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Melhor sem Elle?

Rúbia Gomes

Emagreça, troque, vista, compre, use, abuse... Descubra seu estilo, veja as novas tendências da estação, conheça o mais novo galã internacional. Venha, porque nós temos a dica perfeita para transformar você numa mulher irresistível, segundo os padrões que criamos para você. Clichê? Pode até ser que sim, mas ainda tem garantido faturas milionárias para muitas editoras ao redor do mundo, com periódicos que conquistaram milhares de leitores em busca do que se considera ser perfeito.

Nas últimas centenas de anos, o mundo certamente mudou radicalmente em vários aspectos. O vestuário é um deles. É curioso notar como a roupa masculina sofreu leves alterações, com respeito a detalhes, tamanhos e cortes, neste longo período. A feminina, no entanto... Cores, volume, sem contar a diminuição radical de tamanho, e outras transformações ousadas que as mulheres foram "conquistando" ano a ano. Aproveitando-se disso, a indústria cultural explora cada centímetro dessa necessidade feminina de mudar, de sentir-se nova e diferente, dentro do que é aceitável.

Num pacote completo, oferecendo informações de moda, beleza, testes de todos os gêneros, dicas de todos os tipos, tudo vindo dos melhores profissionais da passarela, a revista Elle traz as últimas tendências da moda nacional e internacional. E ainda um sem número de dicionários que "decifram" o mundo masculino, envolto em capas com modelos esguias e sensuais. Sem esquecer as dicas de viagem, de saúde, e as últimas opções de divertimento.

Direcionada a um público de uma classe mais elevada, Elle muda a tática, mas o discurso permanece o mesmo. Descobrir os segredos das mulheres mais desejadas? Não. Em alguns casos, o melhor caminho é entregar à leitora uma fórmula para que ela supostamente tenha o seu próprio segredo. Mas com quais finalidades? As de sempre: emagrecer, vestir as roupas lançadas pelas grifes mais desejadas no Brasil e no mundo. Tudo para ser sensual, ter sucesso e ter a aprovação dos olhares escravos do consumismo. Requisitos que seriam necessários para conseguir o que acreditam ser a felicidade: pão e circo.

Quem vive nesse mundo, sendo escravo do corpo, do consumismo, de tudo o que vê e lê nas belas capas emolduradas de sensualidade, pode acabar extremamente decepcionado quando se deparar com o mundo real. Sem contar que sempre estará inconformado com tudo o que vive, ouve e experimenta. A suposta felicidade, pintada em cores vibrantes - ou nem tanto, a depender da última tendência -, é muito mais etérea do que se imagina ou do que se pode notar. Coisa que poucos percebem, e quase ninguém segue de fato.

Daí vem a questão: o que realmente é importante para ser comunicado? Se existem leitores, deve haver o que eles desejam, certo? Como seria a imprensa se esta fosse completamente limpa, imaculada, sem manipulações consumistas, e apelos carnais? Mais ainda, como seriam os consumidores? Afinal, o perfil deles hoje é o criado pela mídia ou a mídia foi direcionada pela vontade deles? Perguntas certamente que já trouxeram e ainda trazem muitas discussões, porém, poucas conclusões.

Como Maquiavel escreveu, "o vulgo deixa-se sempre levar pela aparência". Aparentemente, o que há de melhor está bem ali, ao alcance das mãos, em qualquer banca de revista. Quem puder julgar a melhor opção, que julgue.