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Idade não é documento

Daniel Liidtke

Idade não é o principal quando o assunto é jornalismo. O Valor Econômico, caçula dos jornais financeiros, nasceu em 2 de maio de 2000 já buscando o comando do ramo. Hoje, em plena pré-adolescência, demonstra a maturidade não alcançada por muitos idosos: moderno, profundo tanto para a elite econômica quanto para interessados em negócios, investigativo, sem a aridez dos textos econômicos comuns. Além disto, “oferece um panorama abrangente e confiável do que ocorre na esfera produtiva, capaz de auxiliar a tomada de decisões pelos agentes econômicos”, objetivo ao qual se propôs.

O Valor Econômico é filho da parceria entre o grupo Folha e o grupo Globo , que dividem o controle acionário. O parto do jornalão custou 50 milhões e foi dirigido pelos jornalistas Celso Pinto, Vera Brandimarte e Carlos Eduardo Lins Silva. Atualmente, mais de 60 mil exemplares são vendidos diariamente, tendo 70% de leitores de classe “A” e 67% com nível superior, mestrado ou doutorado.

Logo no início, o Valor percebeu áreas ainda não exploradas por seus concorrentes, especializando-se também em política, internacional, investigação, denúncia e, principalmente, mercado financeiro. Inovou na parte gráfica, estampando fotos coloridas dentro e fora, infográficos e tabelas. Tornou-se, assim, um jornal de fácil compreensão, sem alterar a profundidade dos temas.

Reconhecimento

Já em seu primeiro aniversário, recebeu os parabéns do crítico de jornalismo Juan Antonio Giner, no artigo “Os jornais mais inovadores do mundo”, publicado no site da International Newspaper Marketing Association. O crítico americano escreveu:

“É um dos jornais mais bem desenhados do mundo: com projeto gráfico de um escritório britânico, é um jornal fácil de ser lido por pessoas muito ocupadas, elegante e bem impresso, com mais do que noticiário financeiro ‘hard'. Valor é algo realmente novo, inovador, um modelo de modernidade. Você não precisa saber português para concluir que está olhando para um dos jornais mais interessantes já publicados”.

Neste primeiro ano de vida, o Valor deu inúmeras contribuições relevantes, antecipando negócios, indicando direções e tendências políticas bem como as econômicas do Brasil. Atuou com impacto ao revelar o segredo do “recall” do Corsa da General Motors, o que derrubou o preço das ações da GM de Nova York, ao informar que a Anatel iria reformular preços e regras para o leilão de celulares e mostrar o déficit de 1 bilhão do Banco Bozano junto ao Fisco. O jornal, que pretendeu denunciar a injustiça e a corrupção, fomentou as investigações sobre o escândalo de ex-juiz Nicolau dos Santos Neto, entre tantos outros casos.

A competência do Valor gerou reconhecimentos como o Prêmio Esso de Jornalismo, que recebeu logo aos cinco meses de publicação. Foi indicado para quatro categorias e premiado em duas.

Linguagem

Como era objetivo do jornal, a linguagem é, a despeito dos números, fluente e de fácil compreensão. A maioria de seus jornalistas consegue eliminar a aridez comum a muitos jornais econômicos, como visto no lead de “Previdência sem aposentadoria”, de 29 de junho de 2007:

Esqueça a imagem do velhinho de chinelos ou pescando ao lado do neto quando pensar no futuro do investidor da previdência privada. Cada vez mais aplicadores descobrem nesses planos um meio para conquistar objetivos de qualquer tipo, e não necessariamente a aposentadoria. Benefícios fiscais e o recente ingresso de graduados gestores de investimentos nesse mercado são motivos suficientes para que qualquer aplicador que tenha uma meta para dez anos ou mais procure um Plano Gerador de Benefícios Livres (PGBL) ou, principalmente, um Vida Gerador de Benefícios Livres (VGBL).

