Erotismo e mídia, de Francisco Carlos Camargo e Tânia Márcia Cezar Hoff. (São Paulo: Expressão e Arte Editora; 2002; 127páginas).
Olhar para o erótico na mídia como se fosse a primeira vez e descobrir o que ele tem a dizer. Esta é a intenção dos autores, Francisco Carlos Camargo* e Tânia Márcia Cezar Hoff**, ao escreverem o livro Erotismo e mídia. Ao longo de suas páginas, a obra reúne pedaços de peças, recortes e fragmentos de anúncios, restos de depoimentos e comparações de frases. Tudo isto para encontrar as informações sobre corpo, mídia e sociedade que não são percebidas no cotidiano.
De forma descontraída e profunda, ao mesmo tempo, os autores transmitem um conjunto de dados reveladores. Separado em cinco capítulos, o livro descreve desde a relação do corpo com a comunicação até a economia da nudez.
No primeiro capítulo, intitulado "O corpo em comunicação", os autores mostram o quanto o corpo comunica e revela a cultura na qual está inserido. Apresenta como, em meados do século XX, os grupos se formaram a partir da organização econômica. Desse modo, o corpo materializa e caracteriza cada grupo.
Ainda no mesmo capítulo, o conceito de corpo-mídia também é enfoque de estudo. Segundo a obra, ele é construído na mídia para significar e ganhar significados nas relações midiáticas. É pura imagem e vazio de significados. Nele não há história nem cultura a ser contadas. 'O corpo-mídia apresenta-se como prótese, corrige as imperfeições do corpo natural e o torna refém de sua perfeição. É o ideal a ser perseguido, não no que se refere à essência, mas à aparência".
Já na segunda parte, o discurso erótico e destrinchado e analisado cuidadosamente, a fim de descobrir o que ele informa acerca da cultura atual. Como Eros, o deus do amor, é filho de Póros (expediente) e de Penía (pobreza), vive numa zona conflituosa. Assim, amar o erótico é planejar o tempo todo para resolver uma carência. É por esta razão que o erótico sempre atualiza a vida – através da procriação – para adiar a morte.
"A escolha das pessoas com quem nos relacionamos consiste numa ação erótica de continuidade, ou seja, numa vontade de ser contínuo no outro". Entretanto, o erótico é uma relação de diálogo, sujeito-sujeito. Quando o sexo realiza-se apenas no corpo para o corpo, sujeito-objeto, isto não mais é chamado de erótico, mas sim, pornografia.
No capítulo três, "As instituições e o erotismo", a reflexão gira em torno do saber erótico como um dispositivo de poder. Associado a um produto, esse discurso pode render uma quantia considerável. No Brasil, por exemplo, o mercado erótico movimenta 350 milhões de dólares todos os anos.
Mas por que relacionar corpo com produto? É simples: o corpo-produto atua como apelo principal nas campanhas publicitárias dos mais variados produtos. E isso não acontece só na publicidade. Invadiu o meio jornalístico também. A busca desenfreada pela audiência faz com que as emissoras insiram em suas programações conteúdos de apelo ao sexo. Isso envolve mais a dependência dos índices de audiência do que as questões de discussão ética e cultural. Tudo isto é debatido no capítulo quatro, "Economia e moralidade cotidiana".
E por último, mas não menos importante, o capítulo cinco retrata a virtualização do erótico. Ela pode se entendida como uma relação constante entre mercadoria e desejo, e atualização e mercadoria. "Observando o comportamento da mercadoria no seu estágio virtual chegamos à sua virtualização, quando encontramos todas as forças e dinâmicas para a realização de um desejo: ao reprogramar um desejo já satisfeito, o virtualizamos, é o mesmo desejo, mas com contornos diferentes".
Erotismo e mídia é uma excelente obra para os que desejam entender um pouco além do discurso erótico divulgado pelos meios de comunicação.
*Francisco Carlos Camargo, é mestre em Filosofia das Ciências Humanas pela PUC-SP. Atualmente, leciona Filosofia e Lógica no curso de Comunicação Social da ESPM-SP.
**Tânia Márcia Cezar Hoff é doutora em Análise do Discurso pela FFLCH-USP. É professora de Teoria da Comunicação e de Redação Publicitária na Escola Superior de Propaganda em Marketing (ESPM–SP), na Universidade Paulista (UNIP) e na Universidade Ibirapuera (UNIB).
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