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... não houvesse classificação indicativa?

André Leite

- A classificação indicativa não é censura, minha gente!

De nada adiantou o grito desesperançado do ministro da Justiça. As emissoras de televisão, lideradas pela Rede Bola, organizaram o movimento estudantil "TV Aberta Já" e agruparam mais de um milhão de pessoas na Praça da Sé em protesto contra a suposta censura na rede aberta de televisão.

- Abaixo a classificação indicativa! Fora a censura!

- Vamos derrubar este sistema que nos proíbe o acesso ao conteúdo aberto da televisão.

- Mas ninguém está proibindo nada, rapaz. A classificação só indica qual é a faixa horária adequada para determinados programas serem transmitidos. Talvez a única proibição seja a de não deixar passar, no horário em que há crianças acordadas, programas com cenas de sexo.

- Sim... Mas onde fica a liberdade de imprensa?

A resposta do cidadão não fazia sentido. Na verdade, nem a revolta fazia sentido. Ou melhor, tinha gente que estava se revoltando até mesmo contra o motivo errado.

- É um absurdo essa história de classificação indicativa, você não acha?

- Acho. Acho mesmo. Imagina ficar indicando parentes para ocuparem cargos importantes no governo. Abaixo a classificação indicativa! Abaixo o nepotismo!

- Que nepotismo, rapaz? Tá maluco! A gente está se revoltando contra a censura na TV.

- Ah, é? Então eu vou voltar pra casa assistir o Faustão.

A agitação popular produziu resultados. A classificação foi abolida e a liberdade total para a veiculação de programas estava conquistada. Agora, estava liberado geral.

- Uhu! Vamos lá em casa ver o programa da Monique Evans. Tem um monte de mulher de lingerie.

- Que lingerie, cara! Vamos ver um filminho firmeza lá em casa. Tem peito de mulher à vontade. E o melhor, é logo depois da aula.

- Beleza, então. Que horas na sua casa?

- À uma hora da tarde. Depois do Globo Esporte.

- Tá marcado.

Não há dúvidas de que os programas que passaram a fazer maior sucesso foram aqueles que abusaram da sensualidade. Assim, em busca de audiência, as emissoras começaram a copiar umas às outras, sempre mostrando um pedacinho a mais do corpo.

- E você não pode perder a programação da TV Cultural desta quarta-feira. Rita Cadillac e Gretchen apresentam o "De Frente com o Traseiro", às 9 horas da manhã. Na seqüência, você acompanha o "Hentai TV", seu programa diário de desenhos eróticos. Ao meio dia fique com Carla Perez e Scheila Carvalho apresentando o Jornal Cultural. Logo após, Bruna Surfistinha traz...

E assim ia a programação da televisão brasileira. Parafraseando a narração de uma jogada de um atacante de futebol, que se dizia satisfeito com a nova medida, a programação "foi indo, foi indo e aí íu". E quando " íu" não teve mais volta.

O sensual agradou a muitos. Foi como colocar porcos na lama. Ninguém mais queria um novo formato na televisão nacional. Até mesmo aqueles que anteriormente eram à favor da classificação indicativa, agora não queriam nunca mais ouvir no termo.

Na verdade, houve até alguns que se manifestaram dizendo que a idade média para a primeira relação sexual tinha sido reduzida para 12 anos nas meninas e 10 anos nos garotos. Eles ainda pregavam que era caótica a situação de mais de 700 mil garotas, com idade entre 13 e 14 anos, ficarem grávidas todos os anos. O número correspondia a 25% de todos os nascimentos anuais. "Aparentemente, um problema", disse o presidente.

Por essas palavras de repreensão, o presidente perdeu apoio popular e não conseguiu se reeleger. Sorte de Kelly Maranhão, a atriz pornô que se transformou na primeira mulher a ocupar a Presidência da República do Brasil. Aí já viu: a TV ficou ainda melhor.