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Jornalismo Cultural e crítica anêmica  

Ivo Lucchesi *

O Brasil, há décadas, padece de mal crônico. Habituado, em tempos de censura, a um recolhimento compulsório, o país que emergiu da redemocratização, no tocante principalmente ao sistema midiático (impresso e eletrônico), parece haver optado por um perfil discreto no qual a ênfase na cobertura de episódios suplantou (e até asfixiou) abordagens contextuais. De um modo geral, o modelo jornalístico vigente, desde então, foi adquirindo um formato crescentemente visual, em prejuízo da prioridade textual. O formato, mais afeito a apelos de caráter sensorial, minimizou o investimento na provocação cerebral e intelectiva dos leitores. A partir daí, firmou-se uma espécie de pacto entre as partes (codificadores e público receptor), de modo a estabelecer-se um círculo tão vicioso quanto viciado. Numa avaliação sumária, pode-se concluir que a preocupação com o crescimento (ou não) do PIB superou, em muito, a atenção quanto às deformações geradas pelo encolhimento do cérebro. 

Praticamente, todas as seções que compõem as distintas temáticas de um jornal sofreram rebaixamento acentuado. Todavia, uma sobressai pela metamorfose radical: refiro-me especialmente à área temática dedicada ao “jornalismo cultural”. Nesta, o grau de rebaixamento presente nas demais se viu, de maneira aviltante, substituída pelo “banimento”. Os “segundos cadernos”, exceção feita a encartes semanais, a exemplo do “Mais!” (edição dominical da “Folha de S. Paulo” e raros similares), tornaram-se meros espaços de exposição de “produtos” disponíveis no mercado, ou seja, balcão de ofertas para compra e venda de livros, shows, CDs e congêneres. 

O espaço jornalístico no qual eticamente estaria reservado para a prática de um pensamento de maior densidade se torna objeto de apropriação indébita e falsificada, em favor da divulgação desse ou daquele evento ou produto. Quem ocupa, no jornalismo brasileiro, o lugar para a crítica literária? Para a crítica de cinema, de teatro, de música, quem são? Alguém, em sã consciência, pode apresentar-se com as credenciais de “crítico”, valendo-se de recursos de codificação reduzidos a “estrelinhas” e a “bonequinhos” que dormem ou aplaudem? Se escolhido fosse para exercer a função “crítica” à imagem desse formato, estaria soterrado pela vergonha. O espelho seria meu pior algoz. Contudo, não é esse o quadro. 

Sem rodeios, impera, no Brasil, uma prática de estelionato intelectual, em nome do qual se oferta ao público “caderno cultural” cuja adjetivação é negada pela substância inconsistente e fraudulenta das matérias. Tudo não passa de “guia de eventos”, com fins promocionais. Em síntese, a publicidade se apoderou de todos os campos geradores de notícia e informação.  

Na lógica da “mente publicitária”, o que tem primazia é o potencial de “venda” do produto. A serviço, pois, de tal estratégia, é “salutar” que, na outra ponta, esteja um comprador “infantilizado” e “motivado” (ou excitado), pronto para cair na armadilha programada. Ignácio Ramonet, editor do jornal francês “Le Monde Diplomatique” , não está equivocado quando, no texto “O poder midiático”, presente na coletânea de “Por uma outra comunicação” (Record, 2003), organizada por Dênis de Moraes, aponta três principais aspectos para a caracterização do que nomeia “discurso infantilizante” em vigência no modelo midiático: a) “a rapidez para evitar o tédio” ; b) “a simplicidade” ; c) “a dramatização” . Ainda, segundo Ramonet, as três convergem para produzir, no receptor, “emocionalidade” , seja no riso (o humor da publicidade), seja na lágrima (a exploração de tragédias do cotidiano), próprio do estado subjetivo “infantil”. Enfim, as proposições aqui sugeridas remetem à questão de fundo que envolve a relação entre “democracia” e “cultura”, do que resulta, então, o padrão de “jornalismo cultural”.   

Democracia e jornalismo cultural  

O exercício da crítica implica a obrigatoriedade de um olhar em estado de vigília, mediante o qual, fiel ao distanciamento e imbuído de propósito desapaixonado, o crítico possa, no limite de sua isenção, apreender os aspectos essenciais existentes no objeto selecionado, a fim de dar-lhes visibilidade e repassá-los a um receptor. Nesse sentido, a crítica é a ponte de mediação entre a identidade do objeto e o perfil societário e cultural do público. Para o crítico, portanto, não resta outra vivência que não seja a de um ofício absolutamente solitário mas fundamentalmente solidário, seja com a existência do objeto, seja com o compromisso em ampliar a taxa de massa crítica do público. Inegavelmente, há, na atuação da crítica, o constante pacto com uma situação de “conflito”. Aí se chega ao ponto maior da questão: a relação indissociável entre crítica e democracia. Sob esse ângulo, a crítica produz, ao menos, um discurso incômodo e tensionado.  

Enganamo-nos quando, com a intenção de protegermos a democracia, fixamos tão-somente a defesa no princípio da “liberdade de expressão” . A rigor, o que, de modo efetivo, assegura, fortalece e amplia os horizontes democráticos é a capacidade de o corpo societário exercer a função crítica. Para esta, faz-se indispensável a “liberdade de pensamento” . Se esta for de baixa freqüência, haverá fortes razões para suspeitarmos da experiência democrática. Obviamente, a breve reflexão proposta já está afirmando que a atividade jornalística dominante no Brasil não tem muita familiaridade com uma prática verdadeiramente democrática, embora a democracia seja o único regime capaz de engrandecer a nobre missão de informar. Trata-se apenas de mais um dos muitos paradoxos tropicais. 

O “jornalismo cultural”, ao lado da cobertura política, seria o campo propício à expansão do pensar crítico, já que o sentido profundo de democracia deriva de padrão cultural qualificado. Se, todavia, na contrapartida do exercício democrático, encontra-se padrão cultural rebaixado (ou frágil), o resultado é um quadro societário que, facilmente, confunde democracia com desregramento e falta de limite. É a porta aberta para relações degradadas em todos os níveis. Instala-se uma rede de contaminação na qual todos os suportes que sustentam a vida societária (escola, família, partidos políticos, agremiações esportivas, relações interpessoais etc) sofrem o efeito degenerativo. 

Na condição de mediador entre “produto cultural” e público, o campo jornalístico (impresso e eletrônico), destinado a noticiar a cultura é a instância maior na geração de parâmetros qualitativos. Na ausência desse código de referências, o público tende a perder a noção do que é “cultura”. A menor crítica, verifica-se a reação em nome do “preconceito”, ou seja, passa por “preconceito” o que, a rigor, é “avaliação conceitual”. Dá-se embaralhamento generalizado que, somado a aumento de poder aquisitivo, finda por assegurar “sucesso” (de venda e/ou de audiência) a ampla gama de subprodutos, além de eclipsar aqueles portadores de densidade cultural. A realidade brasileira atravessa grave estágio de esgarçamento cujas proporções ainda não atingiram o patamar máximo. Há tempo ainda para correções de rumo. Temo, porém, que não esteja, no horizonte dos meios de comunicação, o reconhecimento quanto a reavaliações. Ao que parece, todos se sentem bem na mera reprodução do que fazem. A questão é saber se, ao acordarem, haverá tempo útil para as metamorfoses. 

* Ensaísta, doutor em Teoria Literária pela UFRJ, professor titular do curso de Comunicação das Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA – RJ) e articulista-colaborador do Observatório da Imprensa ( on-line ).