"Viver sob a ditadura era sempre um perigo. A sensação de estar sendo sempre vigiado também". (João Batista de Andrade) O golpe de estado, de 31 de março de 1964, pôs o Brasil em uma situação que, durante 21 longos anos, submeteu o povo brasileiro a um regime de força, em que imperava a censura, a arbitrariedade, a lei da mordaça, do medo e do silêncio. Nesse período, a imprensa era impedida de noticiar fatos relevantes da vida nacional e de emitir qualquer comentário ou opinião que não fosse favorável ao governo; os poderes judiciário e legislativo - câmaras municipais, assembléias legislativas, câmara e Senado federais - eram marionetes nas mãos dos impiedosos generais; já os direitos humanos, esses eram sistematicamente violados. Um Brasil rumo ao desenvolvimento, isto era o que veiculava a propaganda oficial: "Esse é um país que vai pra frente!", um dos lemas utilizados para conquistar a opinião pública.
Mas não era bem assim. Enquanto brasileiros eram assassinados, presos e torturados nos porões mórbidos da ditadura e a inflação corroía os míseros salários dos trabalhadores, para o deleite dos ditadores, a falsa moralidade era pregada e travestida com requintes de crueldade. Liberdade de expressão era coisa que não cabia naquele contexto. Manifestar qualquer insatisfação era querer pagar com a vida ou se aprontar para correr para o exílio antes que fosse tarde demais, devido às perseguições políticas. O país era um nítido retrato em preto e branco do regresso social. Os ditadores atentavam constantemente contra os direitos humanos, e os cidadãos, por outro lado, eram obrigados a viver dentro de uma espécie de "redoma de vidro".
É lógico que nem todos aceitavam inertes as imposições e aí o terrorismo era fatalmente consumado. Dados da Anistia Internacional divulgavam, em 1972, (cf. Borges, 2004) no documento intitulado Report on Allegations of Torture in Brasil, além das modalidades empregadas para a prática da tortura contra presos políticos no Brasil, o triste saldo desta guerra civil: 1.081 pessoas torturadas no regime então vigente. Esse documento só perde em levantamento de dados e informações sobre a tortura no país para o Projeto Brasil Nunca Mais, organizado pela Arquidiocese de São Paulo. Em 1995 a mesma Anistia Internacional denunciou a ocorrência de 1.500 execuções extrajudiciais, o desaparecimento de 140 pessoas e a existência de tortura em 22 países das Américas em 1994. Jacob Gorender estima que como fruto do golpe militar de 1964, cerca de 50 mil pessoas tiveram passagens pelas prisões por motivos políticos; cerca de 20 mil foram submetidas a tortura pelos órgãos repressivos, incluindo 144 dados como desaparecidos; centenas baleados em manifestações públicas; 8 mil acusados, mais 11 mil indiciados em 800 processos judiciais por crime contra a segurança nacional; centenas de condenações a pena de prisão; 4 condenações à morte (que não foram levadas a cabo); 130 banidos do território nacional; milhares de exilados; 780 suspensões de direitos políticos por dez anos com base em atos institucionais. (GORENDER, 1967)
Segundo Paulo Gil (cf. MUNIZ, 2001) a informação era uma arma de guerra e a censura uma pedra no sapato dos profissionais do Globo Repórter. E de fato era. Tudo devia ser conforme ela exigia. Os temas polêmicos e as questões sociais eram constantemente controlados, e por vezes vetados, pela árdua Censura Federal. O documentário-ficção sobre o marginal "Wilsinho Galiléia" de João Batista de Andrade é um grande exemplo disso. Ao ser liminarmente proibido de ir ao ar sob a alegação de que seria uma violência insuportável à sensibilidade da família brasileira, o filme tornou-se vítima dos mandos e desmandos da ditadura.
