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Entre o público e o fato

Carina Bentlin

A vida material regula o processo da vida social. Assim, compreender a economia é facilitar o entendimento de todos os outros campos da sociedade. Além dos dados, cotações e transações, parecem faltar no noticiário econômico o transcender, o ir além, trazendo assim uma análise mais elaborada da notícia em questão. A Gazeta Mercantil, tradicional jornal especializado em economia do País, tenta explicar aos leitores o impacto dos fatos econômicos.

Dizer se a política editorial da Gazeta Mercantil confia ou não na economia tupiniquim se faz desnecessário. Nas últimas edições, as manchetes trazem em sua maioria ótimos resultados da economia brasileira, sinal evidente de que confia e samba na avenida, jogando confetes. Uma das manchetes, de 19 de setembro foi, “FMI elogia a economia brasileira”. Ora, um aval estadunidense, ao qual a economia mundial está atrelada e vigilante sempre, não é qualquer coisa! A notícia conta o resultado do relatório feito pela FMI sobre o País, previsão de possível alta de 4,5% no PIB (Produto Interno Bruto) este ano.

A economia brasileira está cheia de fôlego, não dá para negar. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, bradou orgulhoso no programa Voz do Brasil, na noite de 21 de setembro: “A distribuição de renda melhorou, resolvemos o problema da dívida externa, a inflação está sob controle, temos um rigoroso sistema de políticas sociais, e números positivos mostram que o poder de consumo da população aumentou”. De fato, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostra que em 2006 o País alcançou os melhores índices sociais dos últimos 10 anos. No mesmo programa, Mantega ainda acrescentou: “Foram cortados 36 bilhões de tributos, estamos diminuindo os impostos e estimulando a economia”.

A Gazeta não deixa a desejar para seu público específico: interessados em notícias de compra e venda, associações e junções de grandes empresas, por exemplo. No jornalismo especializado, o repórter leva em conta o público segmentado para o qual escreve e, por isso, não se detém a explicações detalhadas sobre os termos utilizados na área de economia e finanças. Mesmo assim, entre uma matéria lá e acolá, algumas aparecem como quem não quer nada e até trazem no título palavras familiares. Isso faz com que o leitor popular possa se interessar, como por exemplo “Inflação já compromete a renda média do trabalhador”. Nesses casos, o “economiquês” é sutil e a informação se torna mais humanizada e próxima ao cotidiano do leitor comum.

Já o jornal DCI (Diário Comércio, Indústria e Serviços), em relação à Gazeta Mercantil é de leitura mais acessível, além de fazer na maioria de suas notícias a relação com o dia-a-dia do cidadão, abordando como determinado acontecimento interferirá no cotidiano do leitor. Na matéria “ Desemprego tem o menor índice em dez anos, aponta pesquisa do IBGE”, da edição de 14 de setembro, são relatados os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2006, divulgada no mesmo dia pelo IBGE. Os resultados são explicados de forma sucinta e direta, sem muitas delongas.

Em resumo, pode-se dizer que os jornais econômicos abastecem com qualidade os barões da superestrutura econômica. Mas uma coisa é notável e preocupante: esse segmento muitas vezes se limita ao repasse de informações das transações financeiras, divulgação de pesquisas e afins. Quem lê e espera algo mais, franze a testa e se pergunta “onde está a análise, o questionamento, a interpretação mais profunda dos dados, enfim, a discussão do capitalismo?”. Talvez se faça necessário diminuir essa distância, atrelando o capital financeiro – foco oportuno - ao capital humano, social e ambiental de uma forma mais direta.