Há 10 ou 15 anos, pouca gente queria saber sobre a economia do País, muito menos sobre investimentos pessoais. Mas esse quadro mudou. Hoje é possível encontrar jornais, revistas e livros para tratar somente do assunto, o que reflete um interesse maior do brasileiro em lidar com dinheiro.
É nesse contexto que o analista de finanças pessoais, Gustavo Cerbasi, lançou os livros Dinheiro – os segredos de quem tem, Casais inteligentes enriquecem juntos e Filhos inteligentes enriquecem sozinhos, todos pela Editora Gente. Neles, Cerbasi procura transmitir educação financeira em diferentes aspectos. Nesta entrevista, concedida por telefone ao Canal da Imprensa, ele fala sobre a quantidade e a qualidade do volume de informação disponível para quem quer aprender sobre economia e finanças. Menciona também o fortalecimento da economia brasileira, que resiste à crise internacional de crédito desencadeada nos Estados Unidos.
Além de autor dos livros, Gustavo Cerbasi é mestre em Administração / Finanças pela FEA/USP, formado em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), com especialização em Finanças pela Stern School of Business - New York University e pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Leciona em cursos de pós-graduação e MBAs pela Fundação Instituto de Administração, além de diversos cursos ministrados in company. É sócio-diretor da Cerbasi & Associados Planejamento Financeiro. Cerbasi também é colunista da revista Você S/A, do jornal Gazeta Mercantil, da Rádio Transamérica e colaborador de diversos outros veículos de mídia impressa, televisiva e internet.
Canal da Imprensa -
Como você vê o volume de informações de economia na mídia hoje?
Gustavo Cerbasi - Aumentou bastante. A informação está melhor posicionada porque quem quer essa informação hoje sabe onde encontrar. Dez anos atrás você tinha só a Gazeta Mercantil. Depois veio o Valor Econômico, que tem lá suas duas páginas muito bem digeridas no caderno Eu&Investimento, bem claro para quem quer consumir informação de qualidade. Existem serviços especializados na internet, portais como Invertia, Infomoney, até os grandes portais Uol, Terra, cada um com seu portal específico sobre finanças... Hoje não é difícil conseguir informação. Esta está disponível, tem qualidade e não custa nada. Ou custa muito pouco, no caso dos jornais. Isso, mérito de quem? Talvez tudo isso tenha começado, óbvio, como conseqüência de uma economia estável, mas principalmente foi provocado pelo grande boom dos planos de previdência que os bancos privados criaram no mercado. A mídia começou a questionar os planos de previdência e com esse questionamento a informação correu com muita intensidade, e novos produtos foram lançados para atender aos anseios, preocupações, necessidades do consumidor diante de muitos questionamentos da mídia.
CI - Então essa mudança no volume ocorreu graças aos planos de previdência?
Cerbasi - Eu acho que o que motiva esse crescimento da educação financeira e da informação financeira, é sem dúvida a estabilidade da economia. Um termo que eu resisti um pouco a colocar no meu trabalho - mencionei só no segundo livro - é a idéia de inteligência financeira.
Ela é possível depois da consolidação do Plano Real. Este foi criado de 1994 para 1995, mas se consolidou com a eleição do Lula. Até a eleição da oposição ninguém tinha certeza de que o Plano Real realmente seria algo perene. De lá pra cá nós temos condições de acumular informação. O que a pessoa lê no jornal, ouve em uma palestra, lê em um livro, vê na televisão, não é uma informação útil apenas para o mês. É uma informação que vai se acumulando, vai se refinando e vai ser útil nos próximos 15, 20 anos de vida da pessoa. Bem diferente daquela época em que a cada 20, 30 dias tinha um pacote novo, uma regra nova, e a pessoa tinha que sentar na frente do telejornal e entender o que fazer com o dinheiro naquele mês.
CI - Você quer dizer que agora, através do contato diário com esse tipo de informação, a pessoa pode acumular esse conhecimento?