Com claro sentimento de repúdio ao ato político coercivo praticado pelos censores, Décio Pignatari, em Signagem da televisão (1984:21), registrou as seguintes palavras de protesto: "Como, perguntam os críticos justamente revoltados, como pretende o censor proibir que o público tome conhecimento (e ganhe consciência) de alguns aspectos miseráveis da realidade social brasileira, sob a alegação de violência, quando o nosso vídeo está coalhado de brutalidade enlatada e importada? (...) Defender a violência verde-amarela contra a violência alienígena é uma causa insuportável. Os críticos que vivem combatendo a violência na televisão caem agora em sua própria armadilha; confundindo os efeitos com as causas, não percebendo que as cenas de violência são signos muito mais denunciadores de injustiças sociais do que as pregações de boa vontade que pretendem acobertá-las, ficam esses críticos agora sem posição favorável para combater a censura que proibiu a transmissão do programa sobre Wilsinho Galiléia."
João Batista de Andrade que começou fazendo filmes para o Globo Repórter em 1974, especialista em suas abordagens questões político-sociais, conta como foi a experiência de trabalhar no Globo Repórter: "Era um programa novo e eu levei para ele minha experiência do programa Hora da Notícia, da TV Cultura - onde trabalhei ao lado do Fernando Pacheco Jordão (diretor do programa) e Vladimir Herzog (editor). Nós vivíamos sob a ditadura. Na TV Cultura eu levei avante a idéia de que era importante levar ao publico uma imagem mais realista e mais fiel do que era realmente o Brasil, nessa época em que os militares forjavam uma imagem de paz e bem estar usando releases e censura... Os melhores momentos vividos no Globo Repórter eram quando os programas iam ao ar... E a repercussão sempre muito boa depois. O pior, sem dúvida, foi a proibição de meu filme 'Wilsinho Galiléia', em 1978".
No entanto, nem sempre documentários e documentaristas tornavam-se reféns da coerção imposta pela ditadura, por mais incrível que isto possa parecer. "Milagres também existem, é verdade!", estas palavras de Paulo Gil, poderiam sem dúvida dar nome ao roteiro que conta a saga do cineasta baiano na produção conturbada do especial "Vietnã: o Preço da Paz", feito no auge da ditadura militar, em 1972 - e que certamente hoje, renderia um excelente filme. Três dias depois de ir ao ar o documentário que mostrava os horrores da guerra e trazia depoimentos importantes, como o do correspondente internacional, José Hamilton Ribeiro, que tinha feito matérias para a revista Realidade no Vietnã e, que por fatalidade, virou capa da revista ao pisar numa mina terrestre e perder a perna, Paulo Gil foi chamado pela direção da Rede Globo.
Otto Lara Resende disse que as "forças de segurança" tinham reclamado do programa e que haviam afirmado "que ele tinha uma visão comunista da guerra". E era intencionalmente ideológico, pois apresentava cenas dos guerrilheiros risonhos e o general Giap fazendo brindes à vitória; os americanos estavam sempre sujos, feridos e, quando se mostrava o general Westmoreland, ele estava visitando feridos, demonstrava preocupações, era uma imagem de derrota. Otto disse para Paulo Gil que ele não deveria se preocupar, mas que se preparasse caso tivesse de dar explicações aos coronéis da censura - que volte e meia estavam pelos corredores da emissora. Paulo Gil se manteve tranqüilo, "se é que era possível alguém ficar tranqüilo diante da possibilidade de um interrogatório militar e o eventual desemprego". O sossego dele estava no fato de que o material que ele tinha usado pertencia à embaixada americana.
Antes do ocorrido, numa festa de Ipanema dos anos 70, Gil conheceu o Adido Cultural dos EUA, chamado Hart da embaixada - e foi a ele que o cineasta recorreu quando precisou de material para completar o programa. De acordo com Gil, Hart havia colocado à disposição do Globo Repórter vários documentários americanos, principalmente o "A Noite do Dragão", de onde eu havia escolhido as cenas que irritaram os militares brasileiros. (cf. Muniz, 2001)
"Eu teria, além do Otto, os americanos me defendendo! Após o almoço aconteceu o milagre - eles existem! Dr. Roberto Marinho telefonou para Walter Clark pedindo que o programa do Vietnã fosse repetido num horário diurno pois ele havia recebido um pedido do Marechal Odilio Denis, o super poderoso militar. A coisa era simples. O marechal sabia, acho melhor colocar entre aspas esse 'sabia', que a guerra do Vietnã seria tema de redação do Vestibular e, como tinha dois netos que iam fazer a prova, considerou o programa muito bem informado, e concluía que aquele programa poderia ajudar os jovens. Foi um alívio monumental. O programa foi repetido no sábado às 11 horas da manhã, fez um sucesso maior. Escapamos."
