O Big Brother Brasil dispensa apresentações. Não existe um brasileiro vivo que não saiba como funciona o "reality show" mais famoso do País.
O que pouca gente sabe é a origem do nome da atração. Big Brother é uma alusão ao livro 1.984, de George Orwell. A obra é um romance político. O livro conta a estória de um país, onde a população é vigiada 24 horas; e o chefe da nação é chamado Grande Irmão, (big brother, em inglês). As semelhanças terminam por aí. Enquanto o livro é uma metáfora inteligente sobre o futuro, o programa televisivo é uma caricatura pobre da liberdade midiática.
O BBB é o resultado de uma sociedade que se abriu para mostrar todas as faces da pornografia e do erotismo. E a mídia teve o papel de difundir esse novo comportamento. Em uma de suas dissertações a professora de comunicação da UFRJ, Nízia Villaça, esclarece que a pornografia e o erotismo não eram desconhecidos da mídia. Para ela "o que evoluiu foi a visibilidade, a publicidade e a banalização dessas práticas".
A jornalista americana Ariel Levy, afirma que "hoje, as pessoas não têm vergonha de consumir, elas são descaradamente capitalistas, não há resistência ideológica". Ela está falando sobre a sociedade estadunidense. Imagina se ela assistisse aos vídeos que os candidatos enviam para a produção do programa. Ou então, se ela acompanhasse uma edição do BBB. Talvez ela se escandalizasse com o excesso de closes nas nádegas e nos seios das participantes.
Os objetivos
Ora, o objetivo desse confinamento é simples: observar a vida alheia. Dar aquela "espiadinha". Mas, e se a vida de quem está sendo espiado não tiver graça? Nunca se sabe o que vai acontecer nos próximos três meses. A única certeza é que a audiência tende a crescer. Então, o programa usa todas as armas: chama um pobre para comover as pessoas, chama um feio para confirmar que eles não são preconceituosos e enche a casa de "saradões" e "gostosonas". A arena está montada, agora essas feras trazidas do meio da massa social vão gladiar pelo estrelato.
Isso é tão verdade que a "qualidade" dos participantes está crescendo. No site do programa é possível se candidatar. Mais de um milhão de perfis estão cadastrados. A produção acompanha esses participantes e os colocam em categorias, uma delas é a "que delícia". Isso mesmo, são perfis eróticos de homens e mulheres. Essa é a categoria que agrega o maior número de candidatos virtuais.
Neste mundo pós-moderno o corpo é a identidade do indivíduo. E os meios de comunicação disseminam essa idéia que foi criada pela sociedade de consumo. Por outro lado, esse consumismo deixa um vazio social. Pois são poucos os que conseguem transformar sua aparência. E esses seletos são destinados a serem exemplos. São exibidos na mídia, especialmente na TV.
O Big Brother é um desses programas. Como diria Pierre Lévy, "as pessoas que vêem o mesmo programa de televisão, compartilham o mesmo olho coletivo". Ou seja, o povo acredita nessa mistificação do corpo, transmitida pelas imagens sensuais.
Essa sensualidade é ligada ao corpo feminino. No Big Brother, a simples vida cotidiana se torna pública e o apelo ao erotismo ganha espaço através das mulheres. Afinal, criou-se o pensamento que mulher tem de ser fatal, conquistadora e deve usar o seu corpo para tal finalidade. E as "brothers" seguem essa cartilha direitinho.
Mas o Big Brother seria o anticristo da moral e dos bons costumes? Ao contrário ele anuncia os novos tempos da mídia. Ele não veio para destruir, mas para firmar os conceitos, que com tanta persistência, a publicidade quis impor. E o moral e os bons costumes? Onde eles ficam? Devem estar perdidos em algum lugar do tempo, claro que antes da década de 1960. |