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Por que o Brasil é miserável?

Maria José dos Santos Oliveira*

Quem mora nos grandes centros urbanos, convive com os miseráveis todos os dias. Eles são facilmente identificados: moram nas ruas, nas favelas, debaixo dos viadutos. Vivem basicamente de esmolas que pedem nos sinais, nas portas das residências, nos bares, ou seja, em vários lugares.

Não tem quem os socorra, quem os apóie, quem os ampare. Estão por suas próprias contas e riscos. São miseráveis porque nem na favela conseguem morar. Lá é muito caro para eles. Vagam pelas calçadas, cozinhando em latas, dormindo no frio, na chuva, no chão. São, na sua maioria, catadores de papéis, de latas e de alimentos que acham nos lixos. Essa condição subumana a que são submetidos é revoltante e humilhante.

Não estão no senso, não têm documentos suficientes, nem endereços, então, não existem para as pesquisas e muito menos para o governo. Mas eles existem para a população que os vê. Como povo solidário, o brasileiro se divide entre a própria luta e a do próximo. Ele doa, faz campanha, distribui agasalhos, colchões e alimentos a esses excluídos. Há os que fazem o ano todo, numa batalha solitária e anônima, porque para ser solidário, nem sempre ou quase nunca, é aparecer na mídia.

Estão longe de resolver os problemas sociais tão graves, mas amenizam. Sem eles seria muito mais miserável a vida de quem mora nas ruas. O Brasil empobreceu muito de uns anos pra cá. Causas? Inúmeras. As mais evidentes são o desemprego, o êxodo rural, o descaso com a educação, a evasão escolar, a falta de instrução, de perspectiva, de alimentação adequada, tudo associado a uma política de distribuição de bolsa-família, bolsa-escola,e seja qual for o tipo de auxílio, ele é somente um paliativo, e não resolve absolutamente nada.

São cumulativos os problemas sociais. É um círculo vicioso de proporções catastróficas, comprometendo seriamente o futuro de várias gerações. Porque um país tão rico é tão miserável? Vários especialistas no assunto dizem ser o tipo de colonização, que veio a ser de exploração. Ponto para eles. Outros dizem ser o tipo de economia, baseada na concentração de riqueza nas mãos de poucos e da presença de multinacionais. Ponto para eles também. Mas a maioria esmagadora diz ser o governo, que investe pouco em áreas importantes, tais como educação. Ponto para eles, porque, sem educação básica não há emprego, teto, esperança e dignidade.

O País que tem mais cartões de créditos do que habitantes, é de uma desigualdade tão grande que não é possível virar as costas e deixar que o outro ou os governantes resolvam. O país dos miseráveis é, também, o das organizações não-governamentais, dos programas voluntários, das fundações e outras entidades sem fins lucrativos. Na Declaração Universal dos Direitos Humanos diz:

Artigo 23
1. Toda a pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha do trabalho, a condições eqüitativas e satisfatórias de trabalho e à proteção contra o desemprego.

Artigo 26
1. Toda a pessoa tem direito à educação.

Artigo 1
1. Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos.

É somente uma declaração. Quem é, condicionalmente, um miserável, nem sabe da sua existência. O governo sabe, e só!


*Maria José dos Santos Oliveira é jornalista em Belo Horizonte, Minas Gerais. Contato: mariajooliveirabh@hotmail.com.