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Economês não é "Embromês"

 

Surpresa. Essa é a palavra que define minha última quinzena. Quando pensamos saber o que nos espera no fluxo constante dos dias, é que acabamos surpreendidos. Para começar, no meio da semana passada recebi um e-mail interessante. Vejam bem, caros leitores, para entrar em contato com o ombudsman desta revista eletrônica existe um e-mail próprio que está disponível a todos na página principal do site. No entanto, a referida mensagem chegou até mim através de meu e-mail pessoal. Dizia assim: "Andréia, você não parece a mesma. Desde que te conheço nunca falou nada usando sutileza. Seu texto para o Canal da Imprensa foi muito bonzinho. Ou você está ficando lenta ou está aprendendo a usar a educação". Bem, longe de me sentir ofendida, a mensagem me fez refletir.

A experiência ensina que, quando em qualquer situação que requer discussão relevante, se colocam panos quentes, tudo termina em pizza. E para não faltar com a verdade, nunca fui mesmo o tipo que usa meias palavras. Por isso, afirmo que as mudanças e o aprendizado devem advir da crítica franca. Munida com essa constatação é que discutirei com vocês a edição sobre Jornalismo Econômico.

A edição em si foi outra de minhas supresas. Encontrei extremos interessantes. Alguns autores me surpreenderam pelo excelente texto, superando até, o bom desempenho anterior. Outros me surpreenderam por atentar às críticas feitas e apresentar uma melhora considerável. Também me surpreendi com alguns que conseguiram demonstrar desempenho inferior ao que já haviam apresentado. E, pior ainda, fico surpresa com aqueles que não evoluem, tampouco regridem.

Ao ler a reportagem, senti uma lacuna entre apuração e transcrição. Creio que os autores se perderam no meio do caminho. Tinham bom material nas mãos, mas a linha de raciocínio usada para discorrer sobre o assunto foi muito difusa. Outra coisa que dificultou fluidez do texto foi o mal emprego dos verbos declaratórios. É preciso sensatez no uso destes. Afirmar, ressaltar, acentuar, pontuar, tem significados diversos, obviamente, e existem ocasiões específicas para seu uso. É claro que é preciso utilizar variedade no decorrer da escrita, mas somente se empregando os verbos em lugares que realmente cabem. Isso, no entanto, não desmerece a pesquisa, que, reitero, pareceu-me rica.

Correndo o risco de me tornar repetitiva, volto aqui a uma questão que já abordei anteriormente. Minha gente, escrever difícil não é sinônimo de escrever bem. A alguns parece difícil a compreensão de que, encher uma folha com palavras complicadas e pomposas só os faz prolixos e não inteligíveis. Bom jornalismo é jornalismo claro. Em alguns textos falta clareza, coesão, falta senso crítico. Esse é outro ponto em que me deterei. É a velha história de olhar "através" e não "para". De que adianta ler um punhado de edições de certo periódico sem conseguir decifrar nas entrelinhas a postura do mesmo em relação ao assunto que deve-se discutir? Ou, sequer, entender a pauta proposta para discussão? Alguns textos navegaram nesse vácuo.

Outros, ao contrário, foram direto ao ponto. Sem enrolação discutiram economia, postura de periódicos e afins sem incorrer na pomposidade ou divagação inútil. Cito aqui alguns exemplos. "Serviço Econômico", "Economês para quem precisa", "Economia para o povo", "Diagnóstico Econômico".

Eu aprecio a ironia inteligente, sacadas rápidas. Esse é um diferencial interessante, surpreende. Mas de nada adianta senso de humor sem relevância. Pude perceber que alguns textos apresentaram agradáveis insights de humor, mas falharam em produzir verdadeira reflexão. É preciso amadurecer a visão crítica através de extensa leitura. Assim, o senso de humor não será a linha que guia o texto, será apenas o diferencial de um raciocínio fundamentado.

Também notei que o hábito de escrever sem ler o que foi escrito, continua sendo cultivado por nossos articulistas. Em um dos textos me deparei com a seguinte declaração: "Fatos na economia mundial acontecem a todo segundo no mundo inteiro". Bem, se a economia é mundial é óbvio que ela acontece no mundo inteiro, como é que poderia ser mundial acontecendo só no Brasil? Encontrei também algo realmente peculiar: "Economia, dinheiro e política são assuntos cotidianos de cunho popular. Falar sobre isso requer informações sobre o assunto". Certamente, para falar sobre qualquer coisa é necessário o mínimo de informação sobre o assunto. A não ser, é claro, que se faça apenas uso do "embromês".

Eu não sou burra, o leitor também não. Me decepcionei com textos que ficaram embromando pomposamente em volta do assunto sem dizer nada com nada. Essa é a verdade! Economia é uma coisa, embromação é outra, e posso afirmar que tanto eu, quanto os leitores, sabemos fazer tal diferenciação. Economia é assunto complicado? De fato, e por isso mesmo requer pesquisa e objetividade. Fiquei agradavelmente supresa com o texto "O risco de acreditar". O autor explicou sem "lero-lero" o conceito de risco-país e pronto. Assim se faz bom jornalismo. Excelente texto. Parabenizo também a entrevista, que abriu horizontes, foi pertinente, esclarecedora.

Sinto-me na obrigação de dizer, antes de finalizar este texto, que, Bovespa, significa "Bolsa de Valores de São Paulo", e que, "depreciação", no caderno de economia, não é mero substantivo. Para quem não fez a lição de casa aqui vai um link onde se encontra uma explicação claríssima sobre esse jargão: www.forumconcurseiros.com/phpbb2/viewtopic.php?t=16499&sid=bd426fc3ed998e50af2de4a6eb2623af.

Termino pedindo o fim definitivo do "embromês". Pessoal, dediquem mais tempo à pesquisa, à análise, à leitura. Os benefícios, primeiramente, serão de vocês.

Eu os desafio. Surpreendam-me de novo, surpreendam-me mais.



Andréia Moura
ombudsman@unasp.edu.br