Os temas erotismo e sensualidade estão mais do que presentes nos meios de comunicação do País. É possível notar constantemente esse fenômeno em jornais, revistas, televisão, internet, tanto no meio jornalístico quanto publicitário.
É este cenário que a publicitária, Flávia Patrícia Martins Jordão, analisa em sua dissertação de mestrado, intitulada "O erotismo e a sensualidade da mulher na publicidade e na propaganda". Nesta entrevista concedida ao Canal da Imprensa, ela fala explica a diferença entre erotismo e sensualidade e descreve como eles são encontrados na mídia. Flávia relata, ainda, as modificações na publicidade após a revolução feminista, como a transformação da mulher num objeto de desejo, e suas conseqüências.
Ela possui graduação em Publicidade e Propaganda pela Universidade de Marília, especialização em Administração pela Fundação Eurípedes Soares da Rocha e mestrado em Comunicação pela Universidade de Marília.
Canal da Imprensa -
Qual a diferença entre erotismo e sensualidade?
Flávia Jordão - A diferença, na maioria das vezes, é muito sutil. A sensualidade acontece mais quando, numa propaganda, a mulher aparece vestida de uma maneira sensual e atraente, que chame atenção. Já o erotismo, não. O receptor vê e é remetido a algo.
Um exemplo é este anúncio da cerveja Kaiser. Ele deixa claro o uso exacerbado de erotismo, pois o anúncio quer induzir, seduzir o consumidor com uma mulher deitada, vestida apenas de biquíni, em cima de uma garrafa. É uma imagem bem convidativa, ou seja, a cerveja e a mulher sugerem uma relação sexual. O slogan é ambíguo, reportando a uma imagem subliminar erótica, até mesmo pelo repetitivo ritmo das palavras "Vem Kaiser Vem". A mensagem deixa o receptor interpretá-la através do seu repertório, lembrando que o gargalo da garrafa remete ao símbolo fálico.
CI -
Como a sensualidade está presente nas propagandas brasileiras?
Flávia - Ela está presente de maneira explícita e implícita. O uso da mulher nas propagandas vende e muito. Tanto que você não vê homens semi ou totalmente nus, mas para mulher é normal. [A sensualidade] está presente em qualquer tipo de propaganda, como de cerveja – que é bem ousado –, propagandas de carros, de sabonete, dentre outros. Está às nossas vistas a todo momento.
CI - E como o erotismo presente nas propagandas consegue "driblar" o Conar?
Flávia - Não sei bem se é driblar a palavra certa. Mas nem sempre o Conar tira tudo do ar. A realidade é que "sexo vende", como diz Marcos Cobra. E chama atenção, fazendo com que o consumidor se envolva na propaganda. Isso porque mexe com o "eu" de cada um. Além do mais, hoje a coisificação da mulher está tão aberta que fica ainda mais fácil.
CI -
Na sua dissertação de mestrado, você analisa a presença feminina nas campanhas publicitárias. O que mudou na publicidade após a revolução feminista?
Flávia - Mudou muita coisa. Antes, a mulher era vista nas propagandas como dona-de-casa, que estava sempre feliz e cuidando devidamente da casa, como nas propagandas de margarina. A mulher foi se estabelecendo no meio da sociedade como uma mulher capaz, vencedora, empresária. Mas isso não é tão mostrado [hoje]. O que é mais apresentado ao público é a mulher como objeto de uso, ou seja, de desejo. E isso fez com que ela saísse do estereótipo de dona-de-casa para mulher sensual. A mulher empresária e inteligente não aparece.
CI -
Quais os malefícios psicológicos que o estereótipo de beleza exposto na mídia causa àquelas mulheres que não conseguem se "enquadrar" ao modelo?
Flávia - É muito complicado, pois muitas vezes a mulher que vê certas propagandas se sente inferior. Será que só a "modelo gostosa" é capaz e pode conseguir tudo isso? E na verdade não é isso. Existem muitas pessoas que compram creme para o corpo só porque uma modelo bela e sensual usa, achando que irão ficar iguais à modelo. A mulher tem de pensar que ela não é só beleza e sensualidade. Ela é gente, inteligente, que trabalha e dá conta de uma casa, dos filhos e de um grande emprego.
CI - A erotização da mulher na mídia faz com que os indivíduos se despertem precocemente para a vida sexual?
Flávia - Com certeza. Eles se sentem tentados, porque a propaganda tem um poder muito forte de persuasão. Um exemplo é a propaganda de cerveja. "Se você beber esta cerveja pode ter essa 'gata' para você". Mostra que você pode tudo quando vê ou consome o produto.
CI - Como a mídia reage a esta responsabilidade: ignora ou se responsabiliza?
Flávia - Acredito que muitas vezes ela ignora, apesar de já ter melhorado bastante. Ignorar, às vezes, é mais fácil. E como já foi dito, a sensualidade e o erotismo mexem com o "eu" do consumidor, pois satisfaz aquele desejo mais latente.
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