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As imagens causam grande impacto na mente do ser humano. E a mídia sabe disso. Mais precisamente, as imagens sensuais são as que geram as maiores respostas elétricas do cérebro. E a mídia também sabe disso. Os meios de comunicação precisavam de algo universal para vender amplamente suas ideologias, produtos e fidelizar consumidores. Descobriu a sensualidade. Num tempo em que o capitalismo dita as pautas, a mídia se despe e convida seu público para uma noite prazerosa, mas de conseqüências irreversíveis. E a mídia sabe muito bem disso.
Poder da sedução
Não é novidade o fato de a mídia usar a sensualidade. "Podemos dizer, sem medo de errar, que a sensualidade é um dos principais componentes da mensagem midiática. A sensualidade é entendida a partir de todos os seus aparatos de sedução e arrebatamento dos indivíduos pelos sentidos", garante Raquel Paiva, doutora em Comunicação pela Universidade de Turin, Itália, diretora cultural da Intercom e membro do comitê assessor da Comunicação no CNPq.
Segundo Raquel, os meios de comunicação obtêm sucesso porque estimulam um ponto comum em todo ser humano. "A mídia trabalha amplamente com o sensório, a emoção. E trabalha de modo tão eficiente e profissional que consegue atingir de maneira massiva as mais diferentes culturas, classes, profissões, ou seja, as mais distintas identidades. Talvez, seja hoje a única possibilidade real de acesso ilimitado à diversidade cultural existente em nosso planeta", assegura.
Luxúria
"Qualquer estímulo causa uma reação cerebral. O impacto desse estímulo sobre o cérebro dependerá de sua intensidade e freqüência", atesta Antônio Faria, neurologista. Como arma eficaz, a sedução torna-se uma constante entre os meios de comunicação. " É um ciclo vicioso. Quanto mais a mídia usa a sensualidade para sexualizar a população, mais a mídia fica sexualizada", indica Sandra Silva, psicóloga. "Quando a mídia joga algo mais ousado, inicialmente a população se assusta, mas depois se acomoda e torna-se natural. Em seguida, vem a mídia com sexualização mais forte", complementa Sandra.
Esse ciclo acaba por criar a luxúria midiática, fazendo com que muitos meios de comunicação descartem a criatividade de ousar novos atrativos. Contentam-se com o sexo. E muito sexo.
Um claro exemplo dessa mesmice é o uso excessivo da mulher. "Revistas como Veja, IstoÉ ou Época colocam periodicamente uma mulher na capa. Ela não é informação e também não é sexo. É só erotismo. Esse erotismo é uma estratégia de venda. E a força dessa estratégia está exatamente no fato de que essa imagem é uma imagem traumática, que não deixa oportunidade de o indivíduo pensar", propõe Vanderlei Dorneles, dourando em Comunicação na ECA-USP (Escola de Comunicação e Artes).
Flávia Jordão, mestre em Comunicação, em sua dissertação de mestrado, intitulada "O erotismo e a sensualidade da mulher na publicidade e na propaganda", ressalta os primeiros passos da mídia na vida licenciosa. "Desde que a televisão chegou ao Brasil, há 60 anos, e desde que se começaram a produzir novelas e programas televisivos, o erotismo se fez presente", conta ela. "Inicialmente sutil, o erotismo foi ganhando proporções cada vez maiores e as cenas onde a imaginação agia, para que fosse concretizada na mente dos telespectadores, tomou formas mais reais, mais vividas, mais cheias de detalhes, chegando ao ponto de se transformarem em realidade. Gradativamente, a TV, principalmente, foi colocando despudoradamente pessoas fazendo sexo explícito na sua telinha", complementa.
"O apresentador Chacrinha introduziu, em seu programa de auditório, mulheres lindas dançando sensualmente, seminuas e o resultado foi satisfatório, ou seja, houve uma maior audiência", expõe Flávia. Segundo ela, foi a partir daí que os programas de auditório incorporaram mulheres seminuas no palco, desde as chacretes às feiticeiras, Tiazinha, Carla Perez, Sheila Carvalho até Monique Evans.
A publicidade também não acha que luxúria é pecado. "Na publicidade, a mulher se transformou no apelo erótico, na fantasia, na associação dos produtos, principalmente bebidas e carros, ao prazer", afirma Edmundo Monteiro Almeida, mestre em Comunicação e autor da dissertação "Mídia e televisão: a mulher em foco". Ele afirma que usar os produtos é remeter simbolicamente ao objeto de desejo. "Ao exporem nos anúncios mulheres lindas e famosas, a publicidade provoca não só o desejo masculino para a aquisição do produto, como o público feminino. Aqui entra em jogo a magia da sedução, confundindo-se semioticamente a imagem feminina, com o objeto de desejo masculino e figura a ser copiada pela mulher", garante Almeida.