Os quatro cadernos também são agrupados de acordo com o interesse do leitor. O primeiro reúne as editorias de Brasil, Política, Internacional, Opinião e Especial. O segundo caderno (“Valor Empresas & Tecnologia”) é formado pelas editorias de Serviços, Telecomunicações, Infra-estrutura, Indústria, Insumos, Commodities Agrícolas e Agronegócios. O terceiro (“Valor Finanças”) agrupa a editoria de Finanças, com informações sobre fundos de investimento e bolsas nacionais.

Uma forma para agradar os leitores que não estavam habituados com jornal econômico foi a criação do quarto caderno (“Eu &”). Esse caderno tornou-se uma isca para chegar a esses indivíduos a partir de seus interesses pessoais. Esse caderno é bastante prático e formado pelas editorias Eu & Meu dinheiro, Eu & Ranking de Fundos Valor, Eu & Carreira, Eu & Consumo e o Eu & Cultura.

Independência

Uma publicidade do Valor afirma: “O índice de satisfação do leitor com o Valor Econômico é de 94%, resultado da qualidade editorial e dedicação no processo de distribuição do jornal com um editorial sempre homogêneo, sério e independente”.

A independência do jornal é discutida por alguns, como Reinaldo Azevedo, que alega tendenciosidade petista em suas páginas. No artigo “Valor Econômico abre a porta para a ditadura do PT”, de 13 de setembro de 2007, no site da Veja, Azevedo pergunta e reponde: “A quem pertence o jornal Valor Econômico? Aos grupos Globo e Folha, dois dos alvos permanentes da canalha petista que quer censurar a imprensa”.

A análise de textos e seus títulos, entretanto, coloca o Valor como um dos jornais mais imparciais da grande imprensa. Veja abaixo como os jornalões manchetaram em 27 de outubro de 2005 a continuação do caso do Caso Celso Daniel após acareação, sendo que nenhuma das versões foi mudada e nenhuma das partes tida como culpada. Os títulos referem-se à chamada da capa e título do interior.

O Globo: “Versões em confronto”; “Irmãos de Celso Daniel mantêm denúncias”.

Folha de S.Paulo
: “Carvalho nega acusações de irmãos de Celso Daniel”; “Acareação não elimina dúvidas sobre crime”.

O Estado de S.Paulo: “‘Gilberto, você era o elo do esquema', acusam irmãos”; “Carvalho era elo entre quadrilha e PT, acusam irmãos de Celso Daniel”

Jornal do Brasil: “Acareação termina em empate, com acusações mútuas e poucos avanços”; “Só detector de mentiras para resolver o caso Celso Daniel”.

Valor Econômico: “Acareação deixa caso Celso Daniel longe de ser elucidado”.

Enquanto de um lado o Estadão interpreta a mensagem a partir de sua visão tucana, o Valor apresentou-se neutro e objetivo. Na época das eleições passadas, por exemplo, algumas vezes Serra foi apontado como o preferido dos empresários no Valor:

“Reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva poderia fomentar um ambiente de instabilidade política com reflexos na economia e seria o quadro menos desejável. Entre Lula e Serra, a maior parte dos consultados fica com o tucano” - 23 de janeiro de 2006.

Também não são raros os exemplos nos quais o jornal cutuca Lula:

“Ainda não decidi se sou candidato. Como vou falar sobre campanha”? Essa é uma das frases recentes do presidente Lula para fazer seu já habitual jogo de desentendido, que, evidentemente, não engana ninguém. É claro que ele é candidato. É óbvio que está em campanha. Sabe-se disso em todo o mundo. Até na China” – 26 de maio de 2006.

Assim, não é válido atribuir tendenciosidade petista ao Valor apenas por sua filiação ao grupo Folha e Globo. Quem lê Valor sabe da sua competência e aposta em suas perspectivas. Não é por acaso que o irmão mais novo se tornou o principal. Prova de que idade não é documento.