liberava Marquinhos para voltar à telinha azul.

A necessidade de teclar mais rápido acabou fazendo com que Marquinhos, que já não era muito bom em Português, desenvolvesse a linguagem abreviada da Internet. Logo os trabalhos dele vieram com algumas anotações como "Não é 'ksa'; é casa. E também não é 'vc'; é você" e alguns décimos a menos na nota. Nada que prejudicasse muito o desempenho escolar.

Apesar das dificuldades e de alguns reveses, parecia que o laptop estava trazendo avanços para Marquinhos e sua família. As notas melhoraram, e a atenção para as matérias que a professora oferecia, aumentou. Além disso, Marquinhos conheceu, graças ao Orkut , gente de todo lugar do Brasil. E até um amiguinho de Portugal! O pai incentivava. Nunca teve a oportunidade de estudar e tinha pouquíssimas condições financeiras. Ele nunca poderia viajar para outros lugares do País, ainda mais conhecer alguém de Portugal. Ele sabia também que nunca poderia dar ao filho um computador.

Parecia que tudo ia bem, até que, em um belo dia, algo de ruim aconteceu. Marquinhos chegou chorando em casa.

- O que foi, meu filho? – perguntou Dona Cleuza, toda preocupada.

- Um menino roubou o meu computador quando eu voltava pra casa!

É... parece que Dona Cleuza tinha razão. Quem dá computador de graça nesse País?