Depois de passar por um triz da represália, veio o cumprimento do papel social do programa. É lógico que este aval não foi dado pelos ditadores ao Globo Repórter por considerar importante à informação à população, mas para beneficiar exclusivamente os netos do Marechal Odílio Denis, que estavam em vias de prestar vestibular, cujo tema, era basicamente a Guerra do Vietnã. No começo, a equipe do Globo Repórter trabalhava isolada do telejornalismo da emissora. Elaborava, produzia e desenvolvia pautas de forma "independente", se é que se pode chamar assim. O experiente Gil considera que aqueles eram tempos heróicos, em que ter opinião e produzir com qualidade crítica e visão histórica, era quase um risco de vida. E sem dúvida era.
Em época de plena ditadura militar, repressão política, pouca tecnologia e basicamente "nenhuma" liberdade de expressão, os documentários eram feitos de forma artesanal. "Uma vez Paulo Gil subiu para uma reunião com uma pauta com 30 temas e voltou com apenas seis aprovados. Havia uma outra 'leitura' para o programa. Como a censura era grave, a equipe começou a trabalhar com temas de ecologia e também temas policiais, fazendo investigações paralelas, como no caso dos assassinatos de Cláudia Lessin e Ângela Diniz, crimes que abalaram o Rio e ganharam dimensão nacional" (cf. Muniz, 2001).
Mas havia uma outra preocupação: como a veiculação era nacional e na audiência o número de analfabetos e semi-alfabetizados crescia, era preciso tratar de assuntos que interessassem a todos. Foi aí que a ecologia surgiu como um pano de fundo para a abordagem "diplomática". Mesmo diante das adversidades, o compromisso social com o espectador era mantido inabalável pelo GR. Com muito jogo de cintura, a equipe tinha de ter bastante cuidado por causa da ditadura militar.
A preocupação que até hoje existe de que os temas teriam que buscar audiência cada vez maior existia, é verdade, mas não girava só em torno disso. Queria audiência, pois é o termômetro da aceitação do público, mas sobre tudo, apresentar um produto audiovisual de qualidade, baseado no real.
Porém, junto com o sucesso crescia também a censura. Para driblá-la a equipe começou a trabalhar com temas de ecologia. "A ecologia era uma bela saída, um mérito que o Globo Repórter merece: foi o iniciador de programas ecológicos, o popularizador da palavra Ecologia e das expressões Meio-Ambiente e Eco-Sistema. A descoberta da ecologia foi uma espécie de libertação, pois, como se fosse uma guerrilha cultural, podíamos falar de tudo que era proibido apenas falando de ecologia" conta Luiz Carlos Maciel (cf. Muniz, 2001).
Na década de 70, a equipe do GR era obrigada a enviar os textos para Brasília com oito dias de antecedência. O programa só era liberado após a exibição em circuito interno e a aprovação dos censores. Por isso, tinha vários documentários (internacionais) de gaveta. E são tantas as histórias para contar...
Quem, que hoje assiste ao Globo Repórter com cenários tridimensionais, vinhetas ultra-computadorizadas, poderia imaginar como foi o episódio do aniversário da morte de Getúlio Vargas nos bastidores do GR? Só mesmo Paulo Gil que estava produzindo o especial juntamente com a equipe que pode nos contar (cf. MUNIZ, 2001): "Estávamos preparando um especial. Já havíamos antes lidado com material sobre Getúlio, já tínhamos trabalhado sobre sua carta testamento, enfim pretendíamos um programa limpo e isento. Claro que a empresa tinha ficado preocupada. Embora não fosse habitual, Armando Nogueira apareceu na ilha de edição quando o material estava sendo editado. Olhou tudo em silêncio, sugeriu que fosse colocada uma íris destacando Tancredo Neves no enterro em São Borja e subiu para sua sala. De lá mandou que eu subisse. E me disse que Dr. Roberto havia pedido para que não se citasse a carta testamento.
