O brasileiro é doido por sexo. Perde apenas para os gregos. É o que revelou a pesquisa feita em abril deste ano por uma empresa de preservativos européia. Conforme o estudo, no Brasil, a média de relações sexuais chega a 145 por ano (Estado de S. Paulo, 18/04/2007). Um retrato bem autêntico da cultura tupiniquim: o carnaval, o conteúdo televisivo das novelas e programas de humor são expressões bem fortes da cultura popular. De fato, a fantasia mexe bastante com executivos, seduz políticos e diverte até operários.
Não é nenhuma novidade para a imprensa, mas a sensualidade gera uma porção de pautas. E elas variam bastante: truques para aumentar a libido, fofocas sobre a vida íntima de celebridades e até matérias com teor erótico, disfarçadas de educação sexual. Mas não é preciso ir muito longe para ver a representação da mulher na mídia brasileira, em geral, associada ao fetichismo e à propaganda erótica. Apesar disso, a figura masculina começa a render outra fonte lucrativa para as empresas jornalísticas. A insatisfação sexual e o espetáculo da notícia proibida encantam leitoras e criam um mundo imaginário onde não existe o proibido e a realização é plena.
No meio popular, a discussão divide jornalistas e teóricos ligados à comunicação. Editores justificam o interesse do leitor pelo fait divers: a exposição da intimidade de pessoas famosas e o resumo das novelas atuam como um lenitivo para a dura rotina dos trabalhadores dessa camada menos favorecida da população. Outra razão para o uso da informação quente e apelativa é a discussão de temas da agenda pública e o uso de personagens que simulam os problemas do leitor. A novela traria à baila esse tipo de debate e estimularia, inclusive, a ação social.
Na academia, porém, a opinião é bem diferente: os jornais de apelo popular adotam o recurso do fait divers não apenas por uma razão estética ou editorial, mas, por uma exigência de mercado. O Diário Gaúcho é um dos jornais que adota esse recurso. O periódico é o sétimo de maior circulação nacional e o segundo no gênero popular. Contudo, o ex-editor do veículo, Cyro Martins, defende que "o público das classes menos favorecidas [e mesmo o leitor do Diário Gaúcho] não quer sexo e sangue: quer informação útil e entretenimento sadio, a preço acessível". Será essa a realidade retratada pelo Diário Gaúcho? É o que pretende analisar o presente artigo.
Sexo como espetáculo
Em geral, a foto de mulheres seminuas é capa em todos os exemplares do Diário Gaúcho. Apenas a edição do dia 12 de outubro, dia das crianças, não deu destaque à seção Retratos da Fama, espaço que o jornal dedica apenas para falar de novelas e fofocas da intimidade de celebridades. Uma curiosidade que não escapa aos olhos do leitor é o uso de personagens ou mesmo palavras que incentivam a sensualidade. As legendas são bastante sugestivas: "Estão procurando o Véio, gracinhas? Ele ficou para trás, admirando a paisagem!" (01/10), "Short do jeito que o Véio gosta!" (03/10), "O Véio vai fazer bem-me-quer e malmequer com estas flores até ver todas as pétalas ao vento" (04/10), "As mãos do Véio fazem mágica" (09/10), "Vai um programinha aí?" (11/10). Percebe-se que o personagem "Véio" pode facilmente ser atribuído ao leitor ou a uma figura externa, imaginária. O texto que acompanha as fotos quase sempre é carregado de frases de apelo ao sexo e ambíguas.
Uma das edições, por exemplo, chega a apelar para o erotismo. O Véio - nesse caso, uma metáfora ao banco em que a cantora Ivete Sangalo aparece sentada - sugere uma posição amorosa. "O Véio é o banquinho mais confortável! Pode sentar à vontade..." (10/10). Além disso, a imagem da mulher é construída, na maioria das vezes, como objeto sexual do homem. "Nesse carrossel de emoções, o Véio canta: 'Minha egüinha pocotó'" (10/10).
O jornalista Danilo Angrimani, no livro Espreme que sai sangue: um estudo do sensacionalismo na imprensa, explica melhor a sedução do leitor pela informação bizarra, anedótica, quente e circunstancial. "Morin esclarece que o fait divers se situa fora do contexto histórico. 'Seus acontecimentos confirmam a presença da paixão, da morte e do destino para o leitor que domina a extrema virulência de suas paixões [inclusive sexuais], reprime seus instinto e se abriga dos perigos'".
Se a expressão da sensualidade retrata os desejos reprimidos do leitor, o Diário Gaúcho exagera nesse estímulo. Mas o curioso é a maneira como a figura do homem é apresentada. Seja nas seleções de pauta, no espaço reservado para debater o assunto, ou ainda o teor dos textos redigidos e a representação do outro. Das capas analisadas (do dia 01/10 ao dia 05/10, depois do dia 08/10 ao 12/10) apenas uma edição tratou da sensualidade masculina. Mas o foco foi a votação do "gaúcho mais sexy" em forma de texto, sem foto e legenda (04/10).
É bem verdade que os atuais populares adotaram uma política editorial menos agressiva e sensacionalista em relação às décadas de 1950 a 1990. Mas o apelo sensual ainda é um dos principais ganchos na hora de fisgar o leitor. Se não fosse, não mereceria capa.
Uma coisa é divertir o leitor, humanizar a notícia, tendo em vista a tendência do jornalismo na era do entretenimento. Outra, completamente diferente, é apelar para a sensualidade e abrir mão do que é notícia a fim de espiar a intimidade alheia. O Diário inovou no jornalismo popular ao facilitar o acesso à informação de qualidade, ao incluir na pauta do jornal temas da agenda pública, mas retrocedeu em uma das receitas que, infelizmente, explica parte de seu sucesso: o apelo sensual. Sexo vende, sim. E muito. O duro é que a imprensa sabe dessa realidade e dificilmente irá abandoná-la. A menos que jornalismo de verdade venda mais que sexo. O que não ocorre, infelizmente. |