ABJ    |    ABJ Media Center    |    Canal da Imprensa    |    Diário do Campus    |    O Parcial
  home |
 

Xinhua e as notícias da China Vermelha

Carina Bentlin

Os números demonstram sua grandeza. Não é para menos, a Agência de Notícias Xinhua, instituição estatal da República Popular da China, foi fundada em 1931 e não pára de crescer, assim como a economia de sua pátria, vermelha até os fios de cabelo.

O objetivo da agência de notícias socialista é informar o mundo todo e estar em todo ele. Vamos aos números: a sede em Beijing tem mais de sete mil funcionários. Com exceção de Taiwan, a Xinhua possui 32 sucursais distribuídas por diferentes cidades e tem 50 escritórios com correspondentes nas cidades de maior porte. Transpondo suas barreiras territoriais, a Xinhua possui sucursais regionais em Hong Kong, Cidade do México, em Nairobi (na África), Cairo e Paris. Cada vez mais expansiva, a agência tem redações em Nova York, Moscou e sucursais em mais de cem países.

A tecnologia é de ponta: comunicação modernizada, sistema de tratamento de informações em edições de textos, redações de fotos, comunicações jornalísticas, procura de dados e moderna rede de transmissão. Oferece radiodifusão via satélite, distribuição via linha telefônica, linha especial de telecomunicação jornalística e a internet.

Apesar da China ser fechada em seu regime socialista, a Xinhua é maciçamente globalizada e multiplural: emite continuamente noticiário em sete idiomas – chinês, inglês, francês, espanhol, árabe, russo e português. Segundo o próprio site da agência, diariamente são veiculadas mais de mil matérias, sendo 70% de informações internacionais e 30% da China.

O site assegura "o serviço noticioso sobre as questões da China que a Xinhua transmite ao exterior. É oportuno, completo, com prestígio e confiança total, e constituindo assim um importante canal pelo qual o mundo conhece a China". Será?

O veto é deles

Apreensão é o que todos devem ter sentido ao saber que a China passaria a censurar as notícias de agências estrangeiras dentro do país. Estava então levantado um muro dentro do próprio forte. Essa decisão foi tomada pelo governo chinês em 10 de setembro de 2006. Desde então toda notícia publicada dentro do país deve passar pelo crivo da Xinhua, que autoriza ou não a veiculação.

A agência, além de noticiosa, desempenha o papel de assessora de imprensa da China. A integridade e soberania do país são defendidas com unhas e dentes. O fator é preocupante, pois tudo que afete esses quesitos, é proibido de veiculação. A informação então fica ofendida e até escondida. O que dizer sobre as discrepâncias com Taiwan e Tibete e minorias étnicas? Desse modo, fica tudo para debaixo dos tapetes... vermelhos.

Há multas para toda a mídia que noticiar sem autorização do governo. Elas podem chegar a cem mil yuans (12.500 dólares). Fora do campo político, econômico e diplomático, até assuntos como grandes acidentes, desastres naturais e referentes à crise na saúde, e claro, notícias de protestos e passeatas, são barradas pelo governo através da agência Xinhua.

A china se mostra autoritária em suas decisões, sempre conflitante com a mídia. Em 2004 não se intimidou e "passou o rodo". Bloqueou acesso à versão chinesa da página Wikipédia, pois continha inúmeros artigos sobre infrações de direitos humanos na China. Fechou o fórum de discussão virtual Yi Ta Hu Tu, criada em 1999 por uma universidade e que continha 300 mil participantes. Vetou a publicação diplomática Zhanlue Yu Guanli (estratégia e administração), por causa de um artigo em que o economista Wang Zhongwen criticava o governo da Coréia do Norte. Sem contar os inúmeros jornalistas presos, intimidados e até mortos.

Algumas companhias de seguro classificaram o jornalismo como a terceira profissão mais perigosa do país. O Comitê de Proteção aos Jornalistas investiga os casos de violência contra os profissionais de imprensa. Segundo o relatório anual para a China de 2006, feito e publicado no site Repórteres Sem Fronteiras, neste ano, pelo menos 32 jornalistas foram presos neste país. Em contagem mais recente, divulgada juntamente com a campanha do Repórteres Sem Fronteiras, é recordado que a China mantém presos "aproximadamente 100 jornalistas, ciber-dissidentes e ativistas pela liberdade de imprensa". Inspirada nos próximos Jogos Olímpicos, a realizar em 2008 em Pequim, a campanha chama a atenção para o desrespeito de Direitos Humanos na China: o direito à liberdade de expressão e de opinião.

O efeito da imprensa é crucial na cobertura de situações de conflitos ou reportagens investigativas. Pode mostrar realidades que se pretendem esconder, revelar verdades que se procuram negar, provocar críticas e formar opinião. Quando isso acontece, os cidadãos podem se mobilizar para buscar mudanças, provocar transformações, derrubar regimes e parar guerras. Calar repórteres, muitas vezes é a garantia para a vetação de tudo isso.

A desculpa do governo é tentar evitar pânico com notícias infundadas de crises que possam assustar a população. Mas os especialistas asiáticos consideram a nova lei uma verdadeira camisa-de-força, que pode acabar causando mais problemas por manter na ignorância a população chinesa em meio a situações de risco.