Isso acabava com uma das seqüências mais bonitas do programa : o enterro pelas ruas do Rio para o embarque do corpo, o povo chorando, aquelas coisas, e sobre as imagens o texto da carta que era também lida na banda sonora. Tentei argumentar que a carta já tinha sido usada no GR. Armando me disse que nós tínhamos que obedecer a ordem. Perguntei se eu podia falar com Dr. Roberto. Com sua concordância telefonei de lá mesmo para Dr. Roberto que me atendeu com a gentileza de sempre. Falei sobre o programa, a importância da carta e tentei dar um golpe de malandro. Disse que o Armando tinha me dito que ele estava preocupado com a carta, etc. Em obediência a ele, eu gostaria de saber 'quais os trechos da carta que o senhor desaconselha serem usados?' Dr. Roberto ouviu paciente e à minha pergunta respondeu : 'Toda a carta'. Ele era gentil mas era também definitivo. Aproveitei a paciência e disse: Dr. Roberto, esta carta hoje é apenas histórica. Se nem na época ela causou maiores rebuliços porque causaria agora? E ele me disse: 'Meu filho, ela não vai causar nenhum rebuliço. Getúlio está morto, mas há ainda muita gente viva a quem ela incomoda. Muito obrigado por pedir conselhos'". Paulo Gil achou por bem seguir a opinião sóbria e experiente de Roberto Marinho. E o programa foi ao ar sem a carta testamento do presidente, usando música fúnebre, dando um tom até mais dramático. (cf. MUNIZ, 2001)
A história de Getúlio é uma das muitas outras que Paulo Gil tinha para contar. Algumas pareciam até um roteiro de filme de espionagem, como define a filha do cineasta Paula Muniz. Certa vez, um coronel que assessorava outro (Paiva Chaves) e que havia dado baixa do Exército, a quem Paulo Gil considerava "gente finíssima" (sic), um dia confidenciou que o cineasta estava sendo observado pelos militares. Havia até um carro que ficava estacionado nas imediações da casa 204 da rua Pacheco Leão observando quem por lá circulava, conta, ao imediatamente perguntar ao cineasta se ele poderia deduzir o motivo.
Gil respondeu irreverentemente: "Braumary eles é que devem saber, como vou poder adivinhar? E ficou nisso. Quando voltei para o GR, vi o carro e os policiais (ou militares), olhei para eles, eles me olharam e depois disfarçaram, mas não foram embora. No dia seguinte lá estavam eles. Ou eu me acostumava a isso ou deixava a paranóia tomar conta de mim. Naquela semana se comemorava cem anos das primeiras manifestações da pintura impressionista. Eu tinha um excelente documentário sobre os pintores impressionistas, de uma série americana de arte chamada Museum Without Wall. O programa foi ao ar e como se uma coisa tivesse a ver com a outra, o carro não voltou no dia seguinte, nem nos outros. Aí só ficou a loucura de todo dia procurar ver se eu estava, ou não, sendo observado.
Braumary voltou com a informação que fazia os militares vigiarem a redação do GR: eu estava em permanente contato com um espião soviético, agente da KGB, chamado Dimitri. E que eu também tinha estado com ele no aeroporto Santos Dumont e, embora separados, embarcamos no mesmo avião para São Paulo. Em São Paulo eu tinha sido seguido até o Hotel Higienópolis, mas o espião - talvez por mais competência - eles tinham perdido no trânsito. Corri para a sala do Otto, ele chamou o Paiva Chaves, eu expliquei então a origem das suspeitas dos militares e acabou a vigilância. Por que? Eu estava produzindo a série O Mundo em Guerra, escrita e editada por um sobrevivente do Gueto de Varsóvia e do campo de Mautthausen, Marcos Margulies".
O narrador da série "O Mundo em Guerra" era o ator Walmor Chagas. Como Walmor viajava para os países que foram cenários da guerra, Paulo Gil sempre pedia para que ele visitasse as cinematecas e trouxesse materiais que pudessem render bons programas. Numa dessas viagens, a Stalingrado, Walmor voltou com a informação de que havia um documentário - que Cosme Alves Neto, então diretor da Cinemateca do MAM, havia dito que era maravilhoso - "A Marcha para O Oeste". O audiovisual mostrava a defesa de Stalingrado, Leningrado e Moscou. Era a guerra vista pelos olhos dos soviéticos, material raro, que nem mesmo a Cinemateca de Berlim possuía.
