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Dependência internacional

Giancarlo Sorvillo

"Independência ou Morte" foi o grito de D. Pedro I às margens do rio Ipiranga, onde foi estabelecido o marco na história do Brasil. Essa frase tem um significado profundo, um desejo de soberania nacional, vontade de caminhar com as próprias pernas e tomar decisões que definirão seu destino. Essa frase é tão marcante que se tornou o lema do jornalismo, um ideal a ser perseguido e a grande briga dos jornalistas brasileiros na época da ditadura militar. Centenas foram exilados, torturados e mortos por defenderem a independência editorial de seus jornais e a liberdade de expressão de suas matérias.

Todavia, se por um lado a guerra foi garantir o direito de expressar e veicular a informação, por outro, "o opresso se tornou o opressor". Se na ditadura o jornalismo era manipulado pelo governo, a fim de se adequar aos seus objetivos, e principalmente, aos seus interesses, agora é a vez dos jornais assumirem esse papel. Isso é claramente visto no jornalismo internacional e na maneira como é feito. Atualmente, 80% da informação veiculada no Brasil estão nas mãos do Grupo Abril, Rede Globo, Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo, o que já consiste no monopólio da informação. Esta, segundo os princípios jornalísticos, deve ser democrática e disponível a todos.

Claramente, os jornais Estadão e Folha, e especialmente, a TV Globo, são especializadas na formação da opinião pública, principalmente em assuntos nacionais. Porém, quando se trata de informações internacionais, a mudança é drástica e real. Perde-se a liberdade em troca de uma coleira "chique", como é visto na Folha, editoria Mundo de quarta-feira, 31 de outubro de 2007. A matéria era sobre o julgamento de soldados norte-americanos que mataram 17 civis no Iraque. Após o lead, vem o seguinte trecho: "A informação publicada pela Associated Press, e confirmada por jornais locais, provocou críticas de líderes democratas no Congresso americano". Mais adiante, o "repórter" cita fontes como The Washington Post e BBC. Depois dessa matéria, ao lado, uma pequena notícia sobre o "crescente fluxo de estrangeiros para o Taleban", que na verdade, era uma tradução do jornal The New York Times. Aliás, várias "reportagens" eram traduções do Times e agências internacionais, como a Reuters, AP, EFE e AFP.

O Estadão não fica atrás. A maior parte de suas matérias são de agências internacionais, salvo acontecimentos específicos e de grande importância, como por exemplo, a edição de terça-feira, 30 de outubro de 2007. Nela, o jornal deu ampla atenção e cobertura às eleições argentinas. Nesse caso, um enviado especial foi o responsável pela matéria de "primeira mão".

No caso dos jornais impressos, as matérias são compradas das agências internacionais ou traduzidas de outros jornais famosos. Ainda assim, elas são editadas e colocadas dentro do padrão que se encaixe com os interesses do veículo de comunicação. Um exemplo disso foi o próprio Estadão, quando deu atenção especial às eleições argentinas, pois, segundo as notícias, a atual presidente eleita "aprofundaria seus relacionamentos comerciais com o Brasil". Isso seria bom para o governo brasileiro, e como o Estadão mantém uma linha editorial pró-governo, essa é uma reportagem importante, digna de um "enviado especial" a Buenos Aires para fazer a cobertura. As "sucursais" são as agências internacionais que vendem suas notícias para os jornais que, por sua vez, manipulam a informação de acordo com seus próprios interesses. Mais uma vez, a famosa frase está correta: "a história se repete". Na época imperial, a imprensa era controlada pelo imperador, na ditadura os jornalistas deveriam fazer o jogo do governo e limitar sua influência. Atualmente, são os jornais e a TV que compram as notícias, manipulam de acordo com seus interesses e dizem que o mundo é assim. O problema é que eles se esquecem de uma coisa: essa não é a visão que o povo brasileiro tem do mundo, mas é o conceito que os europeus e os americanos têm do mundo. Mais uma vez a imprensa é internacionalmente dependente "das grandes potências estrangeiras".