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Mundo em pauta

Priscilla Stehling

Jornalismo Internacional, de João Batista Natali. (São Paulo: Contexto; 2004; 127 páginas).

"Coréia do Norte começa a desativar suas usinas nucleares", "Presidente do Paquistão declara estado de emergência", "Soldados turcos são libertados pelo PKK". Enfim, uma lista interminável de notícias. Mas quais publicar? Quais poderiam ser consideradas realmente significantes?

Esse é o dilema que o editor do caderno de Internacional enfrenta constantemente. São mais de 1.500 textos diários que variam desde política a desastres ambientais. Portanto, para que nenhum acontecimento relevante vá para a lixeira ao final do dia, é fundamental que o jornalista de internacional apresente muita bagagem histórica, esteja atento às políticas mundiais, e principalmente, domine vários idiomas. No entanto, mesmo com estas qualificações o redator se depara com alguns problemas que, se não trabalhados corretamente, podem comprometer o texto. Um deles é o pouco acesso direto às fontes citadas.

Com conceitos muito bem exemplificados, a obra Jornalismo Internacional, de João Batista Natali*, visa apresentar ao leitor os impasses enfrentados no dia-a-dia do jornalista que tem o mundo como campo de trabalho. A didática utilizada e a linguagem clara e objetiva tornam a leitura agradável e fluente. O livro, que foi divido em quatro capítulos, pode ser recomendado a estudantes e futuros correspondentes.

Na primeira parte, o autor discorre acerca do surgimento do jornalismo, que a propósito começou com a editoria Internacional. Ao contrário do que alguns imaginam, o jornalismo não veio com o capitalismo, e sim com o mercantilismo. As folhas impressas, que anteriormente eram vendidas somente a quem freqüentasse centros comerciais e financeiros, agora foram disponibilizadas a grupos distintos de pessoas. Natali ainda apresenta um panorama da história do jornalismo internacional no Brasil. Inicialmente as notícias chegavam por navio e somente mais tarde, por telegramas enviados das agências de notícias.

As mudanças no noticiário internacional são o enfoque do segundo capítulo. Dentro do contexto do regime militar, as vozes de jornalistas que questionavam a política e a economia do País foram silenciadas. Como conseqüência, grandes jornais e revistas da época perderam o interesse em formar grupos numerosos de correspondentes.

Mas esse não foi o único fator que influenciou na diminuição de jornalistas brasileiros no exterior. Na década de 1980, a inflação elevada aumentou os custos das equipes que recebiam em dólares. Com dívidas altíssimas, os jornais utilizaram com mais freqüência informações enviadas pelas agências de notícias. Esse quadro se propagou ainda mais com a difusão da internet, que oferecia mais informação em menos tempo, além de maior acessibilidade às fontes.

No capítulo "O fim das velhas paixões", o autor apresenta algumas características essenciais ao bom jornalista que atua nessa área. Ele destaca a relevância de ter curiosidade pela história. Há alguns anos, o engajamento político era fundamental. No entanto, a partir da década de 1980 ele começou a desaparecer das redações. Natali, entretanto, enfatiza que a idéia de que o jornalista trabalha apenas com a atualidade é equivocada.

Na última parte da obra, foi apresentada uma cronologia com as principais mudanças ocorridas na redação da Folha de S.Paulo. O autor também abordou as alterações ocorridas na forma de transmitir informação e os principais acontecimentos noticiados pelo jornal entre os anos de 1969 e 2004.

O livro é um rico material sobre a trajetória do jornalismo internacional. Com bastante autoridade, o autor, mesmo apresentando partidarismo explícito em relação à Folha, constrói verdadeiras aulas sobre notícia.

*João Batista Natali é formado em Jornalismo pela USP e em Filosofia pela Universidade de Paris-VIII. Fez mestrado e doutorado em Semiologia. Na Folha de S.Paulo já foi redator, editor de Mundo e correspondente na França, função ocupada por quase oito anos. Hoje, trabalha como repórter da Secretaria de Redação.