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Direto do front

Ellen Ribeiro e Luzia Paula

 

São inúmeras as dificuldades do jornalista que cobre uma guerra. Para enfrentar o front, ele precisa estar preparado e saber como transmitir as informações para a população. É sobre isto que o correspondente internacional, Silio Boccanera, discorre nesta entrevista.

Boccanera trabalha há mais de 20 anos como correspondente no exterior. Iniciou sua carreira do Jornal do Brasil, na década de 1970, como correspondente em Los Angeles e em Washington. Após dez anos, transferiu-se para a televisão, trabalhando em Londres pela Rede Globo.

Cobriu Europa, África e Oriente Médio durante 14 anos pela Globo. Fez coberturas de conflitos como a luta armada na América Central, guerras na ex-Iugoslávia e no Oriente Médio. É autor do livro Jogo duplo, pela Editora Moderna, ambientado no Líbano e no qual relata o mundo dos jornalistas internacionais.

Canal da Imprensa – Quais as principais dificuldades do jornalista numa cobertura de guerra?

Silio Boccanera – Há uma variedade de problemas, que variam de logística (dificuldade de chegar ao local) a barreiras de informação (cada fonte quer manipular os dados) e questões de segurança (cobrir o Iraque hoje, por exemplo, é missão altamente perigosa e, no mínimo, exige altos gastos com proteção).

O último item reforça a dificuldade adicional de custos para se cobrir uma guerra: sai muito caro e poucos veículos se dispõem a gastar, deixando então a cobertura para quem não pode deixar de fazê-lo, como as agências de notícias e os grandes veículos que redistribuem seu material pelo mundo.

CI – Como funciona o relacionamento com as fontes num ambiente totalmente perigoso e cheio de conflitos?

Boccanera – Complicadíssimo. Desde o acesso puro e simples às fontes até o fator constante da manipulação que tentam exercer. Só com o tempo o repórter in loco desenvolve suas fontes seguras, processo impossível quando ele nunca esteve na área antes, não recebeu "herança de fontes" de um colega antecessor e fica pouco tempo no local.

CI – De que forma a imprensa pode ser omissa ou parcial ao cobrir uma guerra?

Boccanera – Facílimo. Basta distorcer as informações que tem. Isso na verdade se aplica a qualquer cobertura. Só a honestidade do jornalista garante que isso não ocorra e só com o tempo o profissional desenvolve a credibilidade que leva seu leitor/ouvinte/telespectador a acreditar no que ele diz/escreve/narra.

CI – Em sua opinião, de que maneira o presidente George W. Bush pressionou e controlou a imprensa na Guerra do Iraque?

Boccanera – De maneira escandalosa, hoje fartamente reconhecida pelos próprios jornalistas que foram vítimas da manipulação e da pressão exercida por um governo não ideologicamente comprometido com sua missão, mas também desonesto na apresentação dos fatos (por exemplo: os relatórios dos serviços de espionagem sobre a presença de armas de destruição em massa no Iraque). Além disso, o governo Bush se aproveitou dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 para criar um clima de medo no país e sugerir que críticas ao governo representavam falta de patriotismo. O erro dos jornalistas foi deixar se intimidar pelo poder.

O governo britânico, sob comando de Tony Blair, tentou a mesma coisa, com menos sucesso. A imprensa britânica foi mais corajosa e manteve uma posição mais crítica diante da determinação de Blair de levar o país à guerra. O crédito se estende inclusive à televisão pública (não confundir com estatal) BBC, que distância da posição oficial e questionou o governo o tempo todo.

CI – Por que a imprensa brasileira, do mundo ocidental e americana aceitou essas pressões e, de certa forma, "colaborou" com a guerra?

Boccanera – Não acho que a imprensa brasileira tenha caído na mesma armadilha. Até porque o governo brasileiro manteve distância da aventura anglo-americana. Quanto à americana e à britânica, respondido acima.

CI – Carlos Dornelles, em seu livro Deus é inocente, a imprensa não, relata a história do coronel reformado David Hackworth, que cobriu a Guerra do Golfo para a revista Newsweek. O coronel afirma que "as restrições chegaram a constituir uma forma de controle do pensamento, levando ao público uma descrição distorcida da guerra". Em sua opinião, por que a imprensa "aceita" essas restrições de informações?

Boccanera – O coronel citado por Dornelles não foi o único americano – militar ou civil – a criticar a posição submissa da imprensa neste episódio. Mesmo no período de maior apoio da mídia – no início do conflito – muitas vozes se ergueram contra os planos do governo. Mas não o bastante para formar uma massa crítica. E não incluindo os grandes veículos. Desde então, vários relatórios de "mea culpa" tem surgido, a maioria dando a entender que os jornalistas se deixaram levar pelo impacto dos ataques de 11 de setembro e se deixaram manipular pela eficiente máquina de propaganda do governo Bush, que sugeria falta de patriotismo dos que questionavam o governo.

CI – Sabe-se que o controle máximo de informações se deu na guerra dos Estados Unidos contra o Iraque. Por que o governo americano busca controlar a imprensa em momentos de conflito e crise?

Boccanera – Todos os governos, sem exceção, buscam controlar a imprensa em momentos de conflito e crise. Alguns são mais bem-sucedidos do que outros. Alguma dúvida de que um governo brasileiro não faria algo semelhante se entrássemos em guerra, digamos, com a Argentina? O argumento tradicional é que em momentos assim, a mídia precisa estar ao lado do governo ou então estará traindo a pátria. Como já se disse (é título de um livro), a primeira vítima numa guerra é a verdade.

CI – É possível o jornalista ser "imparcial" numa cobertura de guerra? Por quê?

Boccanera – "Imparcial" é uma palavra carregada de conotações duvidosas. Prefiro o termo "equilibrado" para definir o valor que um jornalista deve buscar (nem sempre atinge, mas o que conta é o esforço) numa cobertura, seja guerra ou buraco de rua na esquina.

CI – Quais foram os trabalhos mais difíceis que você realizou nessa área?

Boccanera – Todas apresentaram complicações – das guerrilhas na América Central nos anos de 1970 e 1980 (El Salvador, Guatemala e a revolução sandinista na Nicarágua) ao conflito na Bósnia (anos de 1990), passando pela invasão israelense do Líbano (1982) e a Guerra do Golfo (1991).

CI – Os avanços da tecnologia possibilitaram uma melhora em coberturas de guerra? Como?

Boccanera – No caso de TV, os avanços de tecnologia facilitaram (sobretudo baratearam) a transmissão do material gravado – imagem e som. Hoje, além do telefone portátil via satélite, que dispensa torres celulares na área, pode-se enviar áudio e vídeo via laptop, como se fosse email. Substitui o processo antigo e caro de transmitir por satélite usando uma emissora de TV local. Transmissões ao vivo tornaram-se mais baratas. Isso tudo aumenta a demanda e a pressão em cima dos repórteres no campo.

Acesso à internet também permite ao repórter se manter informado sobre o que se passa fora de sua vizinhança imediata, problema que no passado deixava o jornalista isolado e fora de contato.

Quanto ao conteúdo, ainda exige a velha técnica de apurar os fatos, avaliar, selecionar e preparar o material final de maneira que o receptor entenda, mas sem tratá-lo como um imbecil.