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Vilania disfarçada

Dayse Hálima

Sensualidade. Quantas vezes você abre um jornal ou revista e dá de cara com uma dona "gigante", quase pelada em uma propaganda de cerveja? Ou quando você liga a tevê, e passa um comercial em que um famoso diz "um patinho tomando banho, isso mesmo, afogando o ganso. Viu, não dá para esquecer de levar a camisinha"? As duas propagandas são semelhantes, vendem seu produto pelo sexo. A diferença? A dona pelada mostra a cara, não esconde "suas intenções" (Booooa!). O famoso é mais contido, joga com a dubiedade. Por que isso acontece? É só uma "sacada" legal ou a manipulação do possível cliente?

A publicidade descobriu que sexo vende, mas que pode cair na "censura". Então, a verdadeira "sacada" é driblar a censura e vender do mesmo jeito. Um exemplo é a nova propaganda da Volkswagen. Em Curitiba, um outdoor de lançamento do Golf 2008, que tem bancos de couro, a publicidade diz que "se sua namorada não dava no couro, agora ela vai dar". Não teve modelo pelada e nenhum tipo de foto sensual. Era a frase, simples e pura, mas cheia de segundas intenções. Apelação?

Você não precisa folhear uma Playboy, para encontrar exemplos de como a publicidade explora a sensualidade, que por vezes, cai no erotismo claro e longe das censuras. Isso pode ser visto no novo comercial dos biscoitos Minuto. Os artistas aparecem dizendo em um tom malicioso, que antes era difícil encontrar o que comer. "Eu comia o que aparecia na minha frente", "o que pintava eu, hum...", "agora ficou bem mais fácil comer!", sutis essas frases, não? Para falar de biscoito, as frases de duplo sentindo foram perfeitas! Ou esse é um meio mais fácil?

Agora, se você prefere ser "uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo", você sai da linha e anda no novo Vectra GT. A intenção da campanha do Vectra é mostrar para o público que o ser "top" é fugir dos padrões. Não é à toa que duas garotas aparecem se acariciando de "maneira diferente". Elas são só amigas (hum)? A professora titular da Escola de Comunicação da UFRJ, Nízia Villaça, em sua dissertação "Erotismo é isto, pornografia é aquilo?", diz que "se reduz a sexualidade a algo que se pode comercializar, seja sob a forma de implantes de silicone, fio-dental de poliéster, venda real de sexo, como na prostituição, pornografia ou striptease. Constrói-se gradativamente uma semiologia do travestimento, atrelada à busca de lucro e visibilidade". Ou seja, vale tudo para vender, até instigar, disfarçadamente o "lesbian chic" nos comerciais.

Não se pode negar que a qualidade publicitária em termos de tecnologia, passa por uma crescente favorável. Mas seu conteúdo moral tem caído vertiginosamente. A escolha das palavras, das fotos, dos modelos e suas poses, em 99% dos casos, favorecem o sexo promíscuo, casual e banal. Falta disciplina moral, saiu da linha. A sociedade assiste (e aceita) essa situação desenfreada. Aceita porque não encontra um conjunto de qualidade nos anúncios e são poucas as oportunidades de escolher.

Um dos primeiro passos para o verdadeiro sucesso das campanhas publicitárias é ignorar a dubiedade. "Dar as costas" a essa mania de meia verdade. Não se pode desacreditar da inteligência do público. Talvez os anunciantes estejam comprometidos com a verdade mais do que seus clientes possam imaginar. O problema é fazer com que as pessoas acreditem nessa verdade.

Tanta criatividade e inteligência são empregadas para se produzir qualidade propagandista. Por que não se aproveitar disso para produzir algo de qualidade verdadeira e real? É como disse o radialista, jornalista e publicitário Carlos Alberto Vizeu: "Muito mais que o público, nós entendemos as vilanias dos vendedores de dubiedades". Deixem de ser vilões!