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Do jeito que o povo gosta |
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| Leonardo Siqueira |
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Um levantamento feito pelo Instituto Verificador de Circulação (IVC) entre janeiro e novembro de 2006, publicado na edição do dia 5 de fevereiro de 2007 do jornal Meio e Mensagem, revelou um aumento de 6,19% da circulação de jornais em relação a 2005. Segundo dados do IVC, o crescimento dos populares é o principal propulsor do aumento da circulação de títulos no País. A situação é curiosa. O popular Extra, do Rio de Janeiro, detém a terceira posição no ranking dos jornais mais vendidos, à frente de periódicos de tradição como O Estado de S.Paulo e Zero Hora. O Diário Gaúcho aparece em sétimo e é o segundo entre os populares de maior circulação. Mas a receita dos chamados light paper's vai além de um texto chamativo ou apelo sensual, estereótipos do jornalismo “espreme que sai sangue” - geralmente associado às publicações de apelo popular. No caso do Diário Gaúcho, objeto da presente análise, a participação do público e o preço acessível (em média 0,50 a 0,75 centavos) justificam um expressivo número de leitores e posiciona o jornal como líder de mercado no segmento dos populares em Porto Alegre e na região sul do País. Em apenas sete anos, o DG abocanhou cerca de um milhão e meio de leitores e superou a liderança histórica do Rio de Janeiro, uma das capitais com maior índice de leitura de jornais em todo o Brasil. Quais os elementos discursivos de legitimação da fala popular no Diário Gaúcho? De que maneira a participação do leitor reflete o conteúdo produzido pelo jornal? Um periódico para ser popular precisa apelar ao sexo e à informação bizarra? É o que este artigo pretende analisar. Para tanto, foram avaliadas quatorze edições do jornal entre os dias 16 e 23 de agosto e 28 de agosto a 4 de setembro. Jornalismo e entretenimento O ex-editor-chefe e atual diretor da Rede Gaúcha, Cyro Martins, destacou alguns elementos da política editorial do DG em entrevista concedida ao programa Argumentos da TV PUC, em 2000. Segundo ele, o leitor potencial do jornal é conservador. “O DG jamais publicará páginas de sangue, aberrações, linguajar chulo e nudez ginecológica”, afirmou. Será? O apelo sensual ganha destaque em boa parte das edições. “Sheron ‘duas caras'” (16/08/2007), “Gêmea má às turras com a boa” (17/08/2007), “Uma pecadora em alta” (18/08/2007), Camila é um brinco (28/08/2007), “Encha os olhos de paz” (03/09/2007), para não citar todas as capas analisadas. Na editoria “Retratos da fama”, por exemplo, há espaço para fofocas e detalhes da vida de celebridades. Em alguns casos, a legenda de algumas fotos é bastante sugestiva: “Nas curvas de Bárbara, o Véio vai estacionar...” (03/09/2007), “O Véio pode ser terapeuta, massagista, médico do coração... Tua Samu... Esse corpinho não nasceu para sofrer” e “Quem mandou ser gostosa?” (04/08/2007). É bem verdade que os atuais populares adotaram uma política editorial menos agressiva e sensacionalista em comparação às décadas de 50 e 90. Mas a espetacularização da notícia, o apelo sensual e as editorias de entretenimento ainda ajudam a vender uma porção de exemplares. Se não vendem, ao menos, estimulam e divertem o público. Afinal, uma importante parcela da classe B, C e D encontra no jornal, nas palavras cruzadas, na informação bizarra ou realização do sonho de um leitor o lenitivo para a dura rotina de trabalho. Da condução apertada, do “cafezinho” frio na rodoviária. Uma coisa é divertir o leitor, humanizar a notícia, tendo em vista a tendência do jornalismo na era do entretenimento. Mas apelar para o sexo, mesmo de forma sutil, é um grave erro. Ou não. Para o meio impresso, pode ser uma opção lucrativa a fim de conter a perda de anunciantes e leitores. O leitor como fonte Na imprensa popular a esfera do oficialismo é restrita, exclusivamente, a explicação de um problema que atrapalha a comunidade. Ao contrário dos jornais tradicionais ou de referência, o especialista é apenas uma fonte secundária. O cidadão comum participa da discussão de políticas de administração pública, sugere alterações na aplicação dos recursos federais, reivindica melhorias no transporte público, saneamento básico. Enfim, a ótica do problema é vista de baixo para cima. O líder comunitário, o dono do barzinho e o vendedor ambulante dificilmente são entrevistados pelos jornais de referência. Nos periódicos de fala popular, porém, o público das camadas mais baixas da sociedade tem vez. Mas ela se dá em um ambiente de dominação, conforme pontua a jornalista e doutora em Comunicação Márcia Franz Amaral: “Numa análise mais detalhada, percebemos que permanecem as relações de dominação, e a fala do leitor é performática, não inaugura práticas novas de jornalismo popular. Ao contrário, fideliza os leitores a formas de entretenimento travestidas de jornalismo em que as side stories importam tanto a ponto de apagar o que ocorre nos bastidores onde muito se