Cerbasi - Sem dúvida, ela amadurece. Pessoas que não têm o menor traquejo com ações, por exemplo, só de começar a freqüentar a sala de ações do Banespa, ou de começar a ler diariamente notícias de qualidade como nos jornais Valor Econômico ou Gazeta Mercantil, ou notícias num padrão mais modesto, mais digerido, como no portal Infomoney, naturalmente se sentem à vontade para lidar com investimentos, porque o conhecimento não é mais descartável, ele se acumula. Isso é o grande ganho que a economia trouxe. O que acelerou esse processo de informação e educação financeira foi um passo importante dado pelos bancos no sentido de popularizar ou fomentar os planos de previdência.
CI - Mas você não acha que essas notícias ainda estão distantes da grande massa?
Cerbasi - Estão, só que estão em um correto processo de aproximação e pulverização. Seria utopia acreditar que de uma hora para outra a educação financeira chegaria a todos. Hoje você pega um jornal popular em qualquer estado brasileiro, quando há uma notícia sobre bolsa de valores ou mudança de regras nos impostos, ou um fato importante relacionado a fundos de investimentos, os jornais se preocupam em destacar esse tipo de informação. Isso é universal.
Existem fatos importantes, ainda poucos e isolados, mas por exemplo, o Governo do Estado de Sergipe já tem como módulo obrigatório no seu sistema educacional público a cadeira de Empreendedorismo, que inclui informações não só sobre negócios e administração, mas também de finanças pessoais. O município de Concórdia, de Santa Catarina, tem por lei a obrigação de toda escola do seu município ter um módulo de Educação Financeira para os alunos do ensino médio. Então existem alguns movimentos no sentido de pulverizar, de tornar universal. Eu acho que é um movimento que nós vamos ver amadurecer nos próximos 15, 20 anos. É uma coisa rápida. Temos ainda adultos que querem educar seus filhos, mas não sabem como. Nós temos filhos que estão se deparando com uma modesta educação financeira nas escolas que daqui a 15, 20 anos passarão adiante esse conhecimento para uma nova geração.
CI - Você defende em seus livros que as escolas deveriam ter uma matéria de Educação Financeira?
Cerbasi - Óbvio que a escola privada está bem mais adiantada por ter verba para novos projetos. Mas mesmo nas escolas públicas eu observo professores, educadores, coordenadores conscientes da importância e da necessidade da educação financeira, provocando as crianças a falar sobre dinheiro, dívidas, dificuldades econômicas, e isso já é uma realidade bem diferente do que os adultos de hoje tiveram no passado.
Raríssimas pessoas tiveram algum tipo de educação financeira porque não valia a pena. Educação financeira era algo muito descartável em uma economia instável como era a brasileira. Hoje, não. Existe um movimento, está surgindo uma literatura para criança, uma literatura para adolescente. Há uma literatura já razoável – não é satisfatória, mas razoável – para quem quer aprender sobre equilíbrio financeiro, dívidas, gastos, investimentos e assim por diante.
CI - Nesse prazo de 15, 20 anos, quais serão os benefícios para a população após esse amadurecimento financeiro?
Cerbasi - Eu acho que o Brasil passa hoje por aquilo que deve ser talvez o fundo do poço em termos de condição financeira da população. Não que esteja pobre, na miséria. A renda cresceu muito nos últimos anos. Mas acredito que estamos numa situação de endividamento que não tem igual na nossa história. O brasileiro teve um aumento sensível de renda. Não renda real. A mulher entrou no mercado de trabalho, trouxe um ganho a mais para a família média. Ao mesmo tempo, a economia se estabilizou, o crédito ficou muito fácil e a educação financeira ainda está como embrião. Então você tem uma combinação péssima funcionando. O brasileiro, diante de mais oportunidade de consumo, esse consumo acompanhado de linhas de crédito muito fáceis, muito fartas e caras – nós temos os juros mais altos do mundo. E o brasileiro totalmente despreparado para lidar com esse marketing, com essa sedução toda por trás da oferta de crédito. Conseqüentemente, estamos com tamanha gravidade de endividamento que daqui para pior é difícil ficar. Acho que para o futuro teremos uma sociedade que vai se moldando com tendência a diminuir (ou se não diminuir tende a melhorar) a qualidade da sua dívida – uma dívida mais barata – e tende a consumir melhor. Fazer melhores escolhas, ponderar melhor na hora de comprar, comprar menos a prazo... Acho que vamos passar um visível processo de amadurecimento que vai certamente impactar bastante o comércio e o consumo no Brasil. Não para pior, mas para melhor, porque o brasileiro está numa tendência de gastar menos com juros e mais com consumo.
