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"Geração pontocom"

 

Após as longas, mas merecidas férias, o Canal está de volta. Na edição que encerrou o último semestre, a redação se propôs a tratar de um tema contemporâneo e que se mostra ainda uma incógnita em termos de suas implicações: a cibercultura. O tópico chama a atenção de todos, por se tratar do próprio contexto em que muitos articulistas nasceram e aprenderam a viver, é interessante também, pois serve de reflexão sobre o ambiente em que o Canal acontece e se relaciona com os seus usuários.

Evidentemente, a edição foi marcada por pontos altos e baixos. Felizmente, os primeiros se sobrepõem aos últimos. A reportagem principal, ao contrário do que temos feito, foi apurada in loco, o que dá muito mais propriedade à matéria. No entanto, o articulista se restringiu à cidade de Paulínia, deixando de abordar outros projetos semelhantes realizados em outros lugares do Brasil. Mais um fator a destacar é a criatividade do texto aliada à linguagem adequada, que parece dialogar com o leitor.

Foi feliz na introdução, ao fazer um paralelo das sete maravilhas do mundo real com as do virtual, mas pecou em não explicar porquê Orkut, MSN e Napster, dentre outros, merecem tal título. Poderia ter discorrido que tendência, por exemplo, o Google e o Wikipédia representam. Senti também falta de uma análise maior do impacto da cibercultura na vida de pessoas até então marginalizadas digitalmente. Ademais, as fotos são boas, mas as legendas estão trocadas.

Quanto à entrevista, apesar do “peso” do entrevistado, questiono se duas perguntas com respostas curtas merecem publicação. Não caberia outro entrevistado, ainda que de menor envergadura? Já a seção “O que aconteceria se...” manteve suas idéias criativas. Nas entrelinhas das especulações do articulista, pode se perceber a dificuldade que os mais velhos têm quanto à alfabetização digital em contraste com a geração atual. O texto trabalha a idéia ainda de uma utopia em relação à democratização digital, já que no desfecho da história, o protagonista tem seu computador roubado, prova de que nem todos terão um.

Por fim, as seções de reportagens e de debates trouxeram gratas surpresas. O texto “O gênero determina a linguagem”, começa de forma muito criativa, apresenta boas fontes, com pesquisadores que tratam especificamente da temática, traz uma conclusão equilibrada, vendo a linguagem como um processo dinâmico que é adequado ou não dependendo do tipo de mídia que se usa. Quanto aos pontos a se melhorar, destaco que não levantou a questão se no desenvolvimento da língua a normatização da gramática antecede as transformações do idioma ou não. Deveria também ter verificado se as mudanças ortográficas previstas para os países de fala portuguesa preveêm alguma adequação à linguagem utilizada na internet.

O artigo “Nem hackers, tão pouco nerds”, por sua vez, também se mostra muito bom. Apresenta definição de termos, como hackers, nerds e geeks. A pauta é oportuna, pois explora um novo grupo social que é fruto da cibercultura. No entanto, a articulista não indica a fonte da qual tirou o perfil dos geeks e nem identifica o que leva alguém a se torna um desses?

Somente a matéria “O mundo é uma grande citação entre aspas”, apesar de bem escrita e de apresentar um insight interessante, não aprofundou os conceitos citados de Benjamim e Adorno e nem os aplicou à cibercultura.

Por fim, o Canal trouxe uma novidade: uma reportagem em áudio. A “Virtualização dos desejos” se deteve ao Second Life, mas o fez com propriedade. Procurou humanizar ainda que com apenas um usuário, mas de forma muito contundente, já que o entrevistado é tetraplégico. Apresenta ainda uma boa entrevista com um especialista da Umesp. No entanto, senti necessidade de um texto mais ágil, menos truncado, e de um off com mais inflexão de voz. Muito criativa a introdução da matéria com a simulação de uma conversa no MSN e da vinheta de abertura do Windows.

Termino essa coluna, com um pouco de nostalgia. Dessa vez o “até logo” será um pouco mais longo. Devido à minha sobrecarga de atividades acadêmicas e profissionais nesse semestre, estarei me afastando a partir dessa edição da função de ombudsman do Canal . Minhas “férias” são indeterminadas, mas não se preocupe, porque na próxima edição você já conhecerá o novo “titular”. Registro aqui minha gratidão pelo apoio da redação e dos leitores enquanto estive nesse posto. Sorte para os próximos e até mais!

Wendel Lima
ombudsman@unasp.edu.br