decide. O lugar de fala do leitor no texto inclui a projeção de sua localização no espaço das diferenças sociais.” (AMARAL, Márcia Franz. A fala popular e a realização do jornalismo). O perigo dessa verticalização da fala, da ponta inferior para o topo, é atraente, mas revela suas debilidades. Um problema da população local pode ser confundido com o dilema de um leitor. E esse dilema nem sempre apresenta uma real necessidade do grupo que o leitor representa. A linha parece mais tênue na medida em que a fonte comum, ao invés de esclarecer ou solucionar o problema, retira o acontecimento de sua esfera social e a limita ao acontecimento, a notícia anômala, a sua cosmovisão de mundo. As matérias “INSS não alivia nem operada” ( 17/08/2007 ), “Éramos seis, agora somos nove” ( 28/08/2007 ) reforçam essa idéia. Talvez esta postura revele um recurso estético, de mercado, haja vista a demanda que esse público requer: histórias humanizadas, a fala do próprio leitor como atribuição de status perante a sociedade em que vive , ou de uma participação política. O perigo está em perverter alguns elementos básicos do jornalismo como relevância e proximidade e trocá-los pelo espetáculo, lucro, entretenimento. E é aí que o jornalismo não se deixa realizar completamente. Quer dizer, até que ponto a participação do público e a demanda de um mercado específico influenciam a cobertura jornalística de um veículo de comunicação? Difícil responder. Assistencialismo Além da verticalização da fala popular, a interação com o público não privilegia temas de repercussão nacional. Quando a agenda do Congresso é mencionada a abordagem gira em torno de escândalos, denúncias de corrupção ou movimentos cívicos que envolvam grandes capitais ou mesmo a própria Porto Alegre. Das capas analisadas apenas uma tratou da política a partir de Brasília: “José Dirceu vira réu”. Na mesma capa, o colunista apresenta a seguinte chamada: “Macedo e governo Lula” ( 28/08/2007 ). E mesmo a cobertura da política regional não oportuniza o poder de fala aos representantes do Estado. A fala deles, porém, fica restrita em segundo plano. O assistencialismo e a prestação de serviços são características fortes do DG. Contudo, o serviço que o periódico presta à comunidade pode servir, inclusive, para promover o próprio jornal – já que a fala política é ausente. Assim, o jornal se firma como mediador da relação política: e essa interação tem apenas uma via. Ou seja, o leitor é informado dos abusos e descasos dos governantes, mas a explicação e a interação do Estado com o cidadão é restrita a um espaço pequeno, quase insignificante. O assistencialismo é freqüentemente utilizado nas edições de aniversário do jornal, segundo constatou Amaral (2004). “Um ano junto dos leitores”, “Vidas que o Diário modificou” (17/04/2001). No segundo ano, as chamadas “Vidas que ficaram melhor”, “Compromisso com a comunidade: o Diário não esqueceu destes e de outros casos” e “Os problemas eram nossos. E, juntos, buscamos a solução” (17/04/2002) legitimam o discurso de dominação e assistencialismo. As vidas transformadas pelo jornal também são destaques nos aniversários de três e quatro anos: “No nosso aniversário uma homenagem aos leitores: 3 anos!”, “Desaparecidos: Diário aliviou drama de 52 famílias este ano” (17/04/2003) e “E neste domingo...a festa é sua, a festa é nossa, é de quem vier!” e “Quatro anos: muito obrigado, leitores!” no aniversário de quatro anos (18/04/2004). Agenda pública O DG constrói um discurso focado na cidadania e agenda pública da capital gaúcha. A maior parte das pautas gira em torno da gestão municipal e problemas da população local. As chamadas remetem à fiscalização de obras da prefeitura, sistema municipal de saúde, transportes e segurança. Na capa do dia 16 de agosto o jornal trata, dentre outros temas, da fiscalização das áreas de risco e a falta de pessoal para suprir a inspeção dos locais com perigo de desabamento. Para tanto, usa o título “Muito trabalho, pouco fiscal”. Na capa do dia seguinte, segue matéria no rodapé sobre o transporte público e a preservação de pontos de ônibus da capital: “Paradas de Assis Brasil na miséria”. Mesmo assuntos de repercussão internacional, geralmente esquecidos pela imprensa popular, ganham destaque: “Terremoto no Peru mata mais 500” (17/08/2007). E os populares, são, sem dúvida alguma, uma importante ferramenta para a ação social. Refletem o interesse da comunidade por assuntos que, normalmente, não receberiam a atenção dos jornais tradicionais. A razão é simples: o buraco na rua, a falta de encanamento na vila do morro e a precariedade de atendimento no postinho não chamam a atenção da imprensa grande, muito menos a fala do cidadão comum. Contudo, a ausência da fonte primária, o apelo sensual e o assistencialimo barato estão longe de inaugurar uma nova prática de jornalismo popular. Mas o Diário tateia em direção ao rumo certo: o da desmistificação do jornalismo popular calcado no sangue e sexo e o incentivo do agendamento social. |
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