Foi então que Gil pediu a José Cordeiro, produtor de jornalismo, que fizesse contato com a embaixada e tentasse obter o material. A embaixada mandou Dimitri, funcionário que daria início às conversas e iria negociar a venda do material. Dimitri apareceu com o documentário e o preço, na época, 15 mil dólares. Ele sempre avisava antes de aparecer. O mais curioso é que sempre quando ele chegava tinha "vigilantes" seguindo os passos dele. Paulo Gil diz que não tinha a menor idéia se eram ou não espiões da KGB. "Certamente - não sei ao certo, presumo - ou o telefone da embaixada ou o do GR, estava grampeado e os 'vigilantes' acompanhavam ele. [...] Ele vinha porque a gente tinha se metido numa brutal confusão de moedas, diplomacia, espionagens".
Para complicar a situação, a embaixada não queria (ou podia) nem receber em dólares, nem no Brasil. Queria pagamento em rublos e em qualquer lugar da União Soviética. No final das contas, tudo foi solucionado. A burocracia "mercantilista" esmaeceu, e depois de tanto sufoco, um administrativo brasileiro da embaixada recebeu em cruzeiros mesmo a quantia devida e a dívida foi finalmente quitada.
A ditadura, liderada pelos generais, perseguia com mãos de ferro os jornalistas e com os profissionais do Globo Repórter não era muito diferente. A sensação era a de estar sempre sendo vigiado era permanente, conforme João Batista de Andrade e Paulo Gil Soares. A coerção exercida sob a população era tanta que, em linhas gerais, a ditadura queria fazer acreditar a todo custo que toda pessoa tinha a obrigação de vigiar a outra, suspeitar do seu vizinho, colega de trabalho, amigo ou parente.
A exemplo da tirania imposta, Paulo Gil (MUNIZ, 2001) destaca as proibições de imagens e palavras de dois documentários que o GR havia acabado de adquirir. Na concepção dos censores trechos deles representavam uma ameaça à ordem nacional: "Primeiro compramos um material da Produtora Wolper, americana, um documentário muito interessante que era a chegada de Jesus em Jerusalém e todos os outros episódios disso decorrentes; a traição de Judas, sua prisão julgamento e morte, como se tivesse visto e reportado por um repórter de época, buscando a verdade dos fatos. A censura não deixou passar as palavras exércitos (romanos...) generais (romanos...) traição (de Judas...) denuncia (contra Jesus...) processo...
Segundo, compramos do grupo americano Time/Life um documentário, As Memórias de Kruschev, onde o ex-secretário do Partido Comunista da União Soviética denunciava os crimes de Stalin. Eles, os militares, proibiram que se exibissem os trechos da Revolução Bolchevique, as imagens de Lenin mobilizando as massas, a visita de Kruschev à ONU e mais vinte e seis cortes de seqüências inteiras. O resultado ficaria desastroso. Desistimos do documentário".
Mas que tipo de ameaça era essa? Que "ordem nacional" era essa? A política de repressão social, essa sim era um perigo eminente à vida, à integridade, ao "respeito" e à liberdade de expressão nacional. A perseguição tenaz aos opositores políticos, iniciada pelo Estado Novo de Getúlio Vargas, representava o exercício pleno de atrocidades que ia contra comunistas e suspeitos de simpatizar com a doutrina marxista-leninista. Na visão dos ditadores todos pareciam conspirar contra a nação. Intelectuais, artistas, estudantes, líderes comunitários, sindicais, operários, com alguma militância política... Esses eram alvo de perseguições, cárceres, torturas e morte e alguns tiveram de fugir do país em busca de asilo político.
