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Pai dos populares

Leonardo Siqueira

Ovelhas de duas cabeças, bebê-diabo, mulher-macho, loira-fantasma. Ninguém se incomodaria em brincar com essas histórias em um ambiente de Redação. Mas se o conteúdo da informação bizarra é motivo de piada para repórteres e editores, certamente o Notícias Populares seria o ambiente preferido desses jornalistas.

Em maio de 1975 o NP publicou a história de um bebê de São Bernardo do Campo que teria nascido com chifres e rabo. O jornal inventou uma saga para a criança e segurou a fraude por um período de 27 dias. Muitos leitores ligavam para a redação a fim de informar o paradeiro do “diabinho”, outros diziam que o tinham visto. Resultado: depois de um mês de sucesso comercial e fracasso moral, a Redação decidiu mandá-lo de volta para o inferno. Assim, o bebê-diabo desapareceu das páginas do veículo.

Mas quem viu o tablóide nascer, jamais imaginaria o sucesso que ele faria com suas mirabolantes histórias. Ele surgiu em outubro de 1963, fundado pelo jornalista romeno Jean Mellé e o dono da Gazeta Mercantil, Herbert Levy. Mellé ficou preso durante dez anos na Sibéria por ordens de Joseph Stalin, trabalhando nas minas de carvão. Ao ser liberado, desembarcou no Brasil em 1959 sem falar uma palavra em português. Ainda assim, encontrou um amigo romeno que vivia no País e arranjou uma vaga no Última Hora, de Samuel Weiner.

A finalidade do NP era apenas política: um vespertino em oposição ao comunismo. O UH, principal oponente, já iniciara uma jornada pelo mundo dos leitores populares. O seu engajamento político, o apelo ao denuncismo e o espaço reservado para debater a agenda política conferiram ao jornal um discurso político e feição populistas muito fortes.

Sônia Bezerra, citada por Carla Siqueira, em seu último trabalho sobre o UH revela: “o jornal procurava se mostrar não só como uma voz, mas como instrumento efetivo de conquistas sociais” (O jornal Última Hora nas eleições de 1955 – um Estado-Maior intelectual). O veículo chegou a montar uma “tendinha de reclamações” junto aos leitores. Depois de um tempo o periódico acabou adotando uma linha mais sensacionalista. Mas o próprio editor do UH, Samuel Wainer, confessou certa aversão pela editoria de polícia. Contudo, essa mudança tardia não foi suficiente para deter o crescimento do NP.

E o que o tornou famoso foram as saídas “criativas” e nem um pouco éticas de simular falsas matérias e estimular a venda de exemplares por meio delas. Em 1968 Mellé inventou que o astro Roberto Carlos havia desaparecido de Nova Iorque. Um diretor da TV Record tentou contatar o rei, mas sem nenhum resultado. Mellé recebeu essa informação e soltou a manchete: “Desapareceu Roberto Carlos”. No dia seguinte, centenas de pessoas cercaram a redação em busca de notícias sobre o ídolo. No dia seguinte, Mellé publicou: “Acharam Roberto Carlos”. As duas matérias venderam 40 mil exemplares a mais por causa das manchetes.

O método de Mellé consistia em escrever uma porção de títulos e ler para os office-boys da redação. Aquelas que mais agradassem os garotos eram escolhidas. Na década de 80, o tablóide chegava a vender mais de 200 mil exemplares.

Ousadia e fracasso

“San Chupança”, “Dona Celu Lite”, “limpando língua com Bombril”, “Frete pro céu” (morte de um caminhoneiro), “Queijo suíço” (um indivíduo é morto com trinta perfurações de bala), dentre outros títulos, marcaram a política editorial do NP, fundamentada no sensacionalismo, apelo erótico e causas sindicais. Em 1984, por exemplo, o NP esperava que o então presidente Tancredo Neves escapasse da morte, mas ao contrário do que eles esperavam, Tancredo morreu. Com o falecido presidente já no IML, o NP estampou na capa: “Médico quer Tancredo mais gelado” em alusão a tentativa de controlar a hipotermia dele enquanto vivia.

A partir da década de 90 o NP foi um pouco mais longe a ponto de publicar títulos como: “Aumento de merda na poupança”, “Broxa torra pênis na tomada” e “Churrasco de vagina no rodízio do sexo”.

Foi após o lançamento do Agora, em 1999, do grupo Folha, que também dirigia o NP, que o periódico começa a perder prestígio. Além disso, uma série de cortes na verba do veículo dificultava a edição jornalística. A partir de então, os esforços foram concentrados na produção de um jornalismo popular focado apenas no “Agora São Paulo”. O NP parou de circular em janeiro de 2001.

Herança

Os jornais populares de hoje deixaram essa linha anedótica e agressiva há muito tempo. Mas o apelo sensual, a notícia bizarra e o assistencialismo são características fortes dos veículos de apelo popular. No entanto, isso não quer dizer que o jornal deverá focar a pauta conforme o interesse do público, mas do interesse público. Uma coisa é o “mundo da vida humana”, aquilo que nos cerca. Outra é o “mundo do leitor”, seus hábitos e modo de enxergar as coisas.

O jornalismo popular para ser inédito, precisa, antes de tudo, deixar de ver o mundo do leitor e enxergar uma leitura do mundo. Para não ficar tateando no escuro, ou reivindicar o seu legado.