Ao se encarar a comunicação como um processo, onde a cultura se materializa como o principal agente mediador e também como fonte de mediação, automaticamente estamos sugerindo a transposição dos estudos de comunicação para um novo patamar. Nesse novo degrau, alcançado dentro da busca do conhecimento nos estudos da área, estão as mediações. Essas são efetivamente os elementos que vão outorgar sentido a essa comunicação enquanto processo, justificando desse modo sua própria existência.
Tal macro-cultura agente mediador, no entanto, é também mediada. Ao ponto, de a cultura da mídia hoje, ser considerada o próprio signo distintivo da sociedade moderna. Daí advém à importância de sua conveniente compreensão. Estudá-la e compreendê-la implica, no balanço final, em estudar e compreender nossa própria organização social, suas disparidades e conflitos.
Ao admitirmos essa concepção, admitimos por conseqüência, que tanto o processo de produção quanto o processo de recepção só podem ser analisados através de uma perspectiva relacional onde a própria vida social, seja de produtores, seja de receptores, junto com todas as suas mediações impactantes devem ser apreendidas.
Assim sendo, é através das mediações que, no contexto da recepção, mas ainda dentro do cômputo geral, que o receptor interage com os meios produtores de comunicação desencadeando aquilo que se qualifica como processo comunicativo de fato. Nesse processo, as diferentes mediações - a reprodução, a negociação e a resistência aos códigos, notícias e fatos veiculados - são as principais ferramentas utilizadas no jogo comunicativo e na produção de sentido às mensagens.
Desse modo, as posições de enunciação ocupadas pelos agentes dentro do processo comunicativo, bem como os fatores componentes do cenário produtor/receptivo acabam por deslocar as análises dos meios para as mediações onde, através de sua identidade, o receptor/produtor passa decididamente a construir os significados culturais.
Dentro desse complexo cenário, tomaremos como exemplo aqui, de um lado o Grupo RBS - maior grupo de comunicação do Sul do Brasil; e do outro MST - tido como o maior movimento social organizado da América Latina; a fim de analogamente admitir e/ou compreender a comunicação enquanto um processo dinâmico, de troca e de disputa - como um jogo de futebol.
Um jogo de futebol onde temos duas equipes atuando num determinado cenário, em distintos pólos, e de acordo com a orientação de seus treinadores. Times que buscam defender seus interesses, suas posições e que almejam sempre a vitória ou a hegemonia. Esses, no decorrer do processo, acabam por se deparar com seus oponentes com os quais compartilham muito mais que seus objetivos e que seus interesses. Compartilham estratégias, artifícios e até mesmo argumentos.
Nesse cenário de disputas, acaba por ocorrer primeiro o contato, depois o conhecimento, e a troca - negociada ou não - de informações e/ou pontos de vista conforme os condicionantes implicados. Esses condicionantes ou mediações acabam por ser específicos e particulares para cada momento ou situação. Outra partida, em outro local, envolvendo outros times e elementos provavelmente apresentará um resultado distinto.
Desse modo, tanto num jogo de futebol quanto no processo de comunicação, podemos considerar dois times: um formado pelo conjunto de receptores o outro pelo coletivo dos produtores da informação. Estes, no entanto, podem alterar sua posição aleatoriamente, dependendo do desdobramento e da seqüência de eventos. Não existem barreiras fixas ou condicionantes absolutos que os separem e/ou os fixem em uma única posição.
No futebol, todos os envolvidos no processo têm função previamente estabelecida: alguns defendem, outros trabalham a bola e outros ainda têm por função atacar. E, no time adversário, é a mesma coisa. Na comunicação, conforme perspectiva qualitativa das múltiplas mediações, essas funções não são estanques, principalmente no que se refere aos receptores. Todos, de fato, são responsáveis primeiro pela defesa com manutenção do time na disputa, depois pela negociação e neutralização do adversário e, por fim, pelo ataque na busca de fazer prevalecer o seu discurso - marcar um gol.
Tudo isso ocorre dentro de um cenário, um campo, um estádio, um local capaz de abrigar essas inúmeras variáveis. Esse campo, para a comunicação, é a própria cultura onde ocorre o intercâmbio dos bens simbólicos, onde se imprimem significados e onde são marcadas as posições identitárias.
Desse modo, devido à variedade de elementos envolvidos, para fins de sistematização, afirmamos que somente uma múltipla e complexa categoria de mediação poderia abarcar, compreender e explicar a relação estabelecida entre produtores - Grupo RBS e receptores - MST, no campo e no jogo da comunicação. Essa categoria é a própria identidade, tanto de uns quanto de outros.
É a identidade quem fundamentalmente vai determinar a forma de apreensão das notícias e informações no contexto da recepção. A produção de sentido, os usos e o conseqüente posicionamento dos membros do MST em relação aos fatos e à realidade social, derivam ou estão ligados à sua matriz identitária.
Afirmamos então, que a posição identitária ocupada pelos representantes do MST é a mediação que vai interferir de maneira mais singular no processo de comunicação. Ela é a principal forma de produção de sentido. Daí deriva o padrão de relacionamento, as formas de interação, os rituais de formação, que, conjuntamente vão emprestar sentido aos fatos e à própria realidade vivida.
A identidade é formada pelas mediações ao mesmo tempo em que pode ser considerada uma categoria de mediação - fundamental, portanto, dentro do processo comunicativo e na produção de sentido.
A identidade mediada é, ou pode ser, tranqüilamente uma categoria importante de mediação, pois as mediações se manifestam na prática concreta dos indivíduos. No caso dos integrantes do MST, sua identidade também se manifesta em sua prática concreta enquanto sujeitos políticos e agentes de transformação. E, até por sua abrangência e por sua representatividade, ela pode ser encarada como a mediação por excelência no processo de troca de bens simbólicos entre o MST e seus integrantes e o Grupo RBS.
Assim, podemos considerar que a identidade do MST e de seus membros, ao mesmo tempo em que é formada ou composta pelas mediações segundo processos híbridos principalmente de resistência, como um fator determinante no processo de compreensão, apreensão ou consumo de bens simbólicos, em especial aqueles vinculados e/ou veiculados pelo Grupo RBS em seus produtos. A identidade, portanto, é ao mesmo tempo produto e produtora de sentido dentro de um campo de complexas interações, dentro de um jogo onde múltiplas mediações interferem no desenrolar das ações ou acontecimentos.
Esse jogo, mesmo com o resultado sendo construído ao longo do tempo, não acaba, portanto, nos 90 minutos. Muito pelo contrário: implica desdobramentos que provavelmente ultrapassarão os limites da prorrogação e as conseqüentes cobranças de pênaltis.
Complexo não?! Mas ajuda a refletir, achamos!!! Isso que nós nem falamos nos tribunais arbitrais/ arbitrários. Nem do Mercado e nem do STJD...
*Vilso Junior Chierentin Santi é mestrando em Comunicação pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), área de concentração Comunicação Midiática, linha de pesquisa Mídia e Identidades Contemporâneas. Contato: vjrsanti@gmail.com. |