CI - Agora, com respeito ao mercado de ações. A Bovespa foi chacoalhada por essa crise imobiliária norte-americana em julho e agosto, mas começa a recuperar suas perdas. O que está amortecendo o impacto dessa crise mundial no Brasil é o fato de o País estar menos dependente do exterior?
Cerbasi - Exatamente. Menos dependente e com mais força de consumo interno. O Brasil está mais rico do que há alguns anos atrás. E está sustentando os negócios das grandes empresas brasileiras com o consumo interno. Essa é a boa notícia.
CI - No primeiro semestre do ano surgiu uma forte discussão sobre a possibilidade de o Brasil receber o Investment Grade* ou grau de investimento no próximo ano. Você acha que essa possibilidade fica mais distante por causa dessa crise?
Cerbasi - Eu não sou a melhor pessoa para falar sobre isso porque não sou analista de mercado, sou analista de empresas. Mas não há uma alteração para pior. Se há alguma mudança nesse expectativa, tende a ser só para melhor. O Brasil está demonstrando nessa crise que é menos suscetível, há uma preocupação interna menor no Brasil do que em momentos anteriores. E se ele passar nessa crise com os louros da vitória, com uma tranqüilidade que o governo espera, que o mercado está esperando, a tendência é que se adiante a elevação do grau de investimento do Brasil.
CI - Para isso, você acha que influencia esse número que a gente vê todo dia no jornal, o risco-país?
Cerbasi - Todo país que é emergente, que não tem grau de investimento, seu risco-país se eleva quando acontece uma crise internacional. Por quê? Porque fica evidente que o capital que há nesses países foge quando acontece qualquer tipo de incerteza. Então o risco-país talvez seja uma das medidas mais importantes hoje para o Brasil. Ela [essa medida] ainda é sensivelmente afetada, mas muito mais do que o quanto é afetada, o quanto ela se recuperar vai ser determinante para acelerar essa obtenção do grau de investimento. Eu, como um analista de empresas, sabendo que as empresas brasileiras continuam bem, acho que não há motivo para temer muita instabilidade desse indicador.
CI - Então há um certo terrorismo da imprensa ao anunciar que o risco-país está subindo, a Bolsa desaba, etc? A imprensa não deveria esclarecer que a economia está bem e que isto é apenas um mau momento?
Cerbasi - Talvez sim. Mas eu não acho que o problema está na imprensa. Eu acho que tem uma distorção nas referências. Porque o mercado brasileiro ainda é predominantemente especulativo. O Brasil tem poucos investidores, com visão a longo prazo, que compram para viver de dividendos no futuro. E quando a imprensa procura uma informação, ela vai encontrar em grande volume, em atacado, profissionais que são os analistas técnicos, os grafistas, que estão preocupados muito mais com suportes, resistências, tendências e decisões de curto prazo e estão ignorando as orientações de longo prazo. Eu acho que sim, há um pecado cometido pela imprensa, mas muito mais por falta de referência do que por questão de consciência. Acredito que neste momento o papel da imprensa é alertar o consumidor, principalmente aquele que está perdendo dinheiro, da oportunidade que estamos tendo de comprar ou investir em algo que está barato. E quanto mais cai a Bolsa, mais barato fica, mais certa é a recomendação de investimento em ações, em algo que possa trazer uma oportunidade para quem quer aproveitar esse momento.
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