Para dar suporte a esta rede paranóica de "defesa" da nação, foram adestrados agentes policiais que agiam sorrateiramente trocando informações e experiências sobre os métodos e as técnicas mais avançadas de torturas. Frieza e sigilo eram fundamentais para o bom andamento desta comunidade de informações. Esses serviços de inteligência iam se aprimorando e ganhando novos aliados. Ao criar a rede de informantes que apontavam os eventuais opositores à ditadura - tinha-se também a realização de ódios pessoais, delatando vizinhos e companheiros de trabalho por puro espírito mortal de vingança.
A doutrina de segurança nacional tinha como plano ideológico salvar o país de seus inimigos nem que para isso tivessem que ferir os "direitos" dos outros cidadãos. Rasgavam-se constituições, editavam-se atos institucionais, decretava-se estados de sítio, em que prevalecia não o direito do povo, mas o direito unilateral e autoritário da repressão.
O professor, mestre e doutor em Direito Penal e Processual Penal, José Ribeiro Borges (2004) destaca que durante a vigência do Ato Institucional nº 1 foram cassados os mandatos e os direitos políticos de três ex-presidentes da República, seis governadores de Estado, dois senadores, 63 deputados federais e mais de 300 deputados estaduais e vereadores. Procedeu-se à reforma compulsória de 77 oficiais do exército, 14 da marinha e 31 da aeronáutica. Foram demitidos cerca de dez mil funcionários públicos. A título de contextualização, em 1945, Getúlio Vargas foi derrubado pelos militares.
Depois de criar o Ministério do Trabalho, a Petrobrás e de contribuir para a formação do Partido Social Democrata (PSD) e do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), Getúlio elegeu-se Senador, e anos mais tarde, presidente pelo PTB. Ao ser combatido pela oposição conservadora civil e militar, veio o escândalo do envolvimento do chefe de sua guarda pessoal no atentado contra o jornalista Carlos Lacerda - o que levou as Forças Armadas a exigir sua renúncia. Suicidou-se com um tiro no peito na madrugada de 24 de agosto de 1954, dentro do Palácio do Catete.
Diante da pressão da sociedade civil, da Ordem dos Advogados do Brasil, da Associação Brasileira de Imprensa, de setores da Igreja Católica e de algumas Igrejas de fé protestante, da Comissão Justiça e Paz e das Comissões de Direitos Humanos, entre outras entidades, esboçou-se (cf. Borges, 2004) em nível nacional uma reação contrária a existência de presos políticos, lutando para que fossem anistiados, o que acabou resultando na aprovação da Lei 6.683/79. Lei esta que concedia anistia a todos quantos, no período entre 2 de setembro de 1961 e 15 de agosto de 1979, que cometeram crimes políticos ou conexos com estes, crimes eleitorais, aos que tiveram seus direitos políticos suspensos e aos servidores da Administração Direta e Indireta, de Fundações vinculadas ao Poder Público, aos servidores dos Poderes Legislativos e Judiciários, aos militares e aos dirigentes e representantes sindicais, punidos com fundamento em Atos Institucionais e Complementares, excetuando-se apenas do benefício os que tivessem sido punidos pela prática de atos de terrorismo, assalto, seqüestro e atentado pessoal.
José Ribeiro Borges explica como se deu a polêmica lei que previa a anistia não só de torturados, mas também de torturadores: "A lei 6.683, de 28 de agosto de 1979, recebeu aplausos, mas também mereceu críticas, mercê de aspectos polêmicos que revestiam os reclamos pela sua aprovação. A Ordem dos Advogados do Brasil, pelo voto unânime do Conselho Federal, aprovou o trabalho de Eugênio Roberto Haddock Lobo, em que, sob a denominação 'Os Advogados Brasileiros e a Legislação Sobre Anistia', pugnou pela extensão da abrangência da lei de anistia.
Sob o protesto das entidades ligadas à defesa dos direitos humanos, a lei acabou por anistiar também os torturadores e recebeu acerbas críticas por parte da intelectualidade, avultando a posição assumida por Dalmo Abreu Dallari, o qual, em artigo publicado na imprensa, levantava a inconstitucionalidade da lei em casos de homicídios praticados por torturadores, posto que, em vigor à época de sua promulgação a Constituição de 1967, com a nova redação que lhe deu a chamada Emenda Constitucional no 1, de 1969, estabelecia-se a competência do Tribunal do Júri para o julgamento dos crimes dolosos contra a vida. Uma lei ordinária não podia, então, a seu ver, contrariar o texto constitucional, anistiando, sem julgamento, crimes dessa natureza.
