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Texto simples, informação manipulada

Meire Araújo

Poucas pessoas se interessam pela leitura de assuntos econômicos. Entendê-los então, fica apenas para a minoria. Alguns alegam que a linguagem utilizada é técnica demais e as informações são trabalhadas com muitos números, tornando a matéria ou o artigo indecifrável.

É complicado e, de fato, os conteúdos sobre economia são difíceis de ingerir. Porém, não podemos deixá-los de lado. Precisamos nos familiarizar e entender o seu processo ao nosso redor. Acompanhar o mercado financeiro nacional e mundial, a bolsa de valores, o dólar. Entender porque nos cobram juros e impostos tão altos. Saber como o governo tem aplicado o dinheiro do povo e em quê ele tem investido.

Os veículos de comunicação especializados no assunto oferecem o serviço. Várias revistas e jornais debatem e expõem as implicações que a economia está relacionada. O que anda acontecendo, o que influencia e dá certo ou errado.   Sites, agências de notícias também destrincham o conteúdo em suas editorias. O acervo é grande. Entretanto, informação não é tudo. Antes de qualquer coisa, as leituras devem ser feitas com senso crítico, selecionadas e comparadas. Lembre-se que bons leitores sabem filtrar informações.

E falando em economia, a revista Veja tem abordado exaustivamente esses assuntos. Em várias edições deste ano de 2007, o periódico se preocupou em investigar e publicar para o seu leitor tais informações. As matérias são detalhadas, possuem um texto simples e são fáceis de compreensão. Outro ponto interessante são os gráficos explicativos que a revista faz. Praticamente todas as reportagens da editoria de economia publicadas possuem um quadro ou box, que explica melhor o assunto abordado. As matérias variam de tamanho. Reportagens de capa e as grande reportagens possuem entre quatro e seis páginas. Mas normalmente, a média é de no máximo duas páginas. Afinal, precisa-se abrir espaço para publicidade e, espaço destinado para isto não falta na revista. Das 122 páginas que a edição de 7 de março apresenta, 58 são propagandas.

Todo veículo de informação divide por editorias, ou temas, os assuntos que serão abordados na determinada edição. O que acontece na revista Veja , por exemplo, é que os assuntos relacionados à editoria de economia se encontram em outras editorias. Então o que é publicado no Internacional, Brasil, Tecnologia tem relação direta ou indireta com temas econômicos. As informações são relevantes para ambos.

Na edição de 7 março, a editoria Internacional apresentou uma matéria de seis páginas e um gráfico explicativo sobre a repercussão do etanol no exterior. Na mesma edição, outra reportagem de duas páginas sobre lavagem de dinheiro saiu na editoria Brasil. Todas são exemplos de que a revista fala até demais de assuntos econômicos. O problema é a forma como ela aborda isso. Na edição de 18 de abril, a queda do dólar no mercado financeiro foi capa: “Como aproveitar o real forte”.

Imparcialidade comprometida

“Giambiagi mudou suas convicções acadêmicas conforme mudou a realidade. Veja não precisou mudá-las” (Veja, 7 de março). A revista é clara em afirmar que tem autoridade sobre os seus leitores. “O PIB mingou. Só o que cresce é o Estado (...) as estatísticas mostram que, o divisor de águas nesse processo de elefantíase estatal foi a constituição de 1988. O governo Lula não é responsável por ela.  Mas, em vez de apagar o incêndio, jogou gasolina na fogueira. Colhe agora o ‘pibinho' que semeou” (Veja, 7 de março). Aqui, deixa evidente que é contra o governo Lula.

A edição de 11 de julho compara os mercados financeiros atuais com lutadores ágeis de boxe e deixa um recado para o “governo na Lula dos Juros versus Tesouro Nacional”. “Um lutador tem de ter algo mais que sorte. Precisa manter a guarda para vencer em qualquer circunstância (...) essa foi uma resposta aos 5 bilhões de reais nos cofres do Tesouro Nacional feitos pelos investidores que passaram a cobrar 0,5% de juros mais altos, com medo de ser devedor não confiável”.

A reportagem de quatro páginas sobre o caos aéreo, da mesma edição mencionada acima, também enfatiza esta questão. Fala que se o governo continuar tratando a crise com o “relaxa e goza”, da ministra Marta Suplicy, o caos atual será só um aperitivo.

O editorial do dia 29 de agosto aborda o projeto do governo Lula: o Bolsa Família. Conta do reajuste que ele terá a partir de 2008 e as condições “mínimas diárias para subsistência” que o programa concede às famílias. Na reportagem do jornalista Giuliano Guandalini, enfatiza claramente a posição da revista. “O governo federal gasta anualmente 315 bilhões de reais. A qualidade dos serviços fica a desejar, mas os custos crescem a cada ano. Para acompanhar o aumento das despesas, o governo cobra cada vez mais impostos em reais”. “O Brasil é na verdade um dos países que mais gastam em assistência social no mundo”. “O governo poderia, por exemplo, enterrar de vez a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira, CPMF, tributo que veio para ser provisório e, como o Bolsa Família, tende a se perenizar”. Estes comentários deixam clara a intenção do veículo.

Declarações mais evidentes não precisam ser feitas para enxergamos a direção que a revista toma. Os assuntos de economia são tratados com seriedade e freqüência semanal. Entretanto, o toque de imparcialidade é muito maior. Os textos são escritos de forma simples. Os gráficos facilitam a compreensão do conteúdo, mas a informação fica à mercê de pessoas com intenções manipuladoras.