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... todo jornal tivesse uma agência controladora?

Meire Araújo

Mais um dia de trabalho no País Notícias....

O editor do caderno Mundo chega cedo à redação. A agitação de ontem, passou. O ambiente parece mais tranqüilo. Ele abre a porta, entra na sala e se conecta à internet. Clica em alguns sites, abre o programa de bate-papo, checa a caixa de e-mail. Seu trabalho no jornal começou.

O final de semana foi pesado, turbulento. A diretoria marcou reunião. Informaram que a editoria Mundo teria outro jeito de lidar com a informação externa. A medida era do governo, em nome do presidente da República. Simplesmente decidiram adotar... e não dava pra ir contra a decisão.

Dois minutos no chat foram suficientes para uma mensagem instantânea aparecer no visor do computador de Charles. Era o Ronaldo. Um amigo, editor do internacional da rede CTV.

- E aí, cara? Veio trabalhar cedo também?

- Pois é. Estamos de mudança. A empresa adotou um novo sistema para a seleção de notícias da editoria Mundo.

Se fosse há uma semana anterior, Charles teria milhares de notícias estocadas no correio eletrônico para selecionar. Consultaria algumas agências do ramo jornalístico, contactaria seus repórteres correspondentes e stringers (colaboradores) a fim de extrair as notícias do dia. Mas o tempo passou e alguns interesses ideológicos (re)apareceram na redação.

- Temos nossa própria agência de notícias. Diminuíram a equipe de trabalho porque aumentaram os interesses dos superiores.

- Ordem de cima, a gente só obedece...

- Positivo. Agora tenho que chegar mais cedo no serviço, mas dizem que o sistema é bom. Vou fingir que acredito!

- Você disse uma agência particular?

- Sim. Montaram uma equipe triagem aqui no jornal, exclusiva para garimpar as informações do mundo a fora e escolher o que é "melhor" para as pessoas lerem. Por quê?

- Nada não. É que eu me liguei agora. Essas mudanças estão acontecendo em todo o lugar. O governo motivou todos os meios de comunicação a criarem suas próprias agências. Controlar o que entra e o que sai.

- Sim, sim. Isso mesmo.

- Aqui na CTV também não está nada diferente. Fizemos algumas mudanças, pois a cobertura internacional em TV ainda custa muito caro.

- Mas, rende uma audiência e tanto!

- É, rende mesmo. Ainda mais quando há desastres espetaculares, espaços para a vida de celebridades e histórias bizarras (risos).

- (sem comentários)

- Mas para continuarmos com o bloco internacional, manter a audiência e fazer um jornal sério vamos reduzir os gastos. Diminuir as viagens dos nossos correspondentes e criar uma nova agência de notícias, fixa e exclusiva nossa.

- O governo diz que vai apoiar!

- Apoiar? Isso é censura. Estamos voltando à ditadura militar. Jornalismo sério... sei... sei...

- Não está exagerando um pouco, não? Só porque agora tem mais responsabilidade e serviço? (risos)

- Ronaldo, veja só. Tirando a parte que vou ter que trabalhar dobrado, as pessoas precisam se acostumar a escolher o que lêem. Vamos decidir por elas, pow?

- Você não está sendo radical demais? Pense na praticidade que cada cidadão (leitor, telespectador, ouvinte) terá ao consumir nossa informação? Toda selecionada e preparada para determinados públicos?

- Não quero ir contra o editorial da minha empresa, mas com esta nova lei entrando em vigor onde ficará a imparcialidade? A democracia? A credibilidade pela divulgação das notícias?

- Onde está a liberdade de imprensa?!

- Chaaaarles, presta atenção! Temos total liberdade para isso. O governo está apoiando, teremos todos os recursos possíveis, tudo é garantido. A informação não será omitida. Faremos apenas a seleção do que é mais importante no momento. "Não dá para abraçar o mundo" também, né?

- Eu continuo convicto de que esta proposta do governo é um tipo de censura. Espere e verás. O tempo vai mostrar.

- ...e falando em tempo, olha a hora?

- Nossaaaa. Já são pra lá de meio dia! Tenho que ir, cara, editar uma reportagem.

- Ok. As coisas estão se acumulando por aqui também. Tenho que correr.. agora que sou um...

- Falow então.

- Falow!