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... fosse comum mentir para a fonte?

André Leite

- Alô!

- Alô, Luís! Quem fala aqui é o Menezes.

- Ô, Menezes! Quanto tempo, companheiro!

- Na verdade, não tanto tempo assim presidente. Faz dois dias que a gente não se fala. Lembra do churrasco de domingo, na Granja?

- É verdade. Mas o costume de falar "quanto tempo" é mais forte. Essa coisa de guichê é muito natural?

- Guichê?

- É. Guichê é aquela frase ou palavra que a gente usa e repete muitas vezes, sabe?

- É clichê, Luís.

- Pode ser. Não passa de um detalhe.

- Ok, então. Luís, eu queria fazer uma entrevista com você.

- Sem problemas, Menezes. É pra Folha de Brasília?

- Sim. E eu vou falar sobre os escândalos que envolveram o seu governo.

- Calma aí, companheiro Menezes! Que negócio é esse de escândalos?

- Luís, você tem que dar satisfações à população, já que seu governo acaba no fim do ano.

- Tenho, é? Mas eu não vou nem disputar a presidência nas próximas eleições?

- Luís, eu sei que você é uma pessoa de bem. Abra o seu coração pra mim.

- Não sei não.

- A gente se conhece há tempos, amigo.

- Isso é verdade.

- Então, vamos gravar.

- Opa! Como assim, gravar?

- É só pra eu registrar, Luís. Pela confiança que já temos um no outro há tanto tempo, você acha que eu seria capaz de trair sua confiança?

- Bom, o Genoíno, o Zé, o Antônio, de certa forma...

- Luís, eu não sou político.

- É. Tem esse ponto positivo. Opa! Já tá gravando?

- Na verdade, desde o início. Mas não te preocupa. Nada que não deva ser revelado vai aparecer no jornal.

- Então, tá bom. Vamos logo à entrevista.

- Ok, gravando então.

- Ué, mas já não estava gravando.

- É o tal do “guichê”. Antes da entrevista a gente sempre fala isso. Então, gravando.

- Prossiga.

- Presidente, em seu governo houve o "mensalão", o "dossiê tucano", os "sanguessugas", e mais recentemente o "escândalo do gás". Como você analisa esses momentos de crise?

- Eu não sabia de nada.

- Ah, fala sério, Luís! Sou eu, o Menezes.

- Hmmm... Sei não.

- Luís... A amizade.

- Ok. Na verdade eu sabia sim. Eu te dou a resposta pela amizade. Mas você só publica o meu "guichê": "Eu não sabia de nada". Ok?

- Combinado.

- Então, vamos abrir o coração. Eu sabia sim. Sabia do envolvimento do carequinha, do Zé, do Delúbio, do Genoíno, do japonês, do Palocci, de todo mundo.

- Do Duda também?

- Claro! O Duda é companheiro de tempos. Fez minha imagem. Eu devo boa parte do meu sucesso a ele, não acha?

- É verdade. Bom, já que você sabia de todos os esquemas, Luís, me diga: você se envolveu?

- Ô Menezes! Tá ficando quente o papo, hein?

- Pela amizade. Abra o coração para o Brasil. Ou melhor, pra mim.

- Bom, eu... eu... Ok. Eu não montei o esquema do mensalão, mas achei a idéia sensacional. Uma maletinha com dinheiro aqui, outra ali, e várias medidas aprovadas. Foi a saída pra contornar a forte oposição.

- E quanto ao dossiê?

- Os tucanos estavam fortes, principalmente em São Paulo. Tanto é que ganharam. A gente precisava baixar a moral deles. Nós estávamos sendo acusados por todos os lados.

- Aí, a saída...

- Foi ligar os "tucanos" a um escândalo. No caso, ligá-los ao Vedoim, que era quem vendia as ambulâncias. Mas, ô, Menezes. A resposta tem que ser aquela: "eu não sabia de nada". Acrescenta que eu sinto muito. Que sou vítima e tal.

- Pode confiar.

- Ufa! Eu me sinto aliviado podendo confiar em você.

- Eu sei amigo. Eu sei.

Mais de meia hora de conversa depois e muitos escândalos revelados "em off", a conversa entre os amigos terminou.

- Luís, aquele abraço.

- De nada, Menezes. Mas olha, nada de revelações comprometedoras.

- É...

- Como assim, é?

- É de "está bem". Combinado.

- Ok. Não vai trair minha confiança.

No dia seguinte, uma manchete histórica estampou a capa da Folha de Brasília: "PRESIDENTE ADMITE SABER E PARTICIPAR DE ESCÂNDALOS EM SEU GOVERNO".

- Alô! Quem fala?

- É o Menezes.

- Pô, Menezes! Sacaneou comigo, companheiro. Falou que não ia divulgar os escândalos e divulgou. Isso é traição.

- Oportunismo, Luís.

- E pensar que eu acreditei em você.

- O Brasil também.

- O Brasil o quê?

- Acreditou em você. Os brasileiros acreditaram.

- Ah, mas...

- São os ossos do ofício.

- Ossos ou carne desse tal de ofício, você me apunhalou pelas costas.

- Luís, vou revelar pra você: teu governo está acabando. Não preciso mais de você. Como fonte, você se torna apenas secundário ao sair da presidência.

- Mas tudo isso só por uma matéria?

- Uma matéria? Amigão, nossa conversa é conteúdo pra, ao menos, um livro.

- Um livro! Menezes, eu nunca mais dou entrevistas pra você.

- Por mim...

Choramingando, o futuro ex-presidente tenta uma última cartada.

- Menezes, me poupe ao menos do livro. Pela amizade. Lembra do churrasco?

Assim como a pergunta, a resposta também remeteu a declarações anteriores.

- Luís, eu vou te dizer: "Eu não lembro de nada".