Conseqüências
As conseqüências da sexualização da mídia são graves. Primeiramente, expõe aos homens a visão da mulher como objeto. "Esse é um conceito que vem da mitologia: a mulher como gratificação. Reis prometiam suas filhas para os guerreiros que matassem determinado número de pessoas. Trata-se de cultura machista. Esse conceito está presente na propaganda o tempo todo", afirma Dorneles.
Para a maioria das mulheres, o rótulo de "objeto de divertimento" já é comum. Em sua dissertação, Flávia Jordão explica que o erotismo utilizado em anúncios publicitários transformou a mulher em mercadoria, para ser copiada pelas outras mulheres e desejada pelo homem. "A expectativa do corpo perfeito traz insatisfação, angústias e problemas emocionais e psíquicos em muitas mulheres, pois desejam ser valorizadas pelo físico ideal", avisa a publicitária. É a "coisificação" da mulher.
"A sensualidade publicada na mídia se confunde com a vida particular. E quando a mulher não se encaixa no perfil ideal da época, aparecem as conseqüências para a auto-estima", descreve a neuropsicóloga, Ana Olmos. Ela destaca que a mulher enfrenta inúmeras dificuldades para se ver livre desse padrão.
A jornalista Daniela Jakubaszko, doutoranda em Comunicação na ECA-USP (Escola de Comunicação e Artes), defende que a mídia na maioria das vezes, apenas retrata a realidade, ou até mesmo expõe imagens eróticas com o objetivo de recriminação. "Não podemos responsabilizar a mídia pela pressão que as mulheres enfrentam [ao se deparar com imagens sensuais]. A busca por transformação do corpo já existe, e este estereótipo se reflete na mídia. Um exemplo disso é a personagem de uma novela da Rede Globo, a prostituta Bebel, que precisava ser retratada daquela forma para ser verossímil", esclarece.
Já nas crianças, os prejuízos são mais gritantes. Um estudo divulgado em fevereiro pela Associação Americana de Psicologia (APA, sigla original), advertiu que a erotização pode ocasionar depressão, distúrbios alimentares e comprometer o desempenho escolar. A pesquisa analisou 300 outros estudos feitos nos 18 últimos meses, que ponderavam televisão, filmes, letras de música, revistas e até silhuetas de bonecas. De acordo com o relatório, todos esses veículos têm exemplos de sexualização.
Mas, no ranking de pornografia para o público infanto-juvenil, não há quem supere a internet. Em 2005, a revista Pediatrics divulgou uma pesquisa da Universidade de New Hampshire, Estados Unidos, afirmando que o acesso a esse material acontece acidentalmente em muitos casos. 1.500 pessoas foram entrevistadas, com idade de 10 a 17 anos, e 42% disseram ter visto conteúdo pornográfico na internet num período de um ano. No entanto, os participantes alegam que em 66% dos casos não tiveram essa intenção, e as imagens teriam aparecido sem que fizessem qualquer busca online.
E a prática começa cedo. Os internautas de 13 a 17 anos são os mais expostos à pornografia. Porém, os de 10 e 11 anos não estão longe. 17% dos meninos e 16% das meninas dessa faixa etária já tiveram acesso a conteúdo inadequado na web.
Ana Olmos ainda adverte para o caráter grosseiro como a mídia apresenta a sensualidade aos pequenos: "Me preocupo com as propagandas para o público infantil, pois apresentam a sensualidade como moeda de troca, além de que todo o destaque é destinado à parte física, raramente se evidencia o intelectual". Os ídolos da TV também são modelos para crianças e adolescentes. A neuropsicóloga afirma que eles sentem vergonha de si sempre que se deparam com o apelo feito por apresentadores e artistas.
Tarefa cumprida, mais uma noite repleta de divertimento. Mas nem tudo é como no começo. Cada um dos que entraram em contato, carregam evidências do chamado programa. A clientela não se contenta com uma única dose e, ao que menos esperam, se acham presos a um ciclo vicioso. Os veículos midiáticos não permitem a nenhum deles se libertar do bombardeio constante de imagens e conteúdo erótico. E a mídia sabe disso. |