Em 19 de outubro de 2004, a diretoria da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) manifestou em Nota Oficial seu veemente repúdio à resposta do Centro de Comunicação Social do Exército a respeito da série de reportagens "Arquivos da Repressão", publicada no jornal Correio Braziliense, no dia 17 do mesmo mês e ano. A matéria destacava fotos inéditas, mostrando, supostamente, de que forma o jornalista Vladimir Herzog teria sido humilhado, pouco antes de ser assassinado nos porões da ditadura, em 25 de outubro de 1975.
Além de protestar contra esse tipo de manifestação que legitima a tortura e o assassinato de cidadãos por órgãos do aparato de Estado e admite a censura e o cerceamento às liberdades democráticas, a FENAJ exigia que o Governo, numa demonstração de maturidade institucional e respeito aos direitos humanos, promovesse uma ampla investigação sobre as condições de morte ou desaparecimento, dos seguintes jornalistas brasileiros: Joaquim Câmara Ferreira - Morto em 1970; Edmur Péricles Camargo - Desaparecido em 1974; Hiran de Lima Pereira - Desaparecido em 1975; Jayme Amorim Miranda - Desaparecido em 1975; Luís Inácio Maranhão Filho - Desaparecido em 1974; Luiz Guilhardini - Morto em 1973; Mário Alves de Souza Vieira - Desaparecido em 1970; Ruy Osvaldo Aguiar Pftzenreuter - Morto em 1972; Norberto Armando Hageber - Desaparecido em 1978; Orlando da Silva Rosa Bonfim Júnior - Desaparecido em 1978; Luiz Eduardo da Rocha Merlino - Morto em 1971; Wladimir Herzog - Morto em 1975; Pedro Ventura Felipe de Araújo Pomar - Morto em 1976; David Capistrano da Costa - Desaparecido em 1974; José Toledo de Oliveira - Desaparecido em 1972; Thomaz Antonio da Silva Meirelles Neto - Desaparecido em 1974.
Em busca de justiça a viúva e os filhos de Herzog propuseram junto à Justiça Federal uma ação declaratória, que tomou o número 136/76, pleiteando a responsabilização da União pela sua prisão, tortura e morte do jornalista. A decisão favorável do juiz Márcio José de Moraes, datada em 27 de outubro de 1978, serviu como um marco na resistência da Justiça brasileira contra os desmandos do regime militar.
Por mais estranho que possa parecer, a ditadura ainda não acabou. Apenas mudou de facção. Agora ela é detida, não mais nas mãos sórdidas dos militares e não concentra-se totalmente sob o controle dos poderosos senhores de governo, mas nas mãos dos criminosos escondidos nos becos escusos dos crimes organizados, do tráfico de drogas, de armas, de mulheres, de crianças e de adolescentes.
O cenário continua basicamente sendo o do Brasil dos abismos sociais, que em 2004, assumiu uma escala bem mais significativa. E é nessa ditadura vivida no século XXI, semelhante à que estava em vigor de 1964 a 1985 (pelo menos teoricamente, e por que não dizer, oficialmente) que houve um up grade das técnicas de repressão usadas no passado, e que desta forma, continua a imperar a lei não escrita do silêncio, da violência, da impunidade e da população refém do medo de represálias. Ora, se é assim, então, até que ponto a morte de Tim Lopes se assemelha com a de Wladimir Herzog?
Em tudo ou quase tudo. Tim e Wlado eram jornalistas e foram perseguidos, presos, "julgados" e torturados até morrer. A diferença é que Herzog foi enforcado no DOI-CODI em São Paulo, em 1975, pelos militares, enquanto Tim foi morto na Favela Cruzeiro, no Rio de Janeiro, em 2002, e teve o corpo esquartejado e queimado pelos criminosos comandados pelo traficante Elias Pereira da Silva, o Elias Maluco, e seus comparsas. O ritual de atrocidade chegou a tanto que no caso de Tim, que os restos mortais tiveram de ser identificados por exame de DNA, já no de Herzog, os executores tiveram a audácia de noticiar que ele havia se suicidado, para se livrar de possíveis suspeitas.
