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O doce pode azedar

Elkeane Aragão

Se fizessem uma regravação do filme A doce vida, não deveriam mudar absolutamente nada. As situações, as personagens, os clichês, as cenas implícitas, tudo caberia perfeitamente na sociedade moderna. O filme tem 40 anos de existência. A trama se dá no final da década de 1920. E mesmo assim, trata de assuntos polêmicos e atuais como suicídio, homossexualismo, sensualidade, o santo, o profano e a busca frenética pelo verdadeiro sentido da vida. Todos os tópicos merecem atenção, mas enfatizaremos a sensualidade e o apelo sexual, vistos como algo normal e corriqueiro.

A história gira em torno do jornalista Marcello Rubini (Marcello Mastroiani) que vai de repórter investigativo de possíveis milagres numa região árida da Itália a profissional de revista de frivolidades de artistas, isento de ética. Ele faz a cobertura da estada de uma atriz americana, Sylvia (Anita Ekberg), na Itália. Ela não vem a trabalho, mas para farrear. E Rubini se apaixona e tenta beijá-la algumas vezes. Ele a acompanha nas festas e a protege até dos paparazzi, mesmo um deles sendo seu amigo Paparazzo (Walter Santesso). Aliás, dizem os críticos que foi por causa desse filme que os 'profissionais que se dedicam a tirar fotos indiscretas de pessoas conhecidas ou célebres', foram apelidados de paparazzi.

A trama passa a idéia de que a sociedade da década de 1950 já estava acostumada ao homossexualismo e à sensualidade. O figurino que rendeu Oscar ao diretor Federico Fellini, não fica devendo em nada aos estilos de hoje. Vestidos justíssimos, curtos e decotes generosos. A classificação indicativa do filme é de 14 anos. Como pode, se está repleto de orgias e cenas implícitas de sexo? Subentende-se uma ménage a trois quando Rubinni, uma de suas amantes e uma moça passam a noite juntos. Mas isso só fica claro ao prestar atenção ao diálogo da prostituta com sua cafetã na manhã seguinte. Em outra cena marcante, Rubinni e sua turma de amigos boêmios invadem uma casa perto da praia e passam a noite bebendo e fumando. Mulheres dançam seminuas e uma delas faz striptease.

Críticos de cinema como Carlos Augusto Brandão, Renato Pinto e Luís Pires destacam relevância do tema sensualidade. Em seus comentários, deixam bem claro que o filme de Fellini é na verdade "a denúncia de um mundo que estava prestes a iniciar um processo de decadência de costumes". Relatam que a grande e doce estrela Sylvia protagoniza, juntamente com Marcello, o "maior coito-interruptus da história do cinema", quando a água da Fontana di Trevi, é desligada. Outra cena de destaque é a do helicóptero, cheio de repórteres sensacionalistas e do fotógrafo Paparazzo, sobrevoando a cobertura de um apartamento de luxo. Os jornalistas flertam as moças de biquínis que estavam tomando sol. "O plano místico e a sua desconstrução. O sagrado e o profano, sempre tão próximos em Fellini".

O filme segue uma seqüência de fatos surreais, geralmente acontecidos durante a noite, momento em que seus protagonistas e coadjuvantes estão sempre buscando novas formas de prazer e diversão adulta. É longo e confuso. Mostra a mídia da época semelhante à de hoje, correndo atrás de matérias sensacionalistas e sensuais com objetivos comerciais. Seu final não culmina com a promessa de doçura do seu título. O doce é percebido somente nos olhares de Rubini.


Ficha Técnica
Título Original:  La Dolce Vita
Gênero:  Drama
Tempo de Duração: 167 minutos
Ano de Lançamento (Itália): 1960
Estúdio: Riama Film / Société Nationale Pathé Cinéma / Pathé Consortium Cinéma / Gray-Film
Distribuição: Astor Pictures Corporation
Direção:   Federico Fellini
Roteiro: Federico Fellini, Ennio Flaiano, Tullio Pinelli e Brunello Rondi
Produção: Giuseppe Amato e Angelo Rizzoli
Música: Nino Rota
Fotografia: Otello Martelli
Desenho de Produção: Piero Gherardi
Figurino: Piero Gherardi
Edição: Leo Cattozzo

Elenco
Marcello Mastroianni (Marcello Rubini)
Anita Ekberg (Sylvia Rank)
Anouk Aimée (Maddalena)
Yvonne Furneaux (Emma)
Magali Noël (Fanny)
Alain Cuny (Steiner)
Annibale Ninchi (Pai de Marcello)
Walter Santesso (Paparazzo)
Valeria Ciangottini (Paola)
Riccardo Garrone (Riccardo)
Ida Galli (Debutante do Ano)
Audrey McDonald (Sonia)
Alain Dijon (Frankie Stout)
Lex Barker (Robert)