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Para além do laboratório

 

O semestre foi marcado por pautas quentes, como crise aérea e aquecimento global, sem deixar de lado as temáticas mais polêmicas, como a cobertura da visita papal, geopolítica americana e questões bioéticas. Mais do que melindrosa, a pauta sobre clonagem, aborto e células-tronco exige um conhecimento científico um pouco além do convencional. Essa deficiência pode ser percebida em boa parte da nossa população, em alguns setores da imprensa e também nos textos dos nossos articulistas. Aliás, creio que esse é um ponto que deveríamos ter abordado em nossa edição: até que ponto a formação científica geral ou específica do jornalista compromete a cobertura da imprensa sobre as questões bioéticas?

É verdade que a mídia não vai resolver a deficiência educacional estrutural do nosso país, mas pode dar a sua contribuição, a começar pela especialização dos nossos profissionais para que façam pautas que alfabetizem a nossa população. Por isso, classifico a última edição, de modo geral, como razoável. Começo pela reportagem. Apresentou boas fontes, como é próprio da nossa articulista. Outro ponto importante, que tornou bem didático, foi explorar nas fotos as três questões polêmicas com legendas explicativas. Senti falta de entrevistarmos representantes do governo, sociedade e outros líderes religiosos. Poderia ter dado um panorama nos veículos, especialmente impressos, para ver qual tem sido a incidência desses temas polêmicos e de outros nas editorias de ciência. A qualificação profissional do jornalista também tem impacto na qualidade dessa cobertura? Como as especializações em jornalismo científico têm contribuído com isso? Quais são as atribuições da ABJC, liderada pelo Wilson Bueno? São algumas questões que mereciam respostas.

Tirando o título “Debate polêmico” da capa, que ficou um pouco aquém pela obviedade, as entrevistas foram de alto nível. Dois especialistas, um pelo lado da ciência e outro pelo da religião. Na entrevista “Esperança congelada”, sinto que faltou apenas discorrer um pouco mais sobre as diferenças entre clonagem terapêutica e reprodutiva. Já a “Política de avestruz” trouxe a tona questões importantes como a tendenciosidade da imprensa em temas polêmicos ligados à ciência, além da “febre” de publicações de pesquisas científicas que prometem milagres científicos. Para o entrevistado, as descobertas consistentes são mais morosas.

Chamo a atenção ainda para o artigo “Show de histórias”, que qualificou a abordagem da grande imprensa como superficial, mas que se esqueceu de conferir o que a mídia especializada disse sobre o tema, se essa cometeu o mesmo pecado. A matéria “Ninguém sabe do que fala” foi muito descritiva, e praticamente se baseou apenas nas notícias do site Último Segundo . Poderia ter abordado aspectos como: as divergências entre as principais religiões quanto às questões bioéticas; explorar como a visão religiosa de alguns cientistas influencia o posicionamento dos mesmos; verificar se o lobby da Igreja Católica contra leis ligadas às questões bioéticas teve sucesso em outros países, especialmente europeus. A matéria “Vida melhor” também deixou a desejar por ter fugido da pauta, já que se prendeu mais ao embate entre religião e ciência; ficou apenas descrevendo as inserções do tema na imprensa; não tratou da utilidade ou não de um plebiscito e, do impacto da abordagem midiática sobre a opinião pública.

Por outro lado, destaco positivamente a matéria “Viés bem definido”, pela riqueza de citações e pesquisa. A biografia “Mulher maravilha” também foi feliz ao identificar o pioneirismo e militância da pesquisadora Mayana Zatz. A resenha “Assassino de clones: algum problema?” também foi ao ponto sobre em que momentos a película A ilha aborda e foge da discussão sobre bioética.

Por fim, vale destacar a enquete, que parece estar se popularizando após a edição sobre a visita de Bento 16. Recebemos nas últimas duas semanas, 36 votos, dos quais 44,44% disseram que falta à imprensa ouvir mais a sociedade quanto às polêmicas bioéticas. Isso aponta para uma democratização do debate, algo que constatamos em nossos artigos. Esses votos parecem indicar que a discussão precisa deixar os recônditos das universidades e laboratórios para permear o imaginário da população e suas conversas diárias. A segunda opção mais votada, com 36,11%, foi para que a imprensa dê mais espaço para que os líderes religiosos opinem sobre a questão. Vejo esse comportamento como um reflexo da recente visita e discursos papais ou como uma expectativa natural, de uma parte dos nossos usuários, que deve ser religiosa praticante.

Como você sabe, a nossa coluna só volta em agosto, após um merecido descanso. Mas nada impede que você continue a acessar o Canal ou mesmo enviar sugestões para o nosso e-mail. Estarei de plantão.

Até agosto!

Wendel Lima
ombudsman@unasp.edu.br