A reportagem datada em 12 de junho de 2002, originalmente publicada no jornal O Estado de S. Paulo, noticiou: "Polícia anuncia ter achado corpo de Tim Lopes A polícia não tem mais dúvidas de que o corpo encontrado na manhã de ontem, no alto da Favela da Grota, no Complexo do Alemão, zona norte, é do jornalista Tim Lopes, da Rede Globo. Ele desapareceu na noite do dia 2, quando investigava denúncias de exploração sexual de menores e de tráfico de drogas em um baile funk da Favela Vila Cruzeiro, na Penha. (...) A polícia encontrou o corpo em uma cova rasa, ao lado do campo de futebol da associação de moradores e a 50 metros de um lago que a polícia acredita ser um cemitério clandestino. Um crânio perfurado à bala, pedaços de arcada dentária e partes de uma microcâmera foram localizados. A partir de uma placa numerada (117.985), a Globo confirmou que o equipamento era o usado por Lopes. A lâmina de um facão, um cordão com crucifixo e os restos de um relógio e de uma pochete estavam enterrados na cova. Uma camisa parecida com a do repórter também foi achada".
Se por um lado reportagens como esta de Rodrigo Morais, deixam claro o sacrifício brutal de cidadãos do bem, por outro, nos leva a considerar Vladimir Herzog e Tim Lopes mártires da sociedade - assim como também cada um dos outros jornalistas que tiveram sua respectiva liberdade de expressão e seu direito à vida cerceados ao longo das décadas também os são. Claro que foram assassinados, em contextos distintos, é verdade, mas quando tentavam justamente defender a população do crime dos ditadores, usando suas melhores armas, o uso da palavra por meio das denúncias. Eles foram executados sumariamente, no entanto, seus exemplos de sentimentos missionários pela profissão e pelo povo brasileiro, servirão de lição a gerações e gerações (presentes e futuras). A morte deles traz à tona um fato dramático: a injustiça social, o desdém à vida humana, aos direitos humanos e à democracia.
O sangue de inocentes jornalistas sendo derramados, quase todos os dias, enquanto políticos que deveriam tomar alguma medida para deter a ação dos criminosos, não o fazem por motivos que não nos são claros. Depois da época eleitoreira, alguns políticos parecem se preocupar dentro de seus gabinetes apenas com salários cada vez mais astronômicos e quando saem dali, nem todos ousam pôr os pés em uma favela, mas quando vão, seguem dentro de seus carros de luxo blindados ou a bordo de jatinhos e de longe avistam à miséria, à violência, a saúde pública sucateada e à impunidade de estelionatários, traficantes, assassinos de gente honesta. Ou seja, as mazelas humanas são vistas sim, mas à distância, e talvez por isso, o Brasil hoje se encontre nesta lamentável desordem e regresso social.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ANDRADE, João Batista. Entrevista cedida via e-mail à jornalista Alessandra Silvério. 16-jun-2004. BORGES, José Ribeiro. "Novas formas de tortura no século XX". Cadernos de Direito, Unimep. 27 - 10 - 2004. Disponível em: FENAJ. Nota Oficial. 19 - out - 2004. GORENDER, Jacob. Torturas e torturados. 2. ed. Rio de Janeiro: Idade Nova, 1967. MUNIZ, Paula. "Globo Repórter: os cineastas na televisão". Mnemocine. 13 - ago - 2001. Disponível em: O ESTADO DE S. PAULO. Disponível em: Acesso em: 20 ago. 2003. PIGNATARI, Décio. Signagem da televisão. São Paulo: Brasiliense, 1984. REDE GLOBO. Globo Repórter - Wilsinho Galiléia. Rio de Janeiro: CEDOC.
*Alessandra Silvério é jornalista, formada pela Universidade Tuiuti do Paraná e pós-graduada em Comunicação Audiovisual pela PUC-PR. Este énsaio é um trecho do livro 37 anos de documentário na maior TV do Brasil, de sua autoria. Contato: alejornalismo@yahoo.com.br. |