Enquanto me dedicava à leitura dos textos dessa edição, fui tomada por uma constatação bastante simplória, mas, nem por isso, pouco verdadeira. Por trás de toda polêmica a respeito de sensualidade na mídia está a razão/sensação mais egoísta e maior geradora de lucros do mundo. Satisfação própria. O "paspalhão" compra a cerveja da "mulher gostosa" unicamente pensando em satisfazer seu ego machista e em passar dois minutos se achando "o tal". A "bobona" compra o creme da "modelo sarada" desejando simplesmente satisfazer a vaidade do "eu" na busca pela perfeição Olímpica. Nesse mundo compra-se barbeadores, cremes dentais, carros e até iogurtes (principalmente se oferecidos com apelo sexual) tendo como motivação apenas a satisfação pessoal. Tudo bem. Quem é que nunca fez algo tencionando, simplesmente, agradar a si mesmo?
Meus motivos não são diferentes. Discuto, crítico, ironizo nesta coluna, movida por um único objetivo. Alcançar a satisfação pessoal de ler um bom texto. Um texto que me acrescente algo, que mude (quem sabe) alguma de minhas concepções, que me faça refletir pertinentemente. Fico feliz em dizer que esta edição me trouxe muita satisfação. É claro que encontrei algumas moscas dentro da sopa, mas ainda assim, terminei a leitura com aquela sensação de meta cumprida.
Começamos muito bem. A reportagem foi bem escrita, contou com excelente pesquisa. A condução do tema, a abordagem escolhida me mantiveram (e creio que também aos leitores) interessada. Isso é algo muito importante. Manter o leitor interessado tem a ver com coesão, encadeamento lógico de idéias. Outra coisa que me agradou foi o número e uso das fontes. Vencemos, nesse caso, a dificuldade tão discutida, por mim e por ombudsman anteriores, de separar artigo de reportagem. Destaco ainda a criatividade na introdução e finalização do texto.
A editoria "Além dos fatos" também teve pontos altos. O texto "Erotização da sensualidade" apresentou uma "sacada" interessante ao diferenciar erotismo e sensualidade. Repito apenas, que a objetividade precisa ser empregada. Às vezes, a idéia e a pesquisa são boas, mas por navegar na repetição e subjetivismo perde-se muito do conteúdo. Já o texto "Vaidade, um pecado. Beleza, atributo divino" foi criativo, humorado, e levou a uma reflexão inesperada.
Quero discutir com vocês duas coisas importantes. Ambas relacionadas à capacidade de se fazer inteligível. A primeira, tem a ver com emprego de termos. O mínimo que se espera de um articulista é domínio da língua que fala e escreve. Colocar no meio de uma frase um termo pomposo, desconhecendo seu significado, é algo absolutamente sem lógica. Quando não se sabe o exato significado da palavra, o melhor é desconsiderar seu uso, a fim de não incorrer nessa barbárie. Há quem pense que usar diversidade de termos difíceis os faz eruditos. Já tratei deste assunto em meus textos anteriores, mas sinto a necessidade de me aprofundar mais nessa questão. Vejam bem, usar palavras fora do contexto desvirtua a idéia. Encontrei nessa edição, por exemplo, a palavra "gerir" (que se refere a gerenciar, administrar) usada como sinônimo de "sentir", "perceber". O que uma coisa tem a ver com a outra?
Outra situação similar foi o uso das palavras "conotação" e "denotação". A primeira tem a ver com "dar sentido de" e a segunda se refere a "indicação de algo, demonstração". Houve quem confundiu e misturou termos e significados. Porém, o que causou minha completa perplexibilidade foi a confusão criada por alguns com duas palavras, sumariamente, opostas. "Implícito" e "explícito". Sexo explícito e sexo implícito são antônimos absolutos. Minha gente, por favor! Implícito se refere a algo subentendido; explícito, a algo escancarado, claríssimo. É sumamente importante cuidar no emprego dos termos.
A segunda coisa se relaciona à dificuldade de expressar uma idéia. Alguns articulistas apresentam dificuldade de explanar um raciocínio. Acabam por fazer a maior confusão de idéias e, assim, suas conclusões parecem despropositadas. Aos que se identificam com o problema, volto a repetir que a solução está na objetividade e extensa leitura. Uso de períodos curtos, palavras simples (nada de pomposidade), pesquisa profunda do tema.
De tudo que li, discordo de apenas dois aspectos. Sobre a dubiedade na publicidade, não creio ser isso um insulto à inteligência do povo, ao contrário, entender uma ambigüidade exige certa perspicácia. O insulto está, talvez, no tipo de ambigüidade que se usa na propaganda do povão. Aproveito este gancho para comentar a excelente declaração do texto "Produto sensual", no qual a autora afirma que qualquer um vende usando a sensualidade, no entanto, a boa propaganda tem teor inteligente. Senti, em algumas análises certa tendência ao puritanismo. Não que preservar a moral e os bons costumes seja desnecessário. Contudo, a ótica da discussão nesta edição não direcionava-se a esse ponto preferencialmente.
Finalizando, me satisfiz com um número certamente maior de textos, que em edições passadas. Isso advém, acredito, do aumento gradativo no emprego dos elementos que caracterizam o bom texto. Fluidez, coesão e fundamento. O primeiro tem a ver com a construção gramatical dos períodos, o segundo, se refere ao encadeamento das idéias e o terceiro, se relaciona com a profunda pesquisa. Parabenizo os textos "Na boca do povo", "Muito além do erótico", "O que aconteceria se não houvesse classificação indicativa", "Balança equilibrada" e "Pânico e seus fantoches". Faço apenas uma pequena ressalva quanto aos dois últimos citados. O texto era muito extenso e isso, não raro, cansa o leitor internauta.
Tanto eu, quanto vocês, partimos para uma nova quinzena de trabalhos. Afinal, como não trabalhamos para o governo e, conseqüentemente, estamos isentos do privilégio de mamar nas tetas do estado, não podemos fazer como a digníssima Marta Suplicy, "relaxar e gozar".
Andréia Moura
ombudsman@